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    A História dos Blockbusters - Parte 2: Em uma galáxia muito, muito distante...
    Por Renato Furtado — 25 de mar. de 2018 às 10:00
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    Sobre George Lucas e Steven Spielberg - ou como dois amigos tomaram o controle de Hollywood.

    ÀS PORTAS DO INFERNO

    A realidade começou a bater à porta - como sempre faz, mais cedo ou mais tarde - dos realizadores da Nova Hollywood no mesmo ano em que Guerra nas Estrelas mudou o jogo. Em 1977, o "cinema novo" dos Estados Unidos se deparou com sua primeira ruína: o fracasso retumbante de New York, New York, dirigido por Martin Scorsese. Parte homenagem aos musicais da Velha Hollywood e parte reinterpretação do gênero, o longa coestrelado por Robert De NiroLiza Minnelli custou US$ 14 milhões para ser produzido e arrecadou apenas US$ 16,4 milhões em retorno. O fiasco abismal agravou a dependência química de Scorsese - ele só foi resgatado do abismo da cocaína após o sucesso de Touro Indomável, patrocinado por De Niro - e colocou um ponto de interrogação sobre os extravagantes épicos da Nova Hollywood.

    Por mais que O Franco Atirador, de 1978, tenha recuperado parte do prestígio do rebelde movimento cinematográfico, tudo desmoronou em 1979 com a insana produção de Apocalypse Now. Estourando o orçamento em mais de US$ 17 milhões e o prazo de filmagens e pós-produção - o longa ficou pronto dois anos após o término das gravações -, o filme de guerra de Francis Ford Coppola falhou em repetir o sucesso de O Poderoso Chefão. Apesar de o filme ter arrecadado US$ 150 milhões, seu caótico set, construído em meio à selva do Vietnã, comprovou a inviabilidade do projeto da Nova Hollywood, o que fez com que paulatinamente os tradicionais produtores e executivos da indústria retomassem o controle perdido. Especialmente após o lançamento da grande "bombas atômica" do período: O Portal do Paraíso.

    O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, estraçalhou a Nova Hollywood e faliu a lendária United Artists.

    Devido aos quase US$ 50 milhões de prejuízo trazidos pelo épico de quatro horas de duração de Michael Cimino - que havia lançado um grande sucesso, o ganhador de 5 Oscar O Franco Atirador -, a United Artists foi obrigada a vender todas as suas propriedades para a MGM. O drama protagonizado por Kris Kristofferson (US$ 3 milhões arrecadados em apenas duas semanas em cartaz) chegou a ser melhor reavaliado posteriormente pela crítica, mas a má impressão causada no momento de seu primeiro lançamento foi suficiente para enterrar o estúdio, o longa e a carreira de Cimino, que jamais reencontrou o êxito de O Franco Atirador. Com o caminho aberto, Hollywood redefiniu sua estrutura e os produtores-diretores, como George Lucas e Steven Spielberg, tomaram o controle.

    SPIELBERGMANIA

    São deste último, aliás, quatro dos maiores blockbusters dos anos 1980: E.T. - O Extraterrestre (1982); Os Caçadores da Arca Perdida (1981); Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984); e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) - Spielberg ainda produziu os hits De Volta para o Futuro e Uma Cilada para Roger Rabbit. Quanto a Lucas, o roteirista foi responsável por dois hits da mesma década: as duas sequências diretas de Guerra nas EstrelasO Império Contra-Ataca (US$ 538 milhões) e O Retorno de Jedi (US$ 475 milhões), lançados em 1980 e 1983, respectivamente. Vale ressaltar ainda que a duradoura amizade entre o criador de Star Wars e Spielberg foi o elemento propulsor da criação do caçador de tesouros, arqueólogo e combatente de nazistas mais famoso da sétima arte: o Indiana Jones de Harrison Ford.

    Ford cimentou seu estrelato logo nos primeiros minutos de Os Caçadores da Arca Perdida, durante a icônica cena do ídolo de ouro.

