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O Amante Duplo: Jérémie Renier comenta o desafio de interpretar irmãos gêmeos bem diferentes no suspense erótico de François Ozon (Exclusivo)
Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Renato Furtado — 21/06/2018 às 09:00
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Mas quem manipula quem, afinal?

Estreia nos cinemas nesta quinta-feira um filme que despertou polêmica no Festival de Cannes: o suspense O Amante Duplo, de François Ozon.

Na trama, a frágil Chloé (Marine Vacth) se apaixona por seu terapeuta, Paul (Jérémie Renier), sendo obrigada a interromper as sessões para viver este relacionamento. No entanto, ela encontra pela cidade outro homem, Louis, idêntico ao namorado. Seria uma ilusão? Um irmão gêmeo que ele nunca quis admitir? O próprio terapeuta, levando uma vida dupla?

Pelo retrato explícito e perverso da sexualidade, e pelas várias reviravoltas da história, o filme encantou alguns críticos - inclusive no AdoroCinema - e foi rejeitado por outros. Nós conversamos com o ator Jérémie Renier, de passagem no Brasil durante o Festival Varilux de Cinema Francês, sobre este projeto:



Paul é muito discreto, simples, mas também é misterioso, ambíguo em relação à família e ao passado. Como você o construiu?

Jérémie Renier: Eu o construí a partir de uma anedota muito engraçada. Trabalhando com François Ozon e meu preparador de elenco, tive o sentimento e a impressão de que Paul era um pouco sem sal, calmo e obediente demais em relação a este irmão pervertido, odioso, pretensioso, muito sexual. Então, tinha medo que Paul fosse um pouco decepcionante, que fosse um personagem chato de interpretar. Mas não foi assim: Paul era mais complexo do que eu pensava. Apesar de ele passar a impressão de ser doce, de ser alguém de quem as pessoas podem se aproveitar, há algo problemático nele.

Isso foi algo que trabalhei muito com François para confundir o espectador. “Ah, ele é bom, não, espera, não é, ele é bizarro!”. Aos poucos, não sabemos se ele está jogando dos dois lados, se ele é tão pervertido quanto seu irmão, se eles são a mesma pessoa, se ele é um psicótico, se ele é maluco. Foram etapas para construir o personagem até chegar a um ponto em que Paul, no meu ponto de vista, se tornasse muito interessante.

É como um jogo de opacidade e transparência. Com Louis, tudo está explícito, ao contrário de Paul.

Jérémie Renier: Exato! De fato, Paul pode ser mais perverso que Louis! Louis é objetivo, é extrovertido, é um manipulador, um hedonista, mas ele é claro. Paul, por sua vez, é complicado, o que o faz ser um personagem mais perigoso.



Como você diferenciou os dois irmãos, praticamente idênticos na aparência?

Jérémie Renier: Também debati bastante sobre isso com François. Rapidamente, nós percebemos que não poderíamos criar artifícios, a não ser por seus óculos. É algo muito delicado. A diferenciação entre um e outro teria que ser sutil: o modo como um deles fala, o modo como o outro se porta. Um é dominado, o outro é dominante. É um personagem criado duplamente. O que faz um dos personagens provocar o outro? Felizmente, François me deixou dividir o filme em duas partes. Eu filmei toda a primeira parte, em que interpreto Paul, durante quase um mês; depois disso, fizemos o resto do filme, quando interpretei Louis.

Isso criou uma situação engraçada, porque Marine Vacth me dizia que queria que eu fosse o outro personagem. Quando fui Paul durante três semanas, sempre atencioso, gentil, prestativo, ela ficou irritada, ela mesma me disse que ele era plácido demais. Ela queria que eu fosse Louis. Então, quando interpretei Louis, ela sentiu saudades de Paul, porque eu entrei verdadeiramente nos personagens. Eu era muito agressivo quando era Louis e muito doce quando era Paul.

Este é o seu terceiro filme com François Ozon, você já o conhece muito bem. Os filmes dele costumam ser associados à qualidade das interpretações dos atores. De que modo ele dirige o elenco?

Jérémie Renier: François tem muito respeito, além de ser muito preciso em sua técnica com a câmera. Isso cria uma proximidade com os atores, ainda mais em O Amante Duplo, onde éramos apenas dois atores, Marine e eu, e François nas filmagens na maior parte do tempo. Isso gera uma intimidade. Ele fica atrás da câmera, acompanha a cena, nos acompanha, e isso é algo muito bom e agradável para um ator.

