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    Philip Roth, o provocador (1933-2018): Relembre as adaptações da obra do autor estadunidense
    Por Renato Furtado — 26 de mai. de 2018 às 08:29
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    Falecido nesta semana, o escritor foi um dos mais influentes e importantes artistas literários de sua geração.

    Quando lançou seu primeiro livro, "Adeus, Columbus" (ed. Companhia de Bolso), nos idos de 1959, Philip Roth provavelmente não sabia que ocuparia um posto de relevância dentro da literatura estadunidense e mundial. Mas desde sua estreia até seus últimos anos em atividade como o icônico autor que viria a se tornar, Roth demonstrou talento e ousadia narrativa suficiente para liderar sua brilhate geração e fazer frente aos feitos daqueles que o precederam - tais como os gigantes William Faulkner e F. Scott Fitzgerald.

    Falecido aos 85 anos, na última terça-feira, dia 22, vítima de uma insuficiência cardíaca, Roth deixa para trás um vasto e riquíssimo legado de obras que questionam a identidade estadunidense através de um estilo de escrita inconfundível, ocasionalmente irônico, absurdo e autobiográfico, mas sempre contundente, brutal e direto ao ponto. E como Hollywood ama realizar uma boa adaptação literária, é evidente que os livros de Roth não deixariam de entrar no foco dos executivos de Los Angeles. Portanto, relembre - ou conheça, é claro - as adaptações da obra de um dos maiores mestres da literatura contemporânea:

    INDIGNAÇÃO

    Apesar de ser uma das derivações mais recentes do corpus literário de Roth, Indignação é provavelmente a mais celebrada dentre todas as adaptações da obra do autor de Newark, Nova Jérsei, nascido em 1933. Ambientado em um dos períodos favoritos de estudo do escrito, o pós-Segunda Guerra Mundial e durante o conflito entre os Estados Unidos e a Coreia, época que Roth vivenciou na pele, Indignação narra a história de Marcus (Logan Lerman), um jovem judeu que deixa sua família para atravessar os Estados Unidos e estudar em um pequeno e prestigiado colégio de Ohio, a quase 900 quilômetros de distância. Assim como o livro (ed. Companhia de Bolso), o longa de estreia do roteirista James Schamus (O Tigre e o Dragão) - que concedeu entrevista exclusiva ao AdoroCinema por causa de seu filme durante o Festival do Rio 2016 - na direção explora e desconstrói a (re)construção da identidade judaica nos Estados Unidos e reflete a nossa própria época, como aponta nossa crítica 3,5 estrelas.

    PASTORAL AMERICANA

    Para fazer sua estreia como diretor de longas-metragens, Ewan McGregor decidiu mirar alto e escolheu "Pastoral Americana" (ed. Companhia das Letras) como o livro certo para adaptar. No entanto, ao contrário do que possa parecer a julgar por esta e pela última entrada da lista, Roth não é exatamente o autor perfeito para um cineasta de primeira viagem. É por isso que, de acordo com o consenso da crítica internacional para Pastoral Americana, McGregor não conseguiu captar a sutileza da essência da escrita do autor, que na obra em questão acompanha a trajetória de uma aparentemente feliz família burguesa estadunidense para esmiuçar como as vidas da conservadora classe média alta dos Estados Unidos foram abaladas pelos protestos sociais e raciais dos conturbados anos 1960.

    O ÚLTIMO ATO

    Nem mesmo com o auxílio de Roth, o veterano Barry Levinson - o diretor de Rain Man vem entregando alguns de seus melhores trabalhos na televisão recentemente, tais como os aclamados telefilmes PaternoO Mago das Mentiras - conseguiu voltar a cair nas graças dos críticos cinematográficos em geral. Baseado no livro "A Humilhação" (ed. Companhia das Letras), O Último Ato dividiu os jornalistas especializados na sétima arte com a história de um ator falido nos momentos terminais de sua carreira. Enquanto alguns encararam a dramédia coestrelada por Al PacinoGreta Gerwig como apenas uma chance para ver o ótimo trabalho da dupla de protagonistas apesar da obra de Roth, outros consideraram O Último Ato captou a alma do humor do autor, que gravitou - novamente de maneira autobiográfica - em direção a temas como a morte, a perda e o esquecimento na fase final de sua carreira.

    FATAL

    Tão intenso e direto quanto o conteúdo de sua narrativa, a novela "O Animal Agonizante" (ed. Companhia das Letras) é uma erótica e contundente análise dos prazeres, do sexo, da mortalidade e do cinismo contemporâneo que somente um autor como Roth poderia estruturar. Nas telonas, coube à premiada realizadora espanhola Isabel Coixet (A Livraria, A Vida Secreta das Palavras) a tarefa de narrar o tórrido conto do escritor estadunidense. Em Fatal, indicado ao Urso de Ouro, prêmio principal do prestigiado Festival de Berlim, Ben Kingsley assume o papel do promíscuo e brilhante professor David Kepesh e Penélope Cruz o de sua musa e aluna, a sensual Consuela Castillo. Melancólico, sóbrio e intelectual, o drama é considerado pela crítica como uma das melhores adaptações da obra de Roth para a sétima arte.

