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50 São os Novos 30: Valérie Lemercier fala sobre a geração de cinquentões que voltam a morar com os pais (Exclusivo)
Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Renato Furtado — 28/06/2018 às 09:10
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Uma comédia francesa doce e simples.

Nesta semana, estreia nos cinemas uma comédia diferente do que os brasileiros costumam encontrar nos cinemas. 50 São os Novos 30 traz a história de Marie-Francine (Valérie Lemercier), uma cientista que perde o emprego no mesmo dia em que o marido a troca por uma mulher mais nova.

Sem ter onde morar, ela volta a viver com os pais idosos, que a tratam como criança. Tudo muda no dia em que conhece Miguel (Patrick Timsit), um cozinheiro português que se interessa por ela... Mas não tem coragem de admitir que ele também mora com os pais idosos. 

O AdoroCinema conversou em exclusividade com Valérie Lemercier, que acumula as funções de diretora, roteirista e atriz principal, além de também interpretar a irmã gêmea da protagonista, Marie-Noëlle. A humorista veterana explicou como construiu esta comédia que integrou o Festival Varilux de Cinema Francês 2018:


Você trabalha com uma comédia simples, sem piadas exageradas nem humor físico.

Valérie Lemercier: Eu nunca gostei muito dos efeitos, para ser sincera. Já fiz cinco filmes, este é o meu sexto, e sempre gostei de histórias sobre a intimidade em família, a relação entre pais e filhos. Não sou uma diretora muito focada na técnica e nas imagens. Eu me interesso mais pelos diálogos, pelos personagens. Foi uma grande surpresa fazer uma comédia romântica, porque nunca tinha feito uma antes. Na verdade, no começo eu nem imaginava que seria uma comédia romântica. São dois personagens que não se encontrariam, não topariam um com o outro em outras circunstâncias. É o drama que possibilita o encontro entre os dois.

É um desafio para você, enquanto comediante, interpretar uma personagem silenciosa e depressiva? Os demais personagens também são minimalistas em suas composições.

Valérie Lemercier: Não, nem um pouco! Eu também não sou volúvel e burguesa, por exemplo, como a maioria das personagens que interpreto. Personagens como Marie-Francine são o contrário das pessoas que vivem de aparências. Isso também é o oposto do que fiz no filme anterior. Desta vez, queria interpretar uma personagem mais simples, que não para para pensar em sua própria imagem.

O mesmo vale para o trabalho com Patrick Timsit: tudo já estava previsto no roteiro. Quando dirijo, tenho a música que quero ouvir na cabeça. Repetimos muito e filmamos muito até atingir o que quero. Gosto quando as coisas são sutis, quando não são muito demonstrativas. Espero a sutileza. Mas confio nos espectadores. Não preciso mostrar tudo a eles: basta ver.

Estes adultos de 50 anos que voltam a viver com os pais compõem um retrato da crise econômica, não?

Valérie Lemercier: Sim, sem dúvida. São coisas que acontecem cada vez mais. Conheço amigos mais velhos que moram com os pais e claramente não ficam felizes com isso. A precariedade é uma realidade triste. Quando alguém da família vem dormir na minha casa por uma noite, por exemplo, eu fico feliz, mas quando são duas noites, isso já me incomoda. Foi isso que achei engraçado: observar esses pais que não compreendem nada, que a tratam como uma criança necessitada. E também o fato de não gostamos de ver mulheres solteiras na França, supomos que elas precisem se casar mais cedo ou mais tarde. Nós as convidamos para jantar, organizamos encontros. Uma mulher solteira é alguém que precisa ser casada com alguém. Estar sozinha é percebido como algo ruim.

De onde veio a ideia curiosa da loja de cigarros eletrônicos?

Valérie Lemercier: Li em um jornal que você poderia abrir uma loja de cigarros eletrônicos por €15 mil. Não é nada caro, tem vários desses em franquias. Como detesto cigarros eletrônicos e como os pais de minha personagem são completamente alheios a ela, não compreendem o que ela faz, o que ela diz, o que ela pensa, achei que seria divertido colocá-la a cargo da loja, como por acaso. Além disso, tem o fato engraçado de ela ser uma fumante comum, que nem pensa em usar os tais cigarros eletrônicos. Então ela fica fumando cigarros comuns dentro da loja de cigarros eletrônicos. Ela é péssima vendedora!

Para um brasileiro, foi muito interessante ver um filme francês com tantas músicas em português. Para você, qual é o papel da cultura portuguesa no projeto?

Valérie Lemercier: Bom, tem o fato de Miguel e seus pais serem portugueses, então fazia sentido por isso, mas eu também adoro a música portuguesa. Quando era criança, meus pais me deram um disco da Amália Rodrigues e, apesar de ser um presente, não gostei de recebê-lo. Eu sabia que tinham me dado o disco porque ninguém mais queria ouvi-lo. Depois disso, bem mais tarde, escutei várias vezes. Tenho todos os discos da Amália Rodrigues, a adoro. Eu a vi uma vez em um filme interpretando a si mesma e gosto muito dela. Gosto de sua melancolia, e por isso coloquei três ou quatro canções da Amália no filme. 

Como decidiu interpretar as duas irmãs da história, Marie-Francine e Marie-Noëlle?

Valérie Lemercier: Foi ideia da minha corroteirista, Sabine Haudepin. No início, quando estava escrevendo sozinha, a irmã vivia fora da França, e não apareceria na história. Mas então Sabine veio com essa ideia de colocar as duas juntas, e me fazer interpretar gêmeas. Imaginei que seria complicado, e de fato foi difícil de filmar. Mas também foi muito divertido, porque elas são bem diferentes.

Enquanto uma ocupa um sótão em Paris, desses pequenos sótãos que existem aos montes na cidade, e é bem mais reservada, a outra é combativa, muito burguesa, animada e inquieta. Mas a protagonista, Marie-Francine, é alguém que, sentada diante do seu microscópio, não viu sua vida mudar, não viu seus filhos crescerem, não viu seu marido se distanciar. Ela não é conectada, e tive a vontade de interpretar uma personagem assim. Ao meu ver, o mais difícil para a geração de meus pais são os computadores, a Internet. As pessoas da nossa idade se conectam com tudo, a gente sabe o que acontece na vida dos outros instantaneamente.

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