E François é alguém que se diverte. Apesar de já ter feito 17 filmes e de ser muito exigente com ele mesmo, com a equipe e com os atores, ainda há o prazer. É divertido. Nós rimos, debatemos as perversões dos personagens, quem é o mais odioso... É um motor de prazer que faz transcender. Além disso, ele é muito rápido. Você tem que estar atento. François gosta de filmar rapidamente, mudar a câmera na hora e já fazer outra coisa. Você não tem tempo de se sentar nem fumar um cigarro porque, caso contrário, você não o acompanha. Ele cria uma dinâmica interessante.



Ozon descreveu esse filme como uma história mental, algo que poderia ser um delírio, um pesadelo. Como percebe a fronteira entre o real e a fantasia neste projeto?

Jérémie Renier: Para mim, mesmo tendo feito filmes que se pretendem naturalistas, como os irmãos Dardenne fazem muito bem, ainda assim são ficções. Toda forma de cinema, seja realista ou não, é ficção, é a projeção de um diretor sobre um tema e, então, a partir daí nós levamos isso para longe, explorando fantasmas, mitologias ou lendas, ou permanecemos em uma realidade. É uma escolha do diretor. Como atores, nós tentamos ser transparentes e verdadeiros porque quando as pessoas assistem ao filme, o mais importante é criar uma conexão com o presente e com o ator na tela.

Você recebeu o convite para estrelar O Amante Duplo durante a preparação de Carnívoras, que você dirige com seu irmão, e que também aborda a questão do duplo. Isso é interessante, não?

Jérémie Renier: Sim, foi surpreendente! Preparava Carnívoras com meu irmão há muito tempo e aí François me fez o convite. Nós começamos a rodar Carnívoras, finalizamos e eu comecei a filmar O Amante Duplo durante a montagem de Carnívoras. O mais interessante é que pude ligar o personagem que interpreto no filme de François com aquilo que passei com meu irmão durante a construção de Carnívoras, descobrindo como cada um de nós trabalha... Então, foi enriquecedor, muito enriquecedor. É muito surpreendente porque o filme de François também é um suspense, mas nós não poderíamos prever essa coincidência... A existência de verdadeiras ligações entre os dois filmes é muito surpreendente.



O Amante Duplo lida com passividade e agressividade, entrega e repressão. Para você, o que o filme transmite acerca da natureza dos desejos?

Jérémie Renier: Boa pergunta. Quando construí os dois personagens, Paul e Louis, tive a impressão de que para além da diferença entre eles, o tema do filme também era a relação entre casais: o que imaginamos, provocamos, fantasiamos sobre os parceiros de vida, o que nos faz falta, o que não é dito. Chloé tem a oportunidade de enfrentar o real e o irreal. Mas creio que, por outro lado, isso coloca uma questão: o que devemos fazer para encontrar a felicidade? Se fantasiarmos demais, isso nos faz mal, e se mantemos muito os pés no chão, isso nos entedia. É preciso encontrar o equilíbrio entre os dois.

Creio que a verdadeira questão é como nós nos posicionamos diante dos nossos desejos, o que fazemos com eles. Porque a projeção é algo muito comum entre os casais. Em um dado momento, um pode se frustrar, recusar seus desejos, não seguir no mesmo caminho que seu companheiro. O ideal seria poder falar sobre tudo, manter a possibilidade de, um dia, concretizar tudo. É uma forma de liberdade, de introspecção, de inteligência, de cumplicidade.

Que tipo de pesquisa você fez para interpretar dois psicoterapeutas de métodos completamente diferentes?

Jérémie Renier: Eu li muito, mas também já fiz terapia, então sei como a dinâmica se passa. Também fiz pesquisas sobre Freud. Mas, para mim, a parte mais importante era a escuta, na verdade. Há uma pessoa que escuta e a outra que não escuta, ou talvez escute de maneira diferente. Há um que provoca e outro que reconforta. O mais importante era destrinchar o mistério de Chloé enquanto eu permitia que a natureza da relação mudasse, instaurando um mistério aos poucos, até surgir o sentimento amoroso, uma sedução, e o fim dos laços profissionais. Paul fica inquieto pela relação que cria com a sua paciente, mas logo eu pensei: acho que ele faz tudo isso de propósito. Ele provoca o que acontece, talvez desde o início do filme.

É como ele explica: eles já fizeram isso com uma mulher mais jovem, há algum tempo. Então, eles tentam fazer isso com Chloé. Na verdade, o que ela conta no início do filme é tudo o que vai acontecer durante o filme. Quando vemos O Amante Duplo pela segunda vez, nós percebemos que há uma dupla leitura. Não sei se o espectador verá assim, mas isso deixa a narrativa mais complexa.

Quem manipula quem, afinal?

Jérémie Renier: Todo mundo! Até Chloé manipula. É verdadeiramente a arte da manipulação. Ser manipulado, manipular o outro. É isso que François sabe fazer bem.


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