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    Opinião: É justo fazer um filme sobre Marielle Franco agora?
    Por Taiani Mendes e Bruno Carmelo — 30 de mar. de 2018 às 07:23
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    Algumas considerações sobre um projeto controverso, antes mesmo de começar.

    Passaram-se mais de duas semanas desde que a vereadora Marielle Franco, do PSOL, foi executada no Rio de Janeiro ao fim de um dia de trabalho. Criada na favela da Maré, ela entrou na política e militou pelos direitos humanos, exigindo tratamento justo tanto para civis quanto para policiais, vítimas frequentes da violência.

    Desde então, a comoção pública tem sido intensa, dentro e fora do país. Personalidades como Viola Davis e o Papa se pronunciaram em pedido de justiça. A direita acusou a esquerda de aproveitar o caso para levantar bandeiras progressistas, enquanto a esquerda criticou a direita por utilizar o caso para levantar bandeiras conservadoras, como a intervenção militar.

    Parentes, amigos, colegas de partido, eleitores e a viúva de Marielle choram a perda de uma figura exemplar em sua luta e representativa de um segmento social particularmente discriminado, por ser mulher, negra, bissexual e cria da favela. O caso está longe de ser resolvido, apesar da pressão popular. Enquanto os debates se acirram, a produtora Paula Barreto (de Lula, o Filho do Brasil e João, o Maestro) anunciou que está preparando um longa-metragem baseado na vida da ativista.


    A produtora Paula Barreto

    É hora de fazer um filme sobre Marielle?

    A notícia do projeto foi recebida com espanto. Gritos de oportunismo ecoaram no mar espinhoso das redes sociais. Mas quando seria a época correta de fazer um filme sobre Marielle? Quanto tempo é necessário esperar para que o retrato seja considerado uma homenagem, ao invés da exploração econômica de uma tragédia?

    Não existem respostas fáceis para a questão, é claro. O anúncio do projeto, em si, tem o mérito de prolongar a discussão sobre um tema que muitos setores da sociedade preferem abafar - figuras políticas importantes sequer se pronunciaram sobre o caso. Longas-metragens demoram para ser feitos e chegar o cinema, de modo que a execução política de Marielle ecoaria para além de 2018.

    Além disso, o filme anunciado não teria como foco a morte da ex-vereadora, e sim sua vida - a infância, o crescimento na Maré, os ideais políticos. Os fundos seriam revertidos inteiramente para os moradores locais, o que causa a incômoda equivalência de arte como projeto social, ou seja, uma arte utilitarista, ao invés de reflexiva.

    O maior perigo, no caso, é a hagiografia, o retrato puramente elogioso e sem nuances da biografada. Apesar das campanhas difamatórias, espalhando notícias falsas sobre Marielle (de que teria ligações com o Comando Vermelho, de que teria engravidado de um bandido aos 16 anos etc.), é importante dizer a verdade sobre a sua vida. Mas nenhum retrato é apenas uma ascensão pródiga rumo à tragédia: o filme perderia sua relevância social se representasse apenas a trajetória de um mártir.

    O mais importante seria inserir Marielle em um contexto mais amplo: a desigualdade social, o preconceito contra mulheres - especialmente negras - a luta para fazer política partindo de um meio desfavorecido, o fato de se impor politicamente a ponto de incomodar altas esferas do poder. Seria importante buscar causas, retratar a complexidade da situação presente e estabelecer consequências, de modo dialético. Nenhuma história é apenas a sucessão dos fatos. Marielle precisa ser o ponto de partida, e não de chegada nesta discussão.

    Acima de tudo, o projeto precisaria ser condizente com a figura da própria Marielle. Neste sentido, ele começa com problemas sérios no que diz respeito à representatividade.


    A diretora Camila de Moraes no festival de Gramado

    A voz da mulher negra

    No primeiro mês de 2018, a ANCINE divulgou um estudo sobre gênero e raça dos profissionais do audiovisual brasileiro. Considerando os 142 longas-metragens lançados comercialmente nas salas do país em 2016, nenhum foi dirigido por uma mulher negra, nenhum foi roteirizado por uma mulher negra e nenhum teve produção executiva de uma mulher negra.

    Não foi um "apagão" isolado. Voltando aos anos anteriores, a situação é a mesma: nota-se uma participação maior das mulheres no mercado outrora quase completamente dominado por homens, mas apenas as brancas. Não é por falta de profissionais negras competentes e interessadas. Elas estão com seus filmes nos festivais, cada vez mais. No entanto, na história do cinema brasileiro apenas dois longas dirigidos exclusivamente por mulheres negras estrearam comercialmente: Amor Maldito, de Adélia Sampaio, e O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes. O que acontece?

