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    Festival do Rio 2018: Azougue Nazaré retrata embate entre Maracatu e igreja evangélica
    Por Vitória Pratini — 10 de nov. de 2018 às 18:00
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    Filme do produtor de Aquarius e Boi Neon exibe muita música, dança e misticismo, ao mesmo tempo em que busca tolerância nos dias de hoje.

    O diretor e roteirista Tiago Melo, conhecido por trabalhar nas produções de Aquarius e Boi Neon, chegou a Nazaré da Mata, em Pernambuco, em 2014, com o objetivo de fazer um documentário sobre o Maracatu. Só que o tradicional ritmo musical e ritual de sincretismo religioso acabou ganhando vida em um longa ficcional estrelado por atores estreantes. Assim nasceu Azougue Nazaré.

    Isso foi o que revelaram o cineasta e o elenco após a exibição do filme no Festival do Rio 2018 na tarde da última sexta-feira (09), durante o tradicional debate que segue os longas selecionados da Première Brasil na sala de cinema do Odeon.

    Mestre Barachinha — poeta, artesão e músico do Maracatu, que abençoou o Festival do Rio e o público presente no cinema do Odeon com uma canção — foi um dos grandes motivadores para o projeto sair do papel. Afinal, vinha dele e do restante do elenco uma vontade de contar histórias do passado do Maracatu, porém, em forma de ficção e não documentário. Curiosamente, Barachinha interpreta um ex-membro do Maracatu que se tornou Pastor da igreja evangélica. O embate constante entre essas duas forças é um dos principais temas do filme.

    De um lado, o Pastor (Barachinha), que condena o Maracatu sendo uma "obra do diabo" e querendo converter as pessoas a saírem desse meio e "aceitarem Jesus no coração". Por outro lado, um grupo de músicos que toca no Carnaval de Pernambuco e faz duelos musicais em mesa de bar e pelo WhatsApp — entre eles, Catita (Valmir do Côco), casado com Darlene (Joana Gatis), que sofre com a ausência do marido e é devota da igreja. Ao mesmo tempo, um terceiro arco ganha força com cenas surrealistas, trazendo caboclos rondando os canaviais e, aparentemente, raptando pessoas.

    Para Mestre Barachinha, interpretar o Pastor foi uma experiência difícil, mas revela que tentou encarar o papel com carinho. E o ator novato avisa: "Um só papel foi pouco. Pode vir mais".

    Segundo ele, o filme foi capaz de mostrar com fidelidade a beleza e a tradição do Maracatu e como o movimento sobrevive até mesmo sendo pobre financeiramente. Ainda assim, há bastante ficção, especialmente na parte religiosa. Barachinha afirma que há coisas que realmente acontecem — como o preconceito de algumas pessoas da igreja evangélica - mas que muitos chegam a ajudar o Maracatu, dando comissão na época do Carnaval. "Alguns não gostam, alguns apoiam", esclarece.

    Tiago Melo explica que a ideia de trazer a igreja contra o Maracatu foi a de mostrar a realidade no Brasil como um todo, e a influência das igrejas na sociedade. "Existe uma teoria de dominação de que só existe uma verdade e que tudo o resto é um grande erro", disse ele. Nesse sentido, "o Maracatu é arte de resistência". O cineasta quis mostrar que é possível conviver com diversas crenças. "Enquanto não acertarmos as diferenças, viveremos em pé de guerra", afirmou.

    Apesar de serem atores estreantes, Valmir do Côco explica que o elenco já estava acostumado com as câmeras, afinal, Nazaré da Mata é um dos principais pontos turísticos do Carnaval de Pernambuco e, todos os anos, a mídia vai cobrir o evento e entrevistar pessoas da cidade.

    Joana Gatis, por sua vez, intérprete de Darlene, entrou no projeto como figurinista e acabou fazendo o teste para uma das protagonistas. A atriz explica que as cenas foram construídas nos ensaios, com bastante liberdade para improvisação. "Parece tão íntimo na frente das câmeras, porque foi", comenta.

    Filmado em três etapas, enquanto o cineasta conciliava a direção e roteiro com outros projetos no qual atuou como produtor, o filme fechou a Première Brasil do Festival do Rio. O longa também passou por mostras internacionais, comoo Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, no qual Tiago Melo foi premiado como melhor diretor.

    Enquanto o Maracatu é uma cultura de resistência, o cinema brasileiro, mostrando as diferentes nuances, povos e ritmos do país afora, se faz essencial para questionar o momento político e social em que vivemos. Azougue Nazaré, em toda sua qualidade, traz o sopro de tolerância tão necessário atualmente.

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