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    Bird Box: O que significa o sucesso do filme da Netflix? (Análise)
    Por Renato Furtado — 5 de jan. de 2019 às 09:23
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    45 milhões de contas assistiram ao suspense, mas o que isso quer dizer?

    Quase duas semanas depois da estreia de Bird Box, já é seguro dizer que o suspense da Netflix estrelado por Sandra Bullock é, no mínimo, um divisor de águas para a gigante do streaming — pelo menos no que se refere ao número de visualizações do thriller de Susanne Bier (The Night Manager). De acordo com dados da companhia californiana, comemorados pela empresa em seu Twitter, Bird Box tornou-se o original Netflix mais assistido de todos os tempos, tendo sido visualizado por mais de 45 milhões de contas em todo o mundo. Mas para além da frieza estatística, o que este dado realmente significa?

    No momento em que o montante (45.037.125 contas viram o longa) foi anunciado — contrariando a estratégia de comunicação padrão da Netflix, que não costuma divulgar informações sobre o "ibope" de suas produções —, a soma levantou algumas questões imediatas. Dentre aqueles que focaram no prisma da plataforma da empresa em si, surgiram perguntas tais como: "o que conta como uma visualização para a Netflix?"; "Quantos pessoas têm acesso às mesmas contas?"; e "As 45 milhões de contas traduzem-se em 45 milhões de views diretos de Bird Box por titular ou não?", entre outras dúvidas.

    A própria companhia, através de uma declaração oficial, estabeleceu que cada visualização por conta é computada se mais de 70% da duração do conteúdo tiver sido vista e que cada conta, independentemente do número de pessoas que a usam, só contabiliza um view. Logo, pelo menos 45 milhões de pessoas teriam visto Bird Box em sua semana de estreia. Mas, de uma forma ou de outra, as inquisições que se referem ao claro déficit de transparência da Netflix e de suas concorrentes, como o Amazon Prime e o Hulu, já estão postas e consolidadas desde a estreia de House of Cards, primeiro êxito original da companhia.

    Por isso, para tentar compreender melhor o resultado de saída de Bird Box, vamos transportar o suspense para outro espaço, analisando-o por um viés mais "tradicional": o que aconteceria, portanto, se o thriller tivesse sido lançado exclusivamente nos cinemas e não diretamente na plataforma da Netflix? O longa teria encontrado o mesmo êxito, ou um sucesso relativamente semelhante, ou não? No fim das contas, a resposta é — alerta de spoiler — negativa, mas destrinchar a solução em si pode jogar ainda mais luz às mudanças estruturais que a gigante do streaming vem causando na indústria.

    Antes de mais nada, é de fato praticamente impossível tentar converter a quantidade de views via streaming em termos de ingressos, mas no cálculo realizado pelo AdoroCinema com base no preço médio dos tíquetes de cinema nos Estados Unidos (US$ 9,14), Bird Box teria arrecadado aproximadamente US$ 411 milhões, um rendimento de estreia sem paralelos em termos de bilheteria em solo pátrio. À título de comparação, o duplamente bilionário Vingadores: Guerra Infinita é o atual detentor do recorde de melhor estreia de todos os tempos nos EUA, com US$ 257 milhões.

    Mesmo se não levarmos em consideração que estas 45 milhões de contas pertencem ao total global de assinantes da plataforma (por volta de 137 milhões) — e não ao montante de aproximadamente 58 milhões de assinantes que residem nos Estados Unidos — e que um conjunto de pessoas pode ter visto — e definitivamente viu — Bird Box na mesma conta, o thriller já seria um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos. Mas e se esquecermos as estatísticas liberadas pela Netflix e olharmos para o projeto como a adaptação de um livro de ficção científica pós-apocalíptico com Bullock no papel principal?

    Projetos que lançam um olhar distópico para o futuro da humanidade como Bird Box o faz já não estão em voga desde o encerramento da saga Jogos Vorazes nas telonas em 2015, com A Esperança - O Final. De lá para cá, a franquia Divergente naufragou por completo e chegou a um fim precoce sem ganhar seu último filme; A 5ª Onda queimou a largada de uma potencial franquia; Maze Runner - A Cura Mortal encerrou os trabalhos com rendimentos aquém dos esperados em relação aos seus predecessores; e, mais recentemente, Máquinas Mortais abriu um rombo nos cofres da Universal.

    Em outras palavras, o atual poder de atração do gênero sci-fi apocalíptico, dominado nestes últimos anos por obras para jovens adultos, provavelmente não impulsionaria a bilheteria de Bird Box. E igualmente, a presença de Bullock, apesar de seu status incontestável de estrela de Hollywood, também não seria um ímã de público. A atriz ficou três anos afastada das telonas após Especialista em Crise e só retornou em 2018 com Oito Mulheres e um Segredo, que fez apenas US$ 41 milhões em seu fim de semana de estreia, mesmo contando com outros nomes de peso como Cate Blanchett e Anne Hathaway.