    Os problemas estão em todas as etapas do processo, do financiamento à distribuição, e o controverso projeto recém-anunciado sobre Marielle Franco é só o último exemplo do que o público do cinema nacional desde sempre está habituado a ver: histórias negras contadas por brancos. Compor elenco e equipe com moradores do Complexo da Maré e reverter para lá a renda não deve ser uma contrapartida aceitável em pleno 2018. Aos negros suas narrativas. À mulher negra o direito de se colocar na tela.

    Segundo o supracitado estudo da ANCINE, um diretor negro aumenta consideravelmente a chance de o roteirista ser negro e ambos ampliam a participação negra no elenco. A chave de ouro da genuína representatividade está na criação e é limitando o acesso a tais espaços que se preservam os estereótipos, o controle e ultimamente a imagem de "bom branco amigo" da diversidade. Muito comentado é hoje o conceito de "lugar de fala" (para saber mais, leia Djamila Ribeiro), que no cinema caberia justamente às posições de direção, produção e/ou roteirização, onde, não por acaso, o acesso é tão restrito.

    Forjada precocemente ainda no luto e distante da luta que a vereadora assassinada empenhava pela voz da mulher negra, uma cinebiografia de Marielle Franco com assinatura branca tem espectadores bem definidos e certamente não são os moradores da Maré que com ela conviveram ou periféricos em geral que nela poderiam se inspirar.

    Seguindo um tempo que não é o do oportunismo, aqueles realmente capazes de eternizar com propriedade no cinema a trajetória de Marielle querendo um dia o farão à sua maneira. O sabor do futuro é Café com Canela, dos promissores Ary Rosa e Glenda Nicácio, filme de gente preta pensado por gente preta. Mesmo com todo burburinho causado e sessões esgotadas em diversos festivais, o drama permanece inédito em circuito comercial. Não é difícil entender o por quê. Mas até quando?

