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    A História dos Blockbusters - Parte 2: Em uma galáxia muito, muito distante...
    Por Renato Furtado — 25 de mar. de 2018 às 10:00
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    Sobre George Lucas e Steven Spielberg - ou como dois amigos tomaram o controle de Hollywood.

    PANCADARIA É ARTE

    A segunda metade dos anos 1980 certamente não é tão interessante em termos de blockbusters quanto a primeira - afinal, é difícil repetir uma sequência de filmes como O Império Contra-Ataca, Os Caçadores da Arca Perdida, E.T. - O Extraterrestre e O Retorno de Jedi. É evidente que Hollywood produziu e lançou sucessos massivos entre 1984 e 1989, tais como Os Caça-Fantasmas (US$ 229 milhões), Um Tira da Pesada (US$ 316 milhões) e De Volta para o Futuro (US$ 381 milhões); entretanto, a época que se estendeu desde a reabertura política brasileira, em 1985, à primeira eleição nacional do pós-ditadura, em 1989, foi importante para Hollywood por diversos motivos.

    É neste período, por exemplo, que se estabelecem as grandes figuras do cinema de ação nos Estados Unidos. Após a produção de inúmeras obras orientais nos anos 1970 - como as do icônico Bruce Lee, que migrou para a América antes de falecer tragicamente em um set de filmagens - centradas em combates fulminantes, a indústria estadunidense percebeu o apelo que o gênero da ação possuía com os espectadores ocidentais. Logo, não demorou para que Hollywood também começasse a produzir filmes do tipo; e tão rapidamente quanto a popularização do gênero, veio o surgimento de mega-estrelas, tais como: Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Jackie ChanJean-Claude Van Damme e o próprio Sylvester Stallone, que emplacou várias sequências de Rocky e Rambo, seus maiores personagens, nos anos 1980.

    O austríaco Schwarzenegger, originalmente um fisiculturista de extremo sucesso, tornaria-se um astro das comédias de ação e da ficção científica.

    Praticamente todos os astros supracitados continuam em atividade até hoje - Schwarzenegger, por exemplo, retornou à franquia O Exterminador do Futuro após terminar seu mandato como Governador da Califórnia, cargo que exerceu entre os anos de 2003 a 2011 - e quase 100% deles iniciaram seu estrelato através de produções independentes. Ao passo em que as majors davam prosseguimento ao seu reinado, companhias de médio e pequeno porte ocupavam as brechas deixadas pelos enormes estúdios. Apostando principalmente em comédias, filmes de terror e outras produções de baixo orçamento, as primeiras indies de Hollywood encontrando um confortável espaço de crescimento - eventualmente, a maioria delas acabou sendo vendida para as gigantes da indústria.

    REVOLUÇÃO DIGITAL

    O cenário descrito acima foi possibilitado porque as tecnologias de produção ficaram mais baratas com o desenvolvimento do vídeo - de tal contexto, surgiriam realizadores cinéfilos e consumidores do cinema mundial como Quentin TarantinoPaul Thomas AndersonSteven Soderbergh - e dos formatos digitais: iniciava-se, assim, uma nova revolução. Com o cinema a um braço de distância, podendo contar com todos os clássicos e blockbusters de Hollywood em uma pequena fita de vídeo, os espectadores poderiam rever, quantas vezes quisessem - ou até que as mídias físicas se esgotassem - suas obras preferidas. As majors e as indies exploraram o novo mercado consumidor com um misto de sabedoria e avidez, recuperando os investimentos de obras que não tiveram êxito nas bilheterias ou dobrando os lucros de hits consolidados. Em 1985, o segmento dos videocassetes e seus derivados valia US$ 4,5 bilhões, superando pela primeira vez o lucro tradicional cinematográfico, proveniente das bilheterias.

    O bizarro Howard, o Super-Herói foi a primeira incursão da Marvel nas telonas e é o exemplo perfeito de como os efeitos visuais de maquiagem e os efeitos digitais podem ser utilizados de formas incrivelmente assustadoras, no pior sentido.

