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    Festival de Brasília 2018: "O meu sonho é que Torre das Donzelas seja visto como documento histórico", explica a diretora Susanna Lira (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 17/09/2018 às 17:00
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    Um retrato de mulheres que sobreviveram aos crimes da ditadura militar.

    O primeiro filme exibido na competição oficial do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro trouxe muita emoção aos palcos do Cine Brasília. O documentário Torre das Donzelas aborda o passado de diversas mulheres presas e torturadas pela ditadura. No presídio feminino Tiradentes, batizado de "torre das donzelas", sofreram experiências traumáticas, mas também criaram grandes amizades e reforçaram suas convicções políticas.

    Entre essas ex-presidiárias está Dilma Rousseff, que fornece depoimentos fortes ao filme - leia a nossa crítica. O aspecto mais forte do filme é levar as senhoras idosas a uma recriação do presídio em estúdio. O AdoroCinema conversou com a diretora Susanna Lira sobre o projeto:


    Divulgação

    O fato de recriar um espaço igual ao da Torre poderia expor as personagens a um passado doloroso. Por que optou por esse recurso?

    Susanna Lira: A ditadura militar tem um procedimento, no Brasil e no mundo inteiro, de desaparecer com os sítios de memória. Eles somem com os lugares onde aconteceram as torturas e outras barbaridades que cometeram. A reconstrução desta Torre é um ato político de reconstruir um sítio de memória, um lugar onde essas mulheres pudessem ir e dizer: "Estamos aqui de novo. Vocês acabaram com o presídio, mas estamos reerguendo, com a nossa força". 

    Isso ocorreu com a força do cinema também, porque o cinema tem este poder de recriação. Quando você assiste ao filme, percebe que no início este é um lugar doloroso, porque todo espaço de prisão e de tortura será assim, mas também é um lugar de reconstrução. A Torre continha, como parte de sua essência, a noção de reinvenção, da recriação de si. O conceito do que acontecia na Torre me levou a criar este espaço, por causa dos depoimentos: a mulher chegava de um jeito, se reconstruía e saía de outra maneira, como se fosse moldada para sair melhor.

    A reconstrução é uma forma de resistência. Além disso, eu precisava deste espaço para filmar o coletivo. Eu já tinha momentos dela falando numa sala, mas o ambiente da Torre, com tudo o que ela significou, precisava vir à tona também. Eu precisava entender o que acontecia na atmosfera naquele lugar tão especial. Por que esta prisão é diferente das outras? Agora, a Torre existe como documento cinematográfico.

    Como você acessou estas mulheres? Todas estavam dispostas a conversar?

    Susanna Lira: Foi bastante difícil acessar estas mulheres. A maioria não estava disposta a conversar. Era um momento político confortável: a esquerda estava no poder, e elas sentiam que o dever estava cumprido. Mas eu precisava recuperar uma história, não político-partidária, e sim uma história do Brasil, uma história nossa. Eu, por exemplo, não estudei a ditadura militar na escola, mas eu precisava saber o que aconteceu. 

    Foi um trabalho demorado, árduo. Elas questionavam como esse material poderia ficar. As opiniões delas são muito diferentes, então como esse coletivo poderia fazer sentido para todas? Elas assistiram ao filme pela primeira vez aqui no Festival de Brasília, o que foi um teste para mim. Eu pensava: "Se elas detestarem, eu estou frita, e isso vai ser um fracasso". Era importante que se sentissem representadas, mas elas gostaram bastante, não viram nada no filme que parecesse falso ou fugisse da experiência que viveram. Fiquei muito feliz pelo meu lado de documentarista, por não querer fazer especulações.

    Divulgação / Jamila Maria Barbosa
    A diretora Susanna Lira (à esquerda) e a equipe de Torre das Donzelas

    Existe um peso evidente pelo fato de ter Dilma Rousseff no filme, mas você nunca a transforma em protagonista.

    Susanna Lira: A gente tinha um material muito rico da Dilma. Ela é uma pessoa articulada, e pensa sobre o tema da prisão como ninguém, por ter lido muitos livros de latino-americanos sobre esta questão. Mas a gente precisava horizontalizá-la no filme. Obviamente, quando ela aparece, nós sabemos que é a Dilma, mas preferi não colocar o nome de ninguém no filme, somente no final, para a gente ter uma visão neutra sobre elas e depois saber a importância que adquiririam ao longo da vida. Elas resistiram tendo profissões, sendo mães.

    Mesmo assim, nós conhecemos a Dilma, então a notoriedade dela pesou. Eu não a vejo como protagonista do filme porque não existe um protagonismo, apenas aquele da Torre. Todas estas mulheres representam o que aconteceu lá dentro.

    A presença de Dilma Rousseff no filme deve levar à adesão imediata de alguns espectadores, e à rejeição de outros, não acha?

    Susanna Lira: Acho que sim. A polarização que vivemos hoje no país é evidente. Mas o meu sonho é que o filme seja visto como documento histórico, independente de quem está ali. Este é um filme que as pessoas precisam ver, para conhecer a própria história do Brasil. Não é a biografia da Dilma, da Rita, da Rioko. Não é a biografia dessas mulheres. Estamos falando de um período que existiu no Brasil, e este coral de memórias constituiu um tecido de memória que podemos acessar. 

    Mas sei que corremos esse risco. Temos que estar dispostos a perder também para avançar um pouco naquilo que acreditamos. Nem sempre se ganha.

    Você recria algumas das histórias contadas através de atrizes jovens, com a idade que estas mulheres teriam na época. Por que optou por este recurso?

    Susanna Lira: Eu decidi incluir esses corpos jovens - prefiro falar assim, porque elas não têm nomes, nem representam ninguém - para ter a atmosfera de corpos femininos jovens ali. Para mim, isso era importante, porque eu queria trazer essa pulsão de vida. Por mais que aquelas senhoras me dissessem: "Eu tinha 19 anos", "Eu tinha 23 anos", eu não conseguia olhar para elas deste modo, porque hoje são pessoas mais velhas.

    Era preciso trazer essa juventude aprisionada ali para que as pessoas pudessem entender o que aconteceu durante a ditadura militar. As pessoas eram presas com 18, 19, 20 anos. Hoje, no Rio de Janeiro, temos 23 pessoas condenadas à prisão porque se manifestaram! São todas pessoas jovens. Este recurso servia para trazer o público para aquele lugar da história. Isso funciona também como uma forma de memória delas.

    O Festival de Brasília tem sido um palco de debates sobre os novos rumos do audiovisual. Como percebe estas transformações na política do cinema?

    Susanna Lira: O festival tem uma importância enorme em termos de inovação de linguagem e posicionamento político, pelo conteúdo dos filmes exibidos. Essa é uma janela fundamental. A curadoria conseguiu mesclar a representatividade feminina com outros temas muito bem colocados. O festival serve como potência de anúncio daquilo que queremos: uma sociedade mais igual, onde todas as narrativas sejam compreendidas e tenham voz. Este é o melhor lugar em que podemos estar, neste momento.

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    • Vidamell Vida R.
      é....massa
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