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    Cine PE 2018: Curtas-metragens instigantes e documentário sobre Henfil conquistam o público
    Por João Vitor Figueira — 04/06/2018 às 17:06
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    Noite de domingo (03) do festival pernambucano foi marcada pelo longa-metragem dedicado ao provocador artista e pela melhor sequência de curtas até agora.

    "Tô vendo a esperança" foi a frase mais famosa da pequena ave Graúna, uma das muitas criações do cartunista Henfil. A sentença promissora surgiu no momento em que o Brasil iniciava o período de redemocratização pós-ditadura militar. Será que é possível sentir essa mesma esperança no Brasil de 2018, marcado por crises políticas, recessão econômica, desemprego e ascensão de discursos totalitários? E como o traço e os versos do artista morto em 1988 se manifestariam hoje em dia?

    O documentário Henfil, de Angela Zoé (Meu Nome é Jacque), lança luz na obra e vida do cartunista, olhando para o passado e para as possibilidades futuras do legado do provocador mineiro. O filme foi exibido na sessão de domingo (03) do Cine PE, no Cinema São Luiz, em Recife, na penúltima noite de sessões da mostra competitiva de longas-metragens.

    Com depoimentos dos cartunistas Jaguar e Ziraldo, dos jornalistas Lucas Mendes, Sérgio Cabral e Tárik de Souza, e da irmã Glorinha, o filme se destaca pela pesquisa de arquivo apresentada em tela, com ótimas inserções de entrevistas antigas de Henfil e de vídeos caseiros rodados em Super 8. Paralelamente a isso, o documentário acompanha, em sua parte menos interessante, o primeiro contato de uma turma de jovens animadores com a obra de Henfil enquanto eles desenvolvem uma animação (muito boa) com técnicas 2D e 3D usando os personagens criados pelo artista.

    Divulgação
    Henfil, de Angela Zoé.

    A ênfase no lado ativista de Henfil, dono de uma voz ativa, ácida e crítica, dá ao projeto uma relevância notável ao oferecer uma chance de apresentar para novas gerações uma figura única que continua atual. Leia a crítica completa.

    Ao contrário dos dois dias anteriores, nos quais dois longas da mostra competitiva foram exibidos, a exibição apenas um filme de maior duração deu espaço para que os curtas-metragens invadissem a tela do Cinema São Luiz, na melhor noite do festival para os trabalhos no formato, mostrando os múltiplos potenciais das narrativas curtas que só costumam ter uma chance de chegar às salas de cinema em festivais.

    Divulgação
    Frequências, de Adalberto Oliveira

    A Mostra PE começou com Deep Dive, de Pedro Arruda, que flerta com o formato de narrativa em loop (consagrado em Feitiço do Tempo) para representar um homem que não consegue acordar de um pesadelo kafkiano. Com uma produção pequena, a fotografia em preto e branco é precária e o trabalho de câmera simplório, mas o desenho de som do curto filme (são apenas 3 minutos) aponta em boas direçõs. Vale como exercício para um realizador em início de carreira, que disse que se inspirou em David Lynch para o projeto.

    Frequências, de Adalberto Oliveira, foi o trabalho mais vanguardista (entre todos os formatos) apresentado no Cine PE deste ano até aqui. O documentário experimental de 19 minutos é enigmático, tecnicamente vigoroso e composto por imagens muito bem construídas para representar, de forma quase surreal, a relação de uma comunidade de trabalhadores com a imponência do Farol de Olinda, em Pernambuco. Um comentário sobre espaço geográfico, desenvolvimento urbano e exclusão social construído de maneira muito sofisticada e nada óbvia. Excelente.

    A Mostra Curta Brasil, dedicada a filmes de todo o país, começou com Insone, um curta-metragem animado realizado por Breno Guerreiro e Débora Pinto. Com traços que aludem vagamente aos animes, o filme é um elogio à fértil imaginação infantil e mostra dois irmãos assumindo diversas personas e cenários diferentes enquanto brincam sem sair de seu quarto. Com uma ressalva para a trilha sonora acachapante (em um sentido ruim), o filme cumpre a divertida premissa e também se apresenta como um esboço de possíveis voos mais ousados de seus realizadores.

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    Peripatético, de Jessica Queiroz

    Universo Preto Paralelo, de Rubens Passaro, é um filme de montagem que aposta na justaposição de imagens fixas que ilustram o passado escravocrata brasileiro (como as pinturas de Jean-Baptiste Debret) com áudios de torturadores confessos do regime militar em depoimentos para a Comissão da Verdade. A fala de uma psicóloga sobre os efeitos da tortura logo se desenvolve para um paralelo entre o conceito da banalidade do mal proposto por Hannah Arendt e as atrocidades que pontuaram a História do Brasil desde Cabral. Muito bom.

    "Por que você merece essa vaga?": A pergunta frequente em entrevistas de emprego é revelada em seu potencial opressivo no criativo Peripatético, de Jéssica Queiroz, um projeto digno de nota por retratar os dilemas da mulher negra e jovem da periferia com a direção de uma mulher negra — questão cada vez mais urgente e necessária na busca por uma produção audiovisual que possa representar melhor grupos que nem sempre tiveram espaço. As atuações nem sempre estão à altura do roteiro e alguns recursos (como os grafitis que se movem) talvez fossem mais interessantes na ideia do que na prática, mas o filme é digno de nota pela criatividade e frontalidade na qual trata seus temas, mesmo que mire em muitos de uma vez.

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    Não Falo Com Estranhos, de Klaus Hastenreiter

    Lençol de Inverno debate os traumas da repressão no ambiente familiar no interior do Brasil. O filme flerta com o suspense para tratar da história de um coveiro que volta para a cidade pequena onde foi criado para enterrar seu pai, que está prestes a morrer. O drama no coração da trama, envolvendo fantasmas do passado entre o coveiro e seu irmão, funcionaria melhor caso o personagem do irmão não fosse uma figura vilanesca tão estereotipada.

    Encerrando as sessões da Mostra Curta Brasil, o ótimo Não Falo Com Estranhos, de Klaus Hastenreiter, é um filme sem par nesta edição do Cine PE. Amparado por uma direção de arte competente, atuações naturais e carismáticas, diálogos cheios de fluidez e personagens com os quais é fácil se identificar, o trabalho parte de uma situação do cotidiano para investigar as inseguranças de um rapaz que poderia ser qualquer pessoa. Na sala de espera de um consultório médico, um rapaz pensa em se aproximar de uma moça que senta ao seu lado. Daí em diante, o roteiro constrói uma ode ao overthinking em uma época em que cada vez mais jovens estão dispostos a falar sobre os dilemas da ansiedade. A direção toma caminhos que parecem ecoar Michel Gondry com uma mise èn scene bastante inventiva e até mesmo lembra aspectos da animação Divertida Mente. O roteiro é capaz ainda de identificar os próprios vícios de histórias românticas e sempre carrega uma nova surpresa estética na cartola. O curta contrasta com outros trabalhos que seguem uma veia militante na mostra, mas não é menos relevante por isso.

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