    Portanto, quando Bird Box é inserido em um contexto realista no que tange o negócio tradicional da exibição cinematográfica, Bier e sua equipe mais do que provavelmente não atingiriam os mesmos níveis de triunfo. Pode-se concluir, assim, que a distribuição da Netflix — e seu baixo custo para o usuário, que não precisa sair de casa e pagar ingresso, estacionamento, pipoca, etc. — é instrumental para o bem-sucedido desenlace de títulos como o suspense estrelado por Bullock; o supracitado Bright, que foi execrado pela crítica; o natalino Crônicas de Natal; e para as recentes comédias românticas da companhia.

    Surfando a onda do renascimento do gênero iniciada por Podres de Ricos, a Netflix atingiu um público teen com os extremamente populares Para Todos os Garotos que Já Amei e A Barraca do Beijo, duas produções que poderiam ter enfrentado um terreno hostil no amplo campo das bilheterias. Ao investir na promoção direta de seus conteúdos originais para os usuários, a gigante do streaming cria um canal de diálogo entre sua plataforma e os seus assinantes que fomenta ao máximo o interesse por seus filmes e séries, independentemente de onde venham ou quais sejam.

    Ao mesmo tempo em que a estratégia de distribuição exclusivamente voltada para o streaming prejudica, de certo modo, a experiência comunal cinematográfica, a iniciativa de produção da líder do segmento viabiliza o sucesso de projetos que poderiam ser rapidamente descartados, como também resgata outros do limbo — casos de The Irishman, de Martin Scorsese, e de O Outro Lado do Vento, o filme perdido de Orson Welles. Ao expandir seu domínio sobre os dois âmbitos (o popular e o "cult"), a Netflix exerce sua abordagem total sobre a sétima arte e, principalmente, sobre o público.

    Na era dos blockbusters contemporâneos, não são raras as ocasiões em que estouros de bilheterias não se traduzem em sucessos de crítica. Mas a aprovação da imprensa especializada é facilmente preterida pela paixão do público porque são os espectadores que fazem a balança pesar. Por mais que tenham sido atacadas, principalmente nos últimos anos, franquias como TransformersPiratas do Caribe e o irregular Universo Estendido da DC contam com um apoio incondicional de sua base de fãs, que levou cada uma destas sagas ao patamar de produtos de arrecadação conjunta bilionária.

    Medir o êxito de uma produção por estrelas, dólares ou visualizações é, inevitavelmente, uma tarefa delicada, independente do método de avaliação, por causa das inúmeras questões relativas intrínsecas à missão. No entanto, é fato indiscutível que o público vem garantindo a perpetuação de sagas que, em condições normais de temperatura e pressão, encontrariam mais dificuldades. Neste começo de ano, a Netflix já tem a aclamação popular e logo, logo pode alcançar o prestígio dos prêmios, uma vez que Roma, de Alfonso Cuarón, é franco favorito aos principais troféus do período.

    O sucesso de Bird Box, portanto, é muito mais do que uma conquista individual — e também não é um atestado de validade artística e/ou de qualidade cinematográfica. O ponto é que não faz diferença, neste momento, se o thriller é bom ou ruim, ou se o filme de Sandra Bullock é o original mais visto da produtora ou não. O que importa, acima de tudo, é que Bird Box foi elevado à categoria de símbolo, um ícone da consolidação da Netflix no campo do cinema e para além do âmbito da televisão — domínio alcançado mais rapidamente por afinidade midiática, possivelmente. O que significa, portanto, o sucesso deste filme?

    Que a gigante do streaming não só ressignificou o conceito de "sucesso", como também tornou o selo Netflix em uma validação desejada e, quiçá, necessária: 2019 pode ser o começo, de fato, da era do streaming na sétima arte.

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    Comentários
    • Bruno Pires
      É o primeiro filme produzido pela NETFLIX que realmente compensa assistir. Todos os outros são fracos, nonsense, chatos e sem graças. Espero que tenham aprendido com os erros e façam BONS FILMES, é o mínimo!
    • blmmg
      Mais uma coisa sem pé nem cabeça da Netflix, Deveriam criar um prêmio especial para Netflix ,coisas sem noção, Esperando os próximos capítulos do Monstro deCloverfield.
    • Jonathan Kennedy
      Falou tudo, Adoro Cinema, é por isso que eu nunca vou cancelar a Netflix, eu amo os dois, a Netflix e o Cinema.
    • ᴏ ᴄᴏʟᴇᴄɪᴏɴᴀᴅᴏʀ ᴅᴇ ᴄᴏʀᴘᴏs ☠ 🐛
      E quem não gostou lembrou aquele Fim dos tempos kk
    • FSociety
      Nossa eu gostei, e quando estava assistindo me fez lembrar outro filme bacana...Um lugar silencioso.
    • Vidamell Vida R.
      sucesso estrondoso.
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