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    Festival do Rio 2018: Com "nova conotação" após eleições, Nóis por Nóis enquadra a brutalidade policial nas periferias
    Por João Vitor Figueira — 6 de nov. de 2018 às 08:30
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    Filme dirigido por Aly Muritiba e Jandir Santin apresenta jovens contestadores da periferia em um cotidiano de violência e abusos: "O filme tem um discurso que não é anti-Estado, mas é anti-Estado repressor".

    Depois de se consagrar no Festival de Gramado, onde o drama Ferrugem ganhou o Kikito de melhor filme, o cineasta Aly Muritiba apresentou no Festival do Rio o seu próximo projeto, Nóis por Nóis. Dividindo a direção com Jandir Santin, o novo filme de Muritiba volta a falar de problemas que afligem jovens, mas com um recorte de classe completamente oposto. Sai de cena a classe média e a questão do bullying virtual e da pornografia de vingança. Entra a questão racial, a brutalidade policial na periferia e a resistência às arbitrariedades do Estado e dos traficantes de drogas. Em comum, a ênfase na juventude.

    "Agora, revendo o filme, depois de tudo o que aconteceu no Brasil com as eleições, o filme ganhou um novo sentido, uma outra conotação, especialmente na questão da resistência", afirmou Santin, relacionando o projeto com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Antes de ser eleito, o capitão da reserva reafirmou sua controversa intenção de dar "carta branca" para a polícia matar em serviço.

    Filmado na violenta região da Vila Sabará, em Curitiba, o longa-metragem acompanha a rotina de jovens como Café (Matheus Correa), que organiza festas de hip hop e usa a câmera do celular "mais poderosa do que um oitão" para registrar abordagens abusivas da polícia. Na noite do aguardado baile, os amigos de Café são confrontados com um crime que choca a comunidade e precisam decidir como agir diante daquelas circunstâncias tão definidoras sobre suas vidas.

    Durante um debate com o público após uma sessão de Nóis por Nóis no tradicional Cine Odeon na tarde de segunda-feira (5), Muritiba afirmou que a realidade da Vila Sabará dialoga com todas as periferias do Brasil. "A periferia de Curitiba tem suas particularidades, mas as questões que dizem respeito à quebrada são sempre as mesmas", argumentou. "Porque são questões que têm a ver com as necessidades de sobrevivência, de resistência e subsistência. São pessoas que estão tentando trabalhar, tentando produzir e tentando criar e vão enfrentando diuturnamente obstáculos impostos por quem deveria ser um facilitador, que é o Estado." O tema da segurança pública é caro ao cineasta, que já trabalhou como agente penitenciário e abordou a realidade das cadeias nos curtas-metragens A Fábrica (2011) e A Gente (2014).

    Um elemento do enredo de Nóis por Nóis é inspirado em um caso real de violência policial que ocorreu no Rio de Janeiro, quando um adolescente que estava brincando com amigos foi baleado e filmou a própria morte. Apesar de mostrar tragédias do cotidiano dos bairros pobres do Brasil, o filme tem uma mensagem otimista, garantem os realizadores. "Isso surge da vontade de construir uma narrativa que não fosse só uma narrativa de derrota. A gente sentia que as pessoas estavam cansadas dessa narrativa que a gente sempre perdia no final. A gente precisava propor algo diferente", afirmou Santin.

    Nóis por Nóis, de Aly Muritiba e Jandir Santin

    Antes da sessão de Nóis por Nóis no Odeon, foi exibido o curta-metragem Preciso Dizer que Te Amo, de Ariel Nobre. O filme propõe uma abordagem repleta de simbolismos para abordar o suicídio de homens trans. Durante o debate, o diretor estabeleceu um conexão temática entre os dois projetos. "A gente não pode se amedrontar e voltar atrás. Uma coisa que eu achei foda foi o laço em comum do Nóis por Nóis e do Preciso Dizer Que Te Amo. Está naquele momento em que o Gui [personagem interpretado por Maicon Douglas] decide que o babado não é fugir da quebrada ou fugir do mundo; é estar no mundo e ter um compromisso coletivo de fazer esse mundo o mais vivível possível."