    O trabalho conjunto de Lucas e Spielberg, na verdade, é o melhor demonstrativo de um conceito mencionado anteriormente nesta série: o dos Quatro Quadrantes. Ainda que tal categoria tenha sido desenvolvida posteriomente à década de ouro da dupla, a franquia Indiana Jones pode ser eleita como representante dos blockbusters que possuem apelo comercial com quatro demografias diferentes de espectadores: homens, mulheres, pessoas abaixo de 25 anos e pessoas acima de 25 anos - os quadrantes. Ou seja, as aventuras de Jones, descritas por Lucas como uma sequência de confrontos exuberantes e violentos, no melhor estilo das histórias em quadrinhos, conquistaram todos os tipos de público. A grosso modo, bastava estar vivo na era da música eletrônica, da queda das ditaduras no Brasil e no Chile e no governo de Ronald Reagan para ser atraído pela magia de Lucas e Spielberg.

    Spielberg, que manifestara interesse em assumir a franquia James Bond - que encontrou anos complicados na década de 1980 - antes de lançar Os Caçadores da Arca Perdida, embarcou em sua trilogia cinematográfica definitiva - esqueçamos o fiasco de O Reino da Caveira de Cristal por enquanto - com toda a confiança do mundo. Em 1989, época em que a terceira aventura foi lançada, veio o saldo final: juntos, os longas estrelados por Ford, dirigidos por Spielberg e produzidos por Lucas, arrecadaram quase US$ 1,2 bilhão. O trio das aventuras de Jones tornou-se a segunda série cinematográfica a entrar para o seleto clube do bilhão - após a trilogia original de Star Wars, é claro -, superando até mesmo a franquia que Spielberg queria dirigir, uma vez que os suspenses de espionagem do agente 007 só alcançariam tal marca após 17 longas.

    E.T. - O Extraterrestre, melhor exemplo da Spielbergmania e um dos mais perfeitos e bem-aventurados filmes sobre a infância.

    Mas aquele franzino cineasta que chegou contando apenas com a sorte em Hollywood mal podia esperar que repetiria o seu feito de 1975. Em 1982, Spielberg lançaria o mágico E.T. - O Extraterrestre - que encerrou o prestigiado Festival de Cannes daquele ano, vencido por Desaparecido - Um Grande MistérioYol - e inscreveria seu nome na história da sétima arte de novo, ocupando mais uma vez o posto de responsável pela maior bilheteria de todos os tempos até então: US$ 716 milhões, sem contar com seus concorridos relançamentos. O cineasta, de fato, é tão especialista em derrubar seus próprios recordes que E.T. - aclamado pelo seu retrato da infância e pelo espírito de aventura próprio da visão de mundo das crianças - só viria a ser batido como longa mais lucrativo de todos os tempos por Jurassic Park - Parque dos Dinossauros, 11 anos depois.

    O que o início da década em questão demonstra é que não bastava ser um artista completo: também era preciso ser um executivo. Lucas e Spielberg, dois cinéfilos inveterados, uniram a expertise de produtores como David O. Selznick e Samuel Goldwyn ao estilo rebelde da Nova Hollywood. Lucas, Spielberg e seus pupilos - cineastas como Robert ZemeckisRon Howard e, mais recentemente, J.J. Abrams - inauguram uma nova era, um tempo em que o dinheiro investido pelo produtor da obra tinha relação direta com as aspirações estéticas e de entretenimento do filme em questão. Pouquíssimos riscos financeiros e bastante experimentação narrativa - dentro dos moldes hollywoodianos, é claro: esta é a fórmula dos realizadores-produtores, uma imensamente lucrativa estirpe de artistas que segue viva na indústria até os dias atuais.

    "Luke, I am your father!"

    Foi pela atuação destes nomes, aliás, que as franquias se consolidaram nos anos 80. Se antes apenas James Bond e os primatas de Planeta dos Macacos retornavam constantemente às telonas, a época do fim da Guerra Fria trouxe blockbusters em série que encantaram o público continuamente. Se um filme fizesse sucesso, os estúdios - em franca recuperação depois de um período economicamente complicado nos Estados Unidos - patrocinariam continuações diretas. Mais salas construídas nos subúrbios, incremento do marketing, o abandono completo de técnicas infrutíferas e o aprendizado com os erros do passado: Hollywood estava de volta, e com força total.

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    Comentários
    • Alan Bitencourt
      A Década de 80 teve domínio do Spielberg e do George Lucas, mas também teve altos e baixos, mas foi uma década muito interessante para a indústria do cinema.
    • Pacino
      TITANIC
    • Jor Ge
      Show!!
    • Marcos Adriano Dams
      O que resta agora é aguardar até dia 31
    • Dheo C.
      Ótima matéria. Parabéns!!!!
    • Vidamell Vida R.
      Eu sou o seu pai.
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