    No âmbito particular do cinema industrial, por sua vez, alguns laços começaram a se desfazer. Os efeitos especiais dos blockbusters e os impressionantes efeitos visuais práticos, como os de Rick Baker e outros grandes maquiadores da indústria, agradaram ao público, mas o mesmo não pode ser dito dos críticos. Na década anterior, os massivos Tubarão e Guerra nas Estrelas arrancaram aplausos da imprensa especializada; nos anos que antecederam a queda do Muro de Berlim, contudo, iniciou-se um descompasso. Ao passo em que retomavam a política de baixos riscos, os produtores de Hollywood trouxeram de volta a era da pasteurização. E como o jornalista Peter Biskind, autor de "Como a Geração Sexo-Drogas-Rock n' Roll Salvou Hollywood" (ed. Intrínseca), escreveu, todos os estúdios queriam ter seu próprio Tubarão, um projeto de ampla padronização que não caiu nas graças da imprensa especializada.

    O abismo moderno entre a opinião da crítica e a dos espectadores, portanto, agravou-se nos anos 1980 porque os ciclos de produções similares entre si geradas por blockbusters de imenso êxito nas bilheterias atingiram novos patamares. Descontentes com o novo período de repetições de temas - principalmente nos terrenos do sci-fi e da ação - e com a inédita tendência das sequências e trilogias, os críticos partiram a boa e aparentemente inabalável relação desenvolvida com o mainstream naqueles tempos, de maneira semelhante ao contexto instaurado fim da década de 1960. Entretanto, a diferença fundamental entre a época sob Richard Nixon e o período pré-Bush nos Estados Unidos é que as majors não estavam perdendo dinheiro - muito pelo contrário, aliás.

    O premiado e aclamado Rain Man (US$ 354 milhões), coestrelado por Dustin Hoffman e Tom Cruise, é um dos poucos dramas dos anos 1980 que conseguiu triunfar sobre as ficções científicas, as comédias e os filmes de ação.


    Os supracitados De Volta para o Futuro e Um Tira da Pesada Duro de Matar (US$ 140 milhões) e Uma Cilada Para Roger Rabbit (US$ 329 milhões), por exemplo, garantiram enormes lucros e produziram um impacto cultural que pode ser sentido até hoje. Para Hollywood, no fim das contas, não importava muito se suas cópias, fossem elas diretas ou indiretas, não repetissem o sucesso de seus materiais de base. Era importante, por outro lado, a concretização da ideia de serialização do produto e da fidelização do público - nada mais, nada menos que a mesmíssima estratégia utilizada pelo Universo Cinematográfico Marvel atualmente. Personagens ou mundos interessantes geravam longas derivados, produtos licenciados e a continuidade de consumo por parte do público. Nos anos 1980, a palavra em Hollywood tornou-se definitivamente vender aquilo que já tinha sido vendido, mas com uma roupagem diferente, pequenos detalhes inéditos e referências nostálgicas.

    Em suma, a indústria cinematográfica estadunidense aprendeu a comercializar o afeto dos cinéfilos, que se esbaldavam com a chance de reencontrar seus heróis favoritos lutando contra vilões ou problemas terríveis com o conforto de saber que tudo acabaria bem no final, de uma forma ou de outra. Hollywood encontrou, então, a mina de ouro que jazia dentro de si mesma - uma fonte inesgotável de renda que provou ser ainda mais profunda na década de 1990, quando os milhões tornaram-se bilhões.

    (continua em 31/03)

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    Comentários
    • Alan Bitencourt
      A Década de 80 teve domínio do Spielberg e do George Lucas, mas também teve altos e baixos, mas foi uma década muito interessante para a indústria do cinema.
    • Pacino
      TITANIC
    • Jor Ge
      Show!!
    • Marcos Adriano Dams
      O que resta agora é aguardar até dia 31
    • Dheo C.
      Ótima matéria. Parabéns!!!!
    • Vidamell Vida R.
      Eu sou o seu pai.
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