    Uma das marcas de Nóis por Nóis é a relação dos diretores com o espaço onde o filme foi rodado, com um trabalho de câmera que prioriza a geografia local e o uso de atores que vivenciam aquela realidade. A conexão com o universo do hip hop se faz presente na trama através da festa que sela o destino dos jovens, onde uma batalha de MCs é realizada. A rapper, atriz e ativista Ma Ry interpreta Mari, uma mina entre rapper entre os manos que desafia um mundo predominantemente masculino e namora Café. Durante o debate, Ma Ry falou sobre sua aproximação com gênero e sobre o rap enquanto instrumento de transformação social. "Os jovens das regiões periféricas têm o sentimento comum da revolta. A desigualdade social gera feridas que vão além da falta comida em casa, problemas que vão além do problema social. O problema social gera feridas que vão na alma das pessoas. O rap veio para mim como um curso de gestão de raiva."

    Nóis por Nóis, de Aly Muritiba e Jandir Santin

    Em pleno período de transição presidencial, após uma eleição altamente polarizada, onde questões sobre minorias foram centrais no debate público, o tom da conversa foi bastante politizado. Quem mediou a conversa foi o DJ Saci, que carrega uma bagagem de ativismo e música. Muritiba chegou a elogiar a escolha da organização do festival por estimular um diálogo diferente do que acontece quando, por exemplo, críticos de cinema são mediadores de conversas do tipo.

    Outro assunto recorrente no debate foi o próprio ambiente do cinema, visto como um espaço ainda marcado pela segregação social. "Eu fiz este trabalho para que a população preta e periférica se represente e veja que a arte é uma saída nesses tempos de ódio e rancor. Mas se o cinema continuar sendo tão elitizado a gente não vai conseguir levar isso para quem precisa", comentou Maicon Douglas. A fala veio após o ator relatar o contraste que percebeu entre a realidade apresentada no filme e a realidade do bairro nobre da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde Nóis por Nóis foi exibido na cidade pela primeira vez. Muritiba contou que antes de chegar ao Rio fez contato com movimentos sociais de comunidades carentes da cidade para se dispor a enviar ingressos gratuitos para as sessões do longa-metragem, mas disse que a realidade de exclusão social fez com que muitas pessoas não pudessem aceitar o convite, citando o problema do transporte público como uma questão definidora.

    Nóis por Nóis, de Aly Muritiba e Jandir Santin

    Uma das partes mais interessantes da conversa foi o momento em que os realizadores do projeto falaram da relação que eles estabeleceram com as forças que atuavam na região da Vila Sabará. Muritiba contou que precisou "negociar" com os traficantes que comandavam a região antes de começar a rodar o projeto."Negociar no sentido de deixar claro o que a gente estava fazendo ali, que a gente estaria circulando naquele espaço por mais de um mês. E deixar claro qual o filme que a gente estava fazendo." O diretor afirmou que sentia mais receios da presença policial nos set por considerar que as autoridades poderiam perseguir o filme por sua temática. "A gente tinha muito mais medo da polícia saber o que a gente estava fazendo ali porque o filme tem um discurso que não é anti-Estado, mas é anti-Estado repressor. O Estado deveria ter um papel fundamental na quebrada, mas o Estado só chega lá para a repressão."

    Jandir Santin também ressaltou que o contato com movimentos sociais da região também ajudou a viabilizar o filme. "Havia uma relação muito forte com o bairro e com os moradores, por a gente morar ali, por várias pessoas da equipe serem dali. O Sabará também tem um histórico de luta por moradia e a associação de moradores é muito forte. Então todos os velhos e velhas dessa associação conheciam a gente. Não era só a galera do tráfico, era também a galera dos movimentos sociais."

    A opção de ir além do discurso e fazer a diferença naquela comunidade foi um norte na realização do filme, defendeu o produtor de Nóis por Nóis, Antônio Junior. Viabilizado através de edital, a intenção dos cineastas foi usar a produção do longa para injetar recursos na Vila Sabará. "A nossa ideia era deixar o máximo do dinheiro que a gente tinha lá. A equipe tinha muita gente de lá, o fornecedor de alimentos era de lá. Foi uma preocupação muito nossa de fazer a economia girar lá."

    Nóis por Nóis deve estrear no circuito comercial de salas brasileiras em 2019.

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