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    Janela de Cinema 2017: Curtas-metragens brasileiros se dividem entre retratar a realidade como ela é ou como poderia ser
    Por Bruno Carmelo — 07/11/2017 às 18:30
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    Deus é uma mulher negra, a morte é o abraço de um peixe.

    Após uma primeira sessão de curtas-metragens brasileiros bastante satisfatória, o segundo programa de curtas do X Janela Internacional de Cinema do Recife se mostrou muito mais problemático. Os cinco filmes apostaram em formas variadas de engajamento, com resultados distintos.


    O erotismo da morte

    O Peixe, de Jonathas de Andrade, tem despertado polêmica desde a sua primeira exibição. O filme retrata dez pescadores diferentes adotando o mesmo procedimento fictício, sugerido pelo diretor: eles pescam um peixe, tiram da água e abraçam o animal enquanto morre, fazendo carícias e apertando-o contra o peito. Um deles arrisca um beijo, enquanto insere o dedo delicadamente nas guelras do animal.

    O teor erótico é evidente, devido ao tratamento do diretor aos corpos dos pescadores. Muitas vezes, estes homens anônimos são vistos apenas pelo tronco e pernas, sem rosto. Em outros momentos, surge um plano próximo nos olhos inquisidores, encarando a câmera. A cada novo abraço, a câmera se aproxima num zoom lento e sensual.

    Mas o que significa, afinal, esta atitude? Uma performance sobre a conjunção entre o homem e a natureza? A sugestão de uma morte mais humanizada e carinhosa? Repetindo-se sem se desenvolver, o conceito deixa as interpretações abertas demais, sem fornecer uma chave de leitura. Soa como experiência inconsequente, na qual a morte é oferecida como fetiche ao espectador.


    A História se repete como farsa

    Rei, de Alfeu França, adota um tom histórico ao retratar as viagens do monarca etíope Haile Selassie I pelo mundo, incluindo a sua passagem pelo Brasil. O material de arquivo deteriorado às vezes sugere uma incursão pela representação abstrata, que não é aprofundada. A narração e os letreiros finais indicam o possível recurso ao humor, que tampouco se desenvolve.

    O problema do curta-metragem se encontra na indefinição de ponto de vista. O que interessa o cineasta em seu material de estudo? O que ele tem a oferecer pelo agenciamento das imagens? O cinema seria utilizado como mero resgate, lembrança? O conteúdo seria um fim em si mesmo? 



    Estética do gozo

    Diretor experiente em curtas-metragens e com presença garantida nos principais festivais, Leonardo Mouramateus foi representado no X Janela, ao lado da diretora Andréia Pires, por Vando Vulgo Vedita. O cineasta prossegue com retratos hedonistas de jovens que não vêm de lugar algum, nem vão para qualquer parte, vivendo o ócio do dia presente sem maiores preocupações.

    Por um lado, a representação livre dos corpos e da sexualidade é bastante louvável. Os atores-personagens estão muito confortáveis em cena, e os diretores conseguem captar o vigor das interações. Por outro lado, os encontros entre os personagens parecem vazios, ensimesmados demais. A simulação de uma agressão homofóbica incomoda pelo teor de brincadeira com que aborda uma questão grave.


    "A voz da minha avó"

    Depois de três curtas-metragens aparentemente rebuscados, porém próximos do discurso retórico e fechado em si mesmo, Travessia, de Safira Moreira, alterou os rumos do segundo programa da mostra competitiva.

    Trata-se de um curta simplíssimo, de pequena duração, no qual a diretora expõe fotos de família e reflete sobre a própria existência dessas imagens - as famílias negras, de renda geralmente mais baixa, têm menos registros impressos devido ao custo que as fotografias representavam antigamente.

    O procedimento é interessante, e mereceria ser desenvolvido com maior pesquisa. De todo modo, o curta alcança suas ambições. Mas diante de tantos projetos ousados em termos de linguagem e representação, o curta soa deslocado dentro do recorte da curadoria.


    O rosto de uma mulher negra da periferia

    Deus, de Vinícius Silva, parte dos versos por Emicida: "Vi Deus, ele era uma mulher preta". O filme acompanha a rotina de Roseli, mulher negra e moradora da periferia, criando o filho pequeno sem a ajuda do pai da criança. O cineasta adota a cartilha da observação, permitindo a visibilidade de figuras anônimas da cidade.

    Talvez este seja o projeto mais bem resolvido entre os cinco curtas exibidos. Ele desenvolve o seu procedimento, acompanha a protagonista em diversas situações e acaba compondo um painel sociológico interessante. É uma pena que não exista um cuidado maior com a fotografia, sempre desbotada, ou com a montagem. Em alguns momentos