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    Cine PE 2018: Com Deborah Secco e Alessandra Negrini, "comédia pop" Mulheres Alteradas abre o festival
    Por João Vitor Figueira — 01/06/2018 às 14:22
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    Após breve adiamento em função da greve dos caminhoneiros, abertura da edição deste ano do festival pernambucano também contou com exibição de seis curtas e homenagem à cineasta Kátia Mesel.

    Não há mais greve de caminhoneiros que impeça que os projetores do exuberante Cinema São Luis, no centro de Recife, funcionem à todo o vapor para mais uma edição do Cine PE. A largada do tradicional festival audiovisual pernambucano que chega a seu 22º ano em 2018 foi dada em uma noite marcada pela intensa participação do público, a exibição de uma "comédia pop" sobre mulheres e curtas-metragens dos mais plurais.

    Logo no começo da solenidade, realizada na noite de quinta-feira (31), a mestre de cerimônias leu um discurso que exaltava a diversidade de abordagens estéticas e políticas que ganharam as telas nas recentes edições do festival. Na parte do texto em que se ressaltava que a curadoria do festival abre espaço para filmes "cabeças e até os [filmes] coxinhas", o público reagiu com risadas irônicas. Seria uma alusão ao elefante na sala na edição de 2017 do Cine PE? No ano passado a presença (que se mostraria vitoriosa) do documentário O Jardim das Aflições motivou um boicote de cineastas que viram na seleção do filme um "alinhamento com a direita conservadora". Neste ano, ao menos no primeiro dia, a ideologia de Olavo de Carvalho não teve vez. 

    Com uma predominância de discursos progressistas por parte dos realizadores envolvidos nos filmes exibidos na abertura, o público se manifestou sempre que pôde. As marcas da Rede Globo e da Prefeitura do Recife foram vaiadas e houve até quem gritasse "Fora, Geraldo" (em alusão ao prefeito de Recife, Geraldo Júlio, do PSB), além dos obrigatórios "Fora, Temer". Além disso, houve manifestações de solidariedade ao diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho, cineasta que se considera perseguido pelo Ministério da Cultura por ter de devolver os R$ 2 milhões que captou para fazer O Som ao Redor.

    No momento mais emocionante da noite, a plateia se pôs de pé para prestar homenagem para a realizadora Yasmim Dias, responsável pelo curta-metragem documental Marias. A obra funciona como uma denúncia dos relacionamentos abusivos e foi inspirada pelo feminicídio cometido contra a mãe da diretora.

    Felipe Souto Maior/Divulgação
    Luis Pinheiro apresenta Mulheres Alteradas.

    Exibido fora de competição, o longa-metragem Mulheres Alteradas teve sua première nacional no Cinema São Luis diante de uma plateia receptiva. Quem representou o filme foi o realizador Luis Pinheiro, que estreia na função de diretor de cinema com um filme que carrega uma ousada proposta estética — especialmente quando se considera que a obra é uma produção que visa atingir o grande público. Foram sentidas as ausências das atrizes Monica Iozzi e Maria Casadevall, que não puderam viajar para Recife por não terem conseguido se adequar ao cronograma do festival depois que o Cine PE deste ano teve sua data inicial adiada.

    Pinheiro, que trabalhou na direção de episódios da série Lili, a Ex e prepara para a Netflix a atração Samantha!, primeira série nacional original de comédia do serviço de streaming, definiu Mulheres Alteradas como "uma comédia pop que tem quatro protagonistas mulheres com suas dúvidas e aspirações". O longa-metragem é uma adaptação para os cinemas dos quadrinhos da cartunista argentina Maitena Burundarena, fenômeno editorial na América Latina na década de 2000.

    Divulgação
    Alessandra Negrini em Mulheres Alteradas.

    "O filme tem um formato que transpõe os quadrinhos para o cinema", explicou Pinheiro. O principal traço técnico do longa-metragem é o uso de apenas uma câmera, que, sempre em movimento, cria planos detalhe, planos médios e planos gerais apenas com o movimento. A técnica confere um dinamismo elétrico para o longa e bons planos-sequência. "A gente fez um filme com uma postura irreverente. É um filme feito inteiro com uma lente só. Espero que esse filme seja um alívio frente a tudo que a gente tem vivido por aí."

