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Em Chamas: “Eu queria mostrar a solidão e alienação dos jovens nos dias de hoje”, explica o diretor Lee Chang-Dong (Exclusivo)
Por Bruno Carmelo — 17/11/2018 às 09:50
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O medo e a paranoia em um mundo sem sentido.

Estreou esta semana um dos filmes mais aclamados do último Festival de Cannes: Em Chamas, suspense de Lee Chang-Dong que venceu o prêmio dos críticos (FIPRESCI).

A história, adaptada de um conto de Haruki Murakami, gira em torno do jovem Jong-soo (Yoo Ah-In) que reencontra uma antiga amiga por quem tinha interesses amorosos, e o novo colega dela, um homem rico e misterioso que acaba de chegar da África (Steven Yeun, de The Walking Dead). Aos poucos, este último confessa praticar um crime regularmente, sem a mínima culpa, para o espanto de Jong-soo que se torna paranoico na intenção de impedir o próximo ataque.

Através de uma tensão permanente, a história mistura sexualidade, violência e mesmo a política internacional. O AdoroCinema conversou em exclusividade com o cineasta sobre Em Chamas:


O que o levou a acreditar que o pequeno conto de Murakami serviria a um longa-metragem? Qual liberdade você teve para modificar e expandir a história? 

Lee Chang-Dong: O conto de Murakami, "Queimar Celeiros", é sobre um homem que queima um celeiro (uma estufa, no caso do filme) como passatempo. O texto sustenta um pequeno mistério a respeito: ele realmente queimou o celeiro? O conto termina sem resolver isso, e eu me interessei pelo final ambíguo. Queria expandir esse pequeno e breve mistério de forma cinematográfica, com múltiplas camadas de mistérios maiores.

No início, Murakami queria ler o roteiro antes de assinar o contrato. Mas depois que enviamos, ele não comentou nada. Por isso, na hora de adaptar para o cinema, eu e a roteirista tivemos total liberdade. O filme foi realizado segundo as nossas próprias intenções e ideias.

Jong-soo (Yoo Ah-In), Hae-mi (Jeon Jong-seo) e Ben (Steven Ueun)

O filme dedica um tempo considerável à construção dos personagens, até apresentar o seu conflito principal. Como concebeu esta introdução?

Lee Chang-Dong: Podemos até falar sobre Em Chamas como um suspense que acompanha um mistério específico, mas é difícil vê-lo como um filme de gênero comum. Um suspense tradicional termina quando o mistério é revelado. Mas eu queria conectar o filme com o mistério de nossas vidas, o mundo em que vivemos, ao invés do fim do mistério da história.

Para produzir este efeito, os personagens e os cotidianos deles, especialmente no caso dos jovens, eram mais importantes do que a narrativa. O filme procura ligar e expandir o pequeno suspense cotidiano com uma tensão maior. Mas eu não queria usar a construção do clima apenas para construir uma trama de suspense. A intenção era oferecer uma experiência cinematográfica diferente, capaz de despertar tensão e manter o suspense mesmo sem nenhuma reviravolta evidente.

O aspecto mais chocante da revelação de Ben sobre sua atividade criminal é a falta de motivação. Podemos falar sobre uma natureza humana intrinsecamente violenta?

Lee Chang-Dong: Na verdade, Ben pode ter cometido este ato de violência ou não. Ele é um personagem sombrio, que talvez seja um assassino em série, ou apenas uma pessoa jovem, rica e mimada. Sua ambiguidade está ligada à ambiguidade deste mundo. De qualquer maneira, a personalidade dele transparece o vazio de um homem moderno, que pode fazer qualquer coisa devido à riqueza e quantidade de posses, mas que não pode fazer nada ao mesmo tempo.

No quintal de Jong-soo, ele fala sobre a moralidade da natureza. De acordo com o raciocínio dele, uma inundação que mata pessoas questiona a moralidade da natureza. Se alguém morre, há outro nascendo em algum lugar. Se na África morrem de fome, isso faz parte da lógica da sobrevivência do mais forte, é também a lógica do capital. Mas será que esta crueldade faria parte da natureza humana? Eu acredito que não.

O público é convidado a participar de um jogo de adivinhações e paranoia, porque as pistas podem ser verdadeiras ou não. Somos colocados em posição ativa. 

Lee Chang-Dong: Em Chamas é um filme que questiona o espectador o tempo inteiro. Entre os personagens, qual é a narrativa real? O cinema reflete os desejos ocultos do público. Hoje em dia, o público que vai às salas de cinema parece querer uma narrativa cada vez mais simples e fácil. Então, eu queria que ele decidisse qual a narrativa contaria para si mesmo.

O personagem principal, Jong-soo, é um contador de histórias em busca de sua própria narrativa como aspirante de escritor. Ben também diz que um dia quer contar a sua história para Jong-soo. Hae-mi, que conta histórias do poço, também pode ser uma contadora que constrói sua própria história. Qual é história que Ben quer contar um dia? A história da Hae-mi é verdadeira ou falsa?

De que maneira a tensão sexual entre os três personagens influencia no suspense? 

Lee Chang-Dong: Eu não queria enfatizar o desejo sexual neste filme. O desejo de Jong-soo está reprimido. Aparecem algumas cenas de masturbação no filme, e eu queria mostrar a solidão e alienação dos jovens nos dias de hoje. O sexo é uma parte importante da vida, especialmente para homens e mulheres jovens e solteiros. O sexo pode acontecer de repente como algo leve, mas às vezes tem que ser resolvido sem ninguém.

Hoje em dia, para os jovens na Coreia, Honbab (comer sozinho) e Honsur (beber sozinho) são práticas populares, assim como Honsex (sexo sozinho) se tornou uma rotina. Eu queria que o público percebesse que existe algo diferente na cena de masturbação. Como Hae-mi diz no filme, a masturbação é mais próxima do ato de “esquecer a falta” de um contato verdadeiro.

O filme trabalha com aspectos políticos claros como pano de fundo: a proximidade da Coreia do Sul com a Coreia do Norte, as decisões tomadas por Donald Trump... 

Lee Chang-Dong: O mundo em que vivemos hoje é curioso: por fora, ele parece cada vez mais materialmente abundante, sofisticado e adequado às pessoas. Mas a vida dos indivíduos se torna cada vez menor e insignificante. A desigualdade econômica está pior do que antes. No entanto, paira uma aparência de normalidade, como se nada estivesse errado. O mundo se tornou um enorme mistério.

Uma ligação telefônica no meio da noite é um elemento de tensão que encontramos em nossa vida diária. A política que acompanhamos nos noticiários da televisão, também. Todo mundo sabe que a política está errada, mas ninguém se revolta, porque temos a impressão de que nada vai mudar. O caso das Coreias, com a divisão entre o Norte e Sul, faz parte desse contexto, assim como o governo Trump. A vida cotidiana é governada por mistérios cotidianos, muita vezes esquecidos ou subestimados.

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