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    Cine PE 2018: Emoção de Rodrigo Santoro e documentário sobre brutalidade policial são destaques
    Por João Vitor Figueira — 03/06/2018 às 15:31
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    Marcha Cega, de Gabriel Di Giacomo, e Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida, foram os filmes exibidos na mostra competitiva de longas-metragens.

    Felipe Souto Maior/Cine PE

    Em 2001, Rodrigo Santoro ainda era apenas uma promessa e corria o país para divulgar aquele que viria a ser o primeiro longa-metragem de sua carreira como protagonista: Bicho de Sete Cabeças, ficção em longa-metragem de estreia de Laís Bodanzky. O drama sobre os horrores do sistema manicomial abriu muitas portas para o ator e foi consagrado no primeiro Cine PE daquele mesmo ano (na época chamado de Festival de Cinema de Recife), vencendo a maior parte dos prêmios principais.

    Passados dezessete anos daquelas conquistas, Santoro retornou para a capital pernambucana depois de já ter encarnado outros papéis desafiadores no Brasil (Abril Despedaçado, CarandiruHeleno) e desbravado Hollywood como poucos de seus colegas de profissão conterrâneos já conseguiram (vide Simplesmente Amor300 e Ben-Hur). O ator foi o grande homenageado da terceira noite do Cine PE deste ano, no sábado (02), e não conseguiu conter a emoção ao receber o Troféu Calunga de Ouro pelo conjunto de sua obra no Cinema São Luiz, em Recife.

    Felipe Souto Maior/Cine PE
    Cássia Kis enxuga as lágrimas de Rodrigo Santoro no palco do Cinema São Luiz, em Recife.


    Santoro disse que ser homenageado o levou a fazer uma retrospectiva mental de sua própria trajetória artística e fez paralelos entre a sua ascensão e o crescimento do audiovisual no Brasil. "Exite um traço comum entre a minha jornada e a jornada do cinema nacional desde a Retomada que é uma busca incessante pela própria identidade, pelo seu espaço. Eu acredito na participação ativa que nós temos que ter na nossa própria estrada. Especialmente quando o caminho não é tão florido e as coisas não são tão fáceis", disse, em tom pausado e reflexivo.

    Ao relembrar das vitórias de O Bicho de Sete Cabeças no Cine PE de 2001, o ator não conseguiu conter as lágrimas e foi muito aplaudido pelo público. Enquanto tentava se recompor e retomar sua fala, Rodrigo foi surpreendido por Cássia Kis, homenageada no dia anterior, que levantou da platéia e foi ao palco abraçar o colega. A ocasião marcou o reencontro da dupla que viveu mãe e filho no clássico filme de Laís Bodanzky e em Não Por Acaso (2007). "Quero dedicar essa homenagem a essa força que nós temos. A todo o nosso potencial. E à responsabilidade que cada um de nós temos na construção de um país mais justo", disse o ator de 300Westworld ao término de seu discurso.
    Divulgação
    Marcha Cega, de Gabriel Di Giacomo

    O primeiro longa-metragem da mostra competitiva foi Marcha Cega, de Gabriel Di Giacomo, que adotou um tom adequadamente militante ao apresentar seu filme diante do público no Cinema São Luiz. "Eu espero que o nosso filme colabore no debate da desmilitarização das polícias no Brasil", disse o realizador. "A gente não vai mais aceitar que um fotógrafo numa manifestação de rua volte cego para casa com uma bala de borracha no olho. A gente não vai mais aceitar ver o Estado espancar estudantes que estão querendo exercer sua liberdade de expressão."

    O documentário toma como ponto de partida a brutalidade policial que passou a ganhar cada vez mais destaque na esfera pública a partir das manifestações de junho de 2013 no Brasil. Composto por depoimentos de pessoas que foram vítimas de arbirtrariedades e violências promovidas por agentes de segurança do Estado e por socorristas, advogados e cientistas sociais, o filme é competente ao amadurecer um debate sobre os excessos da corporação e a necessidade de se discutir a desmilitarização da Polícia Militar. Outro ponto interessante é o comentário que o longa-metragem faz sobre a função da grande imprensa na legitimação de discursos conservadores. Leia crítica completa.

    Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida

    O ótimo Dias Vazios, do diretor estreante Robney Bruno Almeida, trouxe uma atmosfera mais melancólica para a tela do Cinema São Luiz. Ao falar sobre o seu trabalho, o realizador se disse feliz por poder representar o estado de Goiás no Cine PE e resumiu parte da premissa de seu longa-metragem: "O filme fala sobre jovens que vivem em cidades pequenas do interior sem perspectiva de vida. Eu acho que isso é um retrato de muitas questões universais."

    A trama se ambienta na pacata cidade goiana de Silvânia, no interior do estado, e acompanha um triste casal de namorados, Jean e Fabiana, que sente o insustentável peso do tédio de viver em um lugar onde pouca coisa acontece. Dois anos depois de Fabiana desaparecer e Jean "tomar uma decisão inesperada", o caso deles atrai o fascínio de Daniel, que estuda na mesma escola católica que o misterioso casal frequentava compartilha do mesmo incômodo existencial em relação ao lugar onde está inserido. 

    "De um rigor narrativo impressionante, especialmente nos enquadramentos adotados e no aproveitamento do silêncio como elemento da história, trata-se de um filme vigoroso que impressiona, não só pelo conteúdo e a forma como é apresentado mas, especialmente, pela complexidade desta história que envolve realidade e ficção e, nem sempre, responde plenamente às questões levantadas. Ainda bem", diz a crítica  do AdoroCinema, escrita por Francisco Russo quando o filme teve sua première no na 21º Mostra de Tiradentes, no começo de 2018.

    Plantae, de Guilherme Gehr

    O bom nível que foi visto nos longas-metragens também manifestou nos trabalhos da Mostra Curta Brasil. A animação Plantae, de Guilherme Gehr, é marcada pelo comentário ecológico sobre a potência da natureza diante das agressões do homem. Com traços muito bonitos e um desenho de som arrojado (que fica evidente por conta da ausência de diálogos), a floresta amazônica revela seus segredos místicos quando um madeireiro tenta derrubar uma árvore ancestral.

    Com fortes influências do, digamos, "surrealismo realista" de Recife Frio, de Kléber Mendonça FilhoVidas Cinzas foi um dos curtas com a premissa mais orginal do Cine PE até então. O falso documentário de Leonardo Martinelli apresenta um Rio de Janeiro que encontrou como solução para driblar a crise econômica a extinção das cores, tornando a Cidade Maravilhosa um diegético cenário em preto e branco. É extremamente interessante (e positivo) que o diretor do curta tenha conseguido que tantas figuras da política carioca topassem entrar na brincadeira proposta pelo projeto e darem seus "falsos depoimentos". Durante a projeção, a presença da vereadora Marielle Franco, inspirou efusivos aplausos da plateia, enquanto a figura de Flávio Bolsonaro foi vaiada. Vidas Cinzas pode não ser tão genial quanto o trabalho de KMF, mas vale pela criatividade da premissa.

    Através de Ti, de Diego Tafarel

    Um dos filmes mais leves do Cine PE até então, o curta romântico Através de Ti se passa em uma bucólica casa do interior do Rio Grande do Sul na qual um casal e um amigo passam um momento de descontração. Os diálogos soam menos naturais do que se pretendem e é notável a discrepância entre as cenas filmadas dentro e fora da casa, mas o elenco tem química e a obra aborda a possibilidade de novos arranjos afetivos de forma corajosa.

    Na Mostra PE, o curta Cara de Rato apresentou uma trama sobre bullying no ambiente da escola e tem como protagonista uma personagem que nasceu com uma deformidade no rosto. Bem intencionado, mas esteticamente precário, o curta pode ser criticado pela forma como a câmera fetichiza o corpo de suas personagens femininas sem dispor do mesmo tratamento aos personagens masculinos — algo diferente do que acontece em Através de Ti, por exemplo.

    *O AdoroCinema viajou para o Cine PE a convite da organização do evento.

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    Comentários
    • Endo Torres
      Brutalidade policial?Quem dera os policias tivessem a possibilidade de serem tão brutais com os bandidos.
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