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    Festival de Brasília 2018: Cris Azzi explica como criou Luna, drama adolescente sobre bullying e sexualidade (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 19 de set. de 2018 às 18:15
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    Um olhar diferente aos dilemas da juventude.

    Destaque do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Luna traz uma história dos nossos tempos: uma adolescente tem seu vídeo íntimo vazado, o que leva a várias perseguições dentro da escola. Desesperada, ela pensa em se matar. No entanto, ao invés da história trágica, o diretor Cris Azzi imagina a possibilidade de fortalecimento feminino após o bullying.

    O filme surpreendeu pela coragem, as belas imagens e as atuações excepcionais de Eduarda Fernandes, no papel principal, e de Ana Clara Ligeiro, como a melhor amiga dela. O AdoroCinema conversou com o cineasta sobre o projeto:


    Desde o começo, o filme traz a exposição do vídeo, o desespero de Luana, o flerte com o suicídio. Por que decidiu começar com esta parte tão forte?

    Cris Azzi: Isso veio de um processo de muita reflexão a partir do material, já na montagem. Mas não era a ideia inicial. Sem deslocar esta cena para o começo, o filme me passava a impressão de que era sobre o vazamento de um vídeo, mas para mim, o tema não é esse. Acredito que o filme seja um recorte na vida da Luana, que é atravessada por essas questões. Por isso, queria afastar a construção do vídeo como um clímax, transformando ele numa espécie de prólogo, para depois contar a história dela. Isso não estava no roteiro. A montagem anterior estava bonita também, mas parecia que o filme era construído para chegar nesse momento. Era algo mais dramático.

    Eduarda Fernandes e Ana Clara Ligeiro em Luna

    A escola do filme foge à representação americana das panelinhas e brigas no corredor.

    Cris Azzi: Na primeira versão do roteiro, sabia apenas que seria uma escola. Depois, quando comecei a pensar profundamente neste espaço, quis ir a fundo na ideia da dureza da escola. Procurei o estabelecimento mais liberal possível e cheguei a esta escola construtivista, sem salas de aula, apenas espaços de conhecimento com trocas de informação. Até nesse espaço de reflexão mais profundo podem acontecer situações de opressão.

    A primeira coisa que fiz, quando visitei a escola, foi conversar com os alunos sobre o tema do filme, para ver como reagiam. O diretor foi ótimo e permitiu, mas como era uma atividade extracurricular, ele não garantiria que os alunos comparecessem. Para a minha surpresa, quando cheguei, encontrei uma sala com 70, 80 meninos e meninas ávidos para conversar. Percebi que essas questões não estavam bem resolvidas para as meninas, principalmente. Debatemos muito, e os meninos não falavam muito. Com o passar do tempo, percebi que tinha um grupo feminista dentro dessa escola que enfrentava não apenas as atitudes dos meninos, mas também confrontava a diretoria.

    Eu queria criar o máximo contraste possível entre a forma de educação e o nosso lado opressor. As ideias que os jovens me trouxeram foram incorporadas ao roteiro. Aliás, este grupo de meninas está no filme. As cenas ligadas à performance, ou quando discutem o movimento feminista, misturam atrizes e alunas. Quando eu tinha dilemas sobre o roteiro ou o processo de filmagem, eu ligava para a escola, combinava de me encontrar com elas no pátio e voltava com conversas riquíssimas.

    Você escolha duas personagens principais de classes sociais muito diferentes, mas isso não é um conflito no roteiro.

    Cris Azzi: Quando essa distinção nasceu no roteiro, pensei que a Luana ocupava um espaço que não era dela. Mas até chegar no conflito principal, ela já tinha certo conforto dentro da escola, com os colegas. A gente não conta se a Luana é bolsista, se ela tem uma meia bolsa. Existe o fato de ela vender brigadeiro aos amigos, o que já diferencia dos colegas. O que me movia a levar a história para esse caminho era ressaltar que a corda arrebenta para o lado do mais fraco. Esta organicidade entre privilegiados e desfavorecidos correspondia ao imaginário de barreiras sociais menos rígidas.

    O roteiro incorpora questões da política atual brasileira, com os alunos discutindo se a derrubada de Dilma foi golpe ou não. Qual valor tem a política partidária nessa história?

    Cris Azzi: No processo de filmagem, em 2016, eu estava muito tomado por essa discussão, e achava que precisava trazer isso para o filme como registro do nosso tempo. Meu desafio pessoal era ser capaz de trazer o meu sentimento de indignação, mas ao mesmo tempo criar algum contraponto. O menino que diz, no filme, que para ele não foi golpe, realmente acredita nisso. Na escola, ele era uma das poucas pessoas que se manifestava com um pensamento mais à direita, então o convidei para interpretar o seu próprio papel, de certo modo. Ali existia a ideia de uma disputa narrativa que a gente vive até hoje. Não tem jeito: o cinema está associado a esta realidade. Mesmo Luna tendo aspectos fabulares importantes, eu não conseguiria deixar de incorporar estas questões mais realistas.