    Mulheres Alteradas compõe um produto curioso dentro do contexto das comédias nacionais brasileiras com ambições mercadológicas. A direção estilizada de Pinheiro representa um ponto fora da curva em comparação com outros filmes que tem uma estética tipicamente televisiva e monótona. Apesar de não ser um filme explicitamente militante, a trama aborda questões relativas à liberdade da mulher com uma perspectiva leve, mas não livre de clichês. Além de Iozzi e Casadevall, o elenco principal se completa com Alessandra NegriniDeborah Secco (as atrizes mais famosas e com mais tempo de tela na projeção). As performances são dedicadas, especialmente a de Negrini. A atriz assume caretas à lá Jim Carrey para compor o papel mais caricatural do longa-metragem como uma mulher de negócios que igonora o amor romântico em detrimento do sexo casual. Muitas vezes as feições cartunescas casam bem com a energia geral do filme, mas acabam destoando das performances mais realistas do restante do elenco.

    Durante a coletiva de imprensa realizada no início da tarde de sexta-feira (01), Luis Pinheiro foi questionado mais de uma vez sobre seu lugar como cineasta homem em um filme sobre mulheres. O realizador afirmou que "não distingue gêneros dessa maneira" e que seu olhar masculino na condução de uma narrativa fílmica essencialmente feminina "é como o olhar de uma pessoa para a outra", sem diferenciaçõs. A posição do diretor foi vista como "equivocada" por uma pessoa presente, pois não seria possível se dissociar de seu "lugar de fala". "O que eu tento dizer que é que eu busco não sofrer pressões e não ser coagido ao tomar minhas decisões estéticas para exercer o pensamento artístico que é meu, inspirado por tudo aquilo que em volta de mim", argumentou o realizador.

    Felipe Souto Maior/Divulgação
    Kátia Mesel com seu Trofeu Calunga.

    Na abertura também ocorreu a primeira homenagem desta edição do Cine PE. Comemorando cinco décadas de uma carreira pioneira, a cineasta pernambucana Kátia Mesel recebeu um Troféu Calango pelo conjunto de sua obra. Com mais de 300 trabalhos entre curtas, médias, longas, programas de TV, vídeos educativos, comerciais, videoclipes e campanhas (entre outros formatos), Kátia foi a primeira mulher cineasta de Pernambuco e sua homenagem chega em um momento em que realizadoras mulheres lutam por representação e oportunidades. "Eu quero dedicar uma parcela dessa homenagem às mulheres porque nesses 50 anos de carreira eu vi o foco mudar. Há 50 anos, as mulheres eram basicamente atrizes. Hoje em dia elas atuam em todas as funções do cinema. Eu vi isso", disse Mesel.

    A primeira leva de curtas-metragens do Cine PE deste ano mostrou ecletismo da curadoria. Na Mostra PE, duas animações ganharam a tela. Dia-um, de Natália Lima, Júnior Ramos e Itamar Silva, se apresenta como um microconto de dois minutos sobre o impacto emocional de uma realidade no qual jovens humanos precisam ababdonar a Terra e deixar os mais velhos no planeta destinado a morrer, mas sua duração diminuta faz a narrativa parecer um esboço. Além disso, destaque para a trilha sonora. O Consertador de Coisas Miúdas, de Marcos Buccini, conta com um traço marcante e uma história hermética cheia de simbolismos sobre um sujeito que dedica a vida tentando reparar objetos.

    Divulgação
    Imagens de divulgação de Abismo (esquerda) e Sob o Delírio de Agosto (direita).

    Na Mostra Curta Brasil, foram exibidos três filmes bem diferentes sobre sofrimento de pessoas vulneráveis, partindo da denúncia do machismo brutal e mortal em relacionamentos (Marias, de  Yasmim Dias), lançando luz sobre questões psiquiátricas no Brasil profundo (Sob o Delírio de Agosto, Carlos Kamara e Karla Ferreira) e abordando as limitações da condição humana de forma buñuelesca (Abismo, de Ivan de Angelis).

    Os destaques vão para a montagem cirúrgica de Sob o Delírio de Agosto, que não deixa nenhuma cena durar mais do que deveria e constrói fortes significados em suas transições de planos, além de brincar bem com os códigos do thriller/terror para tratar de uma história pesada sobre esquizofrenia. Enquanto isso, Abismo inicia com humor e pavor uma conversa sobre ser aprisionado a uma rotina. O enredo acompanha um porteiro chamado Juvenal que poderia muito bem atender por Sísifo, como no mito grego. Na trama, um dia comum ganha ares de pesadelo quando o zelador passa a perceber o prédio no qual trabalha como um labirinto. Econômico e meticuloso, o curta pode ser entendido como um comentário sobre a venda da força de trabalho em uma realidade de exploração da mão de obra, mas atinge níveis ainda mais profundos e existenciais ao tratar da passagem do tempo e da impotência diante das situações do cotidiano.

    *O AdoroCinema viajou para o Cine PE a convite da organização do evento.

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