    REVELAÇÕES

    Na era das redes sociais, fazer justiça pelas próprias mãos - ou pelas próprias palavras - tornou-se uma prerrogativa dos usuários do Facebook ou do Twitter. Mais do que ocasionalmente, figuras são jogadas na fogueira do tribunal da sempre raivosa opinião pública ou da sempre faminta mídia, antes de qualquer esclarecimento, investigação ou apuração fria dos (supostos) fatos. Estes julgamentos modernos são o ponto de partida de "A Marca Humana" (ed. Companhia de Bolso), colérico livro escrito por Roth ambientado na época em que o escândalo Monica Lewinsky, a amante do então presidente Bill Clinton, foi deflagrado. Mas apesar do potente material original, Revelações, protagonizado por Anthony Hopkins e por Nicole Kidman, acabou conferindo nova roupagem à história do professor que cai em desgraça após ser acusado de racismo e vira o objeto de afeto de uma sedutora femme fatale - uma que, segundo a crítica, aplacou erroneamente a potência da escrita pontiaguda de Roth em favor de um tom austero e distanciado.

    O COMPLEXO DE PORTNOY

    Por mais que tenha construído uma carreira versando sobre temas controversos e atraindo detratores por causa dos conteúdos de seus livros, Roth provavelmente não voltou a encontrar tantas opiniões díspares quanto na época do lançamento do satírico "O Complexo de Portnoy" (ed. Companhia das Letras), seu mais amado e aclamado livro, uma obscena e hilária comédia que alavancou o nome do autor e o transformou em um milionário. Na trama, o personagem-título, um judeu sexualmente reprimido, narra suas desventuras para seu analista; o problema é quanto mais ele reprime seus desejos, mais perversos eles se tornam. Lançado em 1969, a obra encapsulou o espírito de uma das décadas mais insanas e conturbadas da história dos Estados Unidos. Falta, portanto, uma adaptação cinematográfica à altura da comédia, uma vez que Portnoy's Complaint "substituiu a sátira de Roth por uma sequência de piadas ofensivas", de acordo com o lendário crítico Roger Ebert.

    PAIXÃO DE PRIMAVERA

    Paixão de Primavera é o primeiro filme a conseguir captar, em parte, o estilo de Roth, e bem durante a trajetória de ascensão do autor, ainda nos idos de 1969. Baseado no conto titular do supracitado "Adeus, Columbus", o longa de Larry Peerce é uma espécie de comédia romântica dramática que apreende com certo sucesso a afiada crítica de Roth à burguesia e as confusões de uma história de amor entre judeus de classes sociais bastante distinas. Modesto sucesso de bilheteria e popular longa-metragem à época de seu lançamento, Paixão de Primavera acabou sendo esquecido apesar da boa recepção da crítica.

    BATTLE OF BLOOD ISLAND

    É provável que o único mérito do desconhecido diretor e roteirista Joel Rapp seja o fato do cineasta ter sido o primeiro a enxergar o potencial da obra de Roth, uma vez que seu quase perdido Battle of Blood Island é uma adaptação direta do primeiro conto do autor estadunidense, "Expect the Vandals", narrativa curta lançada pela prestigiada revista Esquire em 1958. A película sumiu aos poucos e é, atualmente, um item raro, cujos maiores interesses residem no campo do pioneirismo cinematográfico em relação à obra de Roth e na rápida participação como ator do diretor e produtor Roger Corman, papa dos filmes B e cineasta admirado pelos críticos da Cahiers du Cinéma, que financiou parte de Battle of Blood Island.

    COMPLÔ CONTRA A AMÉRICA

    Por fim, uma obra que ainda não saiu do papel, mas que já vem acumulando expectativas: a adaptação limitada de "Complô Contra a América" (ed. Companhia das Letras) por intermédio da mente de David Simon, o criador da aclamada The Wire e da recente e também elogiada The Deuce. The Plot Against America (título original) é uma das narrativas mais ousadas de Roth, que imagina um cenário alternativa em que o aviador Charles Lindbergh derrota Franklin D. Roosevelt nas eleições presidenciais de 1940 e faz um pacto com Adolf Hitler, aliando os Estados Unidos à Alemanha Nazista. Basta reunir a afiada literatura de Roth e sua brilhante premissa ao brilho de Simon como roteirista e produtor para perceber que The Plot Against America já é uma das minisséries mais promissoras do momento - ainda não há previsão de estreia, no entanto.

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    Comentários
    • Vidamell Vida R.
      Todos são bons.
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