    Luna ameaça mostrar o suicídio, o estupro, outras formas de abuso... Por que tantas sugestões agressivas abortadas?

    Cris Azzi: Desde o princípio, eu tinha a sensação de que a personagem seria atravessada por questões diferentes. É absolutamente intencional que esses temas aparecessem, mas que o filme não fosse sobre eles. É uma diferença muito grande: o projeto teria outro caminho se fosse sobre cyberbullying, por exemplo. As pessoas me diziam que eu estava maluco de entrar nesses temas, porque cada um deles caberia num filme diferente. Mas para mim, o cinema é um recorte do espaço e do tempo, e uma mesma personagem vai passar por várias opressões. É claro que estas iminências são tratadas na montagem. A gente cuidou para que este não fosse um filme sobre falsas promessas. Não sei se consegui ou não, mesmo assim, eu queria que as consequências emocionais desses acontecimentos estivessem dentro dela, e não necessariamente no corpo externo. 

    A imagem toma muito cuidado na representação da nudez das atrizes. Como calculou esse limite?

    Cris Azzi: A direção, de uma maneira geral, nos força a estabelecer limites, mas este filme em particular me forçou a ter um exercício ético diário em relação a isso. Além das próprias meninas, que tinham a liberdade para acompanhar o que foi filmado e questionar caso não aprovassem algo, eu tinha uma equipe de mulheres muito atenta a este processo. A minha diretora de arte, Maíra Mesquita, entrava na minha sala de pré-produção todos os dias com alguma questão que eu ainda não tinha aprofundado, no meio de tantas coisas pra fazer. Às vezes ela vinha e eu brincava, dizendo: "Maíra, não vem hoje não porque eu ainda não digeri a questão de ontem!". 

    Então tinha um grupo de pessoas atentas, e isso valia para o roteiro. Muitas meninas me acompanharam desde a primeira parte do processo. Um filme que trata deste tema precisa fazer um exercício atento, diário, durante a própria filmagem. A capacidade de refletir sobre as imagens geradas, no calor do set de filmagem, é duvidosa. Por isso eu precisava me questionar o tempo inteiro. A maioria dos questionamentos não veio nem na montagem, foi durante as filmagens mesmo.

    Eu conversei, por exemplo, com mulheres que têm seus corpos expostos na Internet, em sites de sexo virtual, para entender de que maneira percebiam isso. Elas foram incríveis. Uma delas me disse, quando se despediu: "Toma muito cuidado para não objetificar esses corpos". Encontrei muitos alertas, para eu saber dos riscos que estaria correndo, mas sempre de forma acolhedora.

    Como encontrou Eduarda Fernandes e trabalhou o roteiro com ela?

    Cris Azzi: Neste processo de escuta do filme, eu convidei uma amiga atriz e arte-educadora, e pedi para a gente reunir um grupo de jovens da idade das personagens. É o mesmo processo que fiz na escola, mas desta vez sem uma instituição intermediando. Muitas das meninas já tinham feito algum curso de atuação. Eu não fiz pesquisas de elenco, apenas tive uma conversa de dois dias sobre esses temas. Eu nem contava o roteiro, só lançava temas que seriam abordados no filme. A Eduarda estava entre as meninas. No primeiro momento, não existia um interesse cênico, apenas conversas. Ela falava de maneira muito forte, muito articulada para a própria idade.

    Quando começamos o processo de pesquisa mesmo, chamamos de volta algumas dessas meninas, especialmente aquelas tocadas pela arte. Na hora de passar à atuação propriamente dita, o desempenho dela foi impressionante desde o primeiro momento. Ela tem uma grande força nos olhos. Para uma personagem que é uma esponja para o mundo, em fase de absorção de estímulos, pensei que os olhos seriam a melhor representação. Ela tinha esse desejo de mundo nos olhos. Passamos por mil meninas para chegar nela.

    Depois da escolha, fizemos uma preparação de dois meses. Eu fiz isso pessoalmente, sem preparador de elenco. Começamos pesquisando as outras personagens do filme, para a gente descobrir coisas, ainda sem induzir o caminho da Luana. Discutimos a mãe da Luana, os colegas da escola. Passado esse período, começamos efetivamente a buscar a Luana, mais para descobrir quem ela era do que fazer ensaios. No final, elas ainda se sentiam inseguras para começar a filmar, mas este era um processo de parceria. Existiu um bom lugar de conversa. As falas que estão na boca delas foram criadas pelas próprias atrizes. Quero muito que o filme voe, mas torço para que estas jovens atrizes voem mais ainda. Tenho grande orgulho delas.

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