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    Janela de Cinema 2017: Balanço de uma edição comprometida com o cinema de gênero e a representatividade das minorias
    Por Bruno Carmelo — 13 de nov. de 2017 às 09:10
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    Por um cinema de exceção.

    O X Janela Internacional de Cinema do Recife chegou ao fim, e após a primeira cobertura do AdoroCinema no evento, seria interessante traçar algumas ideias a partir dos filmes exibidos.

    Inicialmente, é possível se perder pelo corte amplo da curadoria, capaz de colocar lado a lado curtas-metragens trash como Leona Vingativa IV, clássicos de Agnès Varda e refinadas coproduções brasileiras contemporâneas, a exemplo de As Boas Maneiras. O feel good movie (Jovem Mulher) se confronta ao feel bad movie (A Noite), a estética agressiva (O Gênero), ao escapismo do blockbuster (Aliens, o Resgate).


    Pink Flamingos (1972), dir: John Waters

    Gêneros

    Aos poucos, percebe-se que o objetivo é precisamente a fricção. Ao invés de compararmos os clássicos entre si, a produção contemporânea entre si, o Janela permite permite ver como a utopia de uma sociedade igualitária em Uma Canta, a Outra Não evolui para o individualismo selvagem de O Animal Cordial, como os afetos lúdicos de Vítor ou Vitória? cedem espaço ao afeto como espetáculo, no curta-metragem O Peixe, ou o afeto como posição política em A Moça do Calendário.

    A seleção torna-se coesa através de dois pontos distintos que acabam convergindo na mesma ideia: a importância de dar voz às minorias sociais (mulheres, negros, indivíduos LGBTT) e de valorizar o cinema de gênero (o terror, o suspense, a ficção científica, o grotesco, o paródico, o trash). O Janela compreende como nenhum outro festival brasileiro o modo como as linguagens marginais do audiovisual funcionam à perfeição para retratar a posição marginal de cidadãos. A prática política encontra uma forma igualmente politizada, como atestaram os ótimos curtas-metragens - destaque para Filme de Rua.


    Que o Verão Nunca Mais Volte (2017), dir: Alexandre Koberidze

    Políticas

    É importante que o evento pernambucano se dedique a formas de cinema que poderíamos julgar desaparecidas ou inexistentes: quem diria que, em 2017, circulavam pelas mostras alternativas dos festivais produções com imagem tão voluntariamente amadora quando aquela de Que o Verão Nunca Mais Volte, colagens anárquicas de material de arquivo a exemplo de O Gênero, experiências vanguardistas em película como em O Olho e o Espírito? Onde mais se teria a oportunidade de ver projeções em 16mm, caso do excelente Bush Mama, o grande destaque da décima edição do festival (junto da mostra L.A. Rebellion como um todo)?

    Em termos de projeção, tanto o Cinema São Luiz quanto o Cinema do Museu forneceram sessões de alta qualidade de imagem e som. É uma pena que a distância considerável entre os dois locais impeça que se pule de um para outro com facilidade, o que teria permitido a inclusão de mais filmes na nossa agenda. Mas essa é a sina de todo festival: partir sem ter conseguido assistir àquele título específico que parecia tão interessante.


    O Gênero (2017), dir: Klim Kozinsky

    Afetos

    A propósito de afetos, o Janela foi rico em debates, tanto aqueles organizados com tal finalidade quanto os espontâneos, pelos arredores do São Luiz. Os textos críticos continuam despertando amores e desamores, como em qualquer festival, mesmo que a interpretação destes seja equivocadamente deslocada para a crítica da personalidade: por mais que se critique um filme, alguns autores acreditam-se julgados pessoalmente.

    É comum à nossa percepção do cinema autoral que toda obra constitua, de certo modo, um reflexo do criador. Neste sentido, o filme não difere de um filho - e nada irrita mais uma mãe do que a crítica à sua prole. Embora nenhuma análise textual seja feita com a intenção exclusiva de despertar polêmica - não neste site, pelo menos -, nem tenha o direito de promover ofensas a pessoas em particular, é igualmente verdade que a prática de ouvir comentários negativos sempre será um ato doloroso. O crítico deve aprender a passar por este processo, assim como o artista. O texto crítico nunca será um fim de conversa, apenas um prolongamento necessário da mesma.

    Por esta razão, a proximidade com o pensamento diferente é essencial à reflexão. Foi valiosa a nossa participação no júri da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), debatendo formas e discursos cinematográficos com pessoas de trajetórias tão distintas da nossa. Que estejamos, cada vez mais, abertos à diferença.



    Confira as críticas do AdoroCinema sobre os longas-metragens do X Janela:
    120 Batimentos Por Minuto
    A Fábrica de Nada
    A Moça do Calendário
    A Noite
    A Trama
    Açúcar
    Arábia
    As Boas Maneiras
    Baronesa
    Bush Mama
    Contatos Imediatos do Terceiro Grau
    Era Uma Vez Brasília
    Filhas do Pó
    Gabriel e a Montanha
    Garota Negra
    Invisível
    Jovem Mulher
    Me Chame Pelo Seu Nome
    O Animal Cordial
    O Gênero
    O Nó do Diabo
    O Peixe
    Pela Janela
    Que o Verão Nunca Mais Volte
    Uma Canta, a Outra Não
    Verão 1993
    Zama

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