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    Comentários
    • josemar silva
      Ela foi VITIMA DAS VITIMAS DA SOCIEDADE que ela tanto puxava o saco! logo não há crime, porque VITIMAS não podem ser condenadas.
    • josemar silva
      MAS QUE MERDA! ! e os Policiais que morrem todos os dias?? também não mereçem??? parem de endeusar esta inutilidade.
    • Lucas T.
      imparcialidade n existe....
    • Henrique Souza
      Feitos? que feitos? Essa mulher só apóia coisa ruim, e era contra a intervenção federal, ou seja era a favor de bandidos, pois fora isso não tem outro motivo pra ser contra algo que é pra aumentar a segurança do povo
    • Henrique Souza
      Não, chega disso, dos policiais que morrem aos montes ninguém fala nada.
    • Vítor Menezes
      que tal fazer um filme sobre duas Policiais negras que foram brutalmente assassinadas? Ou só causa comoção quando é militante de esquerda?
    • Danilo
      Explique isso para o pessoal do PSOL, porque a impressão que se tem, quando eles discursam é que todos os comissionados são iguais.
    • Danilo
      Tente explicar isso para o pessoal do PSOL quando eles estiverem destilando a mesma verborragia, garanto que oportunidades não lhe faltaram
    • Ane Dias
      Não fala m...da, ele era comissionado.. Procura no dicionário o que significa antes de destilar verborréias aff
    • Ane Dias
      E de se pensar....
    • Ane Dias
      Ezequiel, Não acho que os bandidos a mataram, mas concordo com vc que não tem sentido fazer filme sobre ela
    • Ezequiel O.
      Palhaçada tantos policiais heróis são mortos todos os dias no Brasil e não são homenageados em nada...o que essa mulher fez de heroísmo? Nada só se envolveu com as pessoas erradas pq quem matou ela foi bandido, daqueles que ela defendia tanto. Não vai ter nenhum produtor executivo querendo investir dinheiro nisso, e gastar o dinheiro público numa merda dessas é demais.
    • Ronaldo Cesar
      Eu nunca assisti filme sobre vida de politico, teve o de JK, o de Getúlio Vargas, o de Lula, o FHC, não interessei por nenhum e Nunca assistir nem no cinema, nem em casa. Nunca tive interesse.Prefiro gastar esse dinheiro (cinema e Netflix) assistindo filmes como IT- a coisa, Pantera negra, Han Solo, Aquaman, circulo de fogo (2001), a teoria de tudo, As aventuras de pi, Pânico na Floresta. É melhor que ir no cinema gastar 21 reais para assistir a vida de um politico mentindo que só faz falar besteiras, além do mais os filmes nunca vão contar a verdade por trás das câmeras, só vão mostrar Fantasias, que o politico era bom para com os pobre, que defendia os excluídos e que era certinho.
    • marco junior
      Cargo comissionado é diferente de escravo colega...
    • Steiinnnn_#coNs
      Só o tempo dirá...porém serás feito, desde usando o dinheiro deles próprios, e não com o dinheiro público e a seguinte Lei Rouanet. Além de não obrigar a sociedade assistir.
    • wellington m.
      Sou contra usar dinheiro publico! Si tem quem faça com dinheiro privado ok, tem quem goste, mas dinheiro publico eu nao aceito!
    • marco junior
      Mais do que o tempo, a questão é a qualidade do filme em si...Lula o Filho do Brasil é um filme fraco... O que a Globo vem fazendo soa sensacionalista... Heroificar Marielle como uma figura no deserto, creio que se deve contextualizar tanto a vida como a morte dela.... Marielle foi uma defensora dos direitos humanos, manifestante política, etc... Havia companheiros de luta, apesar de sua figura chamativa. O filme deve fazer o espectador compreender sua visão, sua vida... e Afastar-se da politicagem barata, sem deixar de ser político, sua carreira acadêmica pode inspirar outras meninas negras e faveladas do Rio a seguir seu exemplo, mães jovens como ela que podem estudar, lutar... Creio importante sim abordar a morte dela e a violência no Rio, mostrar os policiais vítimas e , por vezes, algozes... Há muitos caminhos e muitas chances de errar, é desafiador, especialmente pela aversão de parte dos brasileiros que criticam a dimensão que o caso tomou... Sem compreender o peso simbólico e a tragédia humana em si...
    • Danilo
      Acho válido fazer um sobre ela, poderia ser feito pelo ponto de vista do motorista dela, ,o Anderso Pedro Gomes, que trabalhava num regime de escravidão, sem carteira assinada, sem nenhum dos benefícios básicos garantidos por lei, reduzido a um simples cargo (é simplesmente citado como o motorista) a renda do filme poderia ser direcionada pra viúva e o filho doente.
    • Um dois
      E ao Adorocinema tá na hora de ser imparcial. Fica acusando discussões tão fracas como essa. Tratar como enquete para possíveis filmes, algo tão recente? Que ponto foi que vcs chegaram? Vcs vão dar opiniões sobre todo filme com temática política agora?
    • Um dois
      Meu Deus a que ponto chegamos... É lógico que vai virar filme agora é só esperar. Mas lhe pergunto qual foi o último filme que professores obrigaram crianças a assistir? Não estamos mais na idade da pedra. Terminei meu ensino médio tem quase 10 anos e naquela época nenhuma criança era obrigada a ir pra aula de religião (que na verdade era uma aula cristã). Quem não quer sai da sala, se obrigar, processa. Simples. Vcs tratam das coisas como se vivêssemos sendo obrigados a tudo e não é por aí. A repercussão da morte dessa mulher é pq ela foi uma política muito importante pros que seguiam ela. E ela foi morta em uma emboscada em que não levaram nada dela. Com todo respeito, se fosse um Bolsonaro, vcs tmb iam pra rua. E nem esperariam um veredito pra insinuar que os esquerdopatas é que mataram ele. A morte dela não é, nem jamais será mais importante que de um policial por exemplo. Inclusive ela era conhecida por ajudar policiais e parentes de policiais mortos, um leve pesquisada no Google vcs acham. E tá lá, do jeito que vcs gostam, com print de conversas e tudo. O que acontece é que por ela ser de um partido com militância, defesa intensa dos direitos humanos, vcs já fizeram dela uma pessoa de caráter dúbio. Ela é uma morta e política. Por isso tanta atenção... são votos de milhares de pessoas indo por água abaixo, por causa de intolerância. E não vem com papo de que ela foi morta por bandidos, pois vcs sabem que nem vcs acreditam. Existe um exagero da mídia encima do caso? Existe. Mas não diminui a triste situação em que esse SER HUMANO foi MORTO. Se fosse seu político que mais admira, vc tmb não ficaria chateado?Tá faltando muito respeito, tanto de direita, como de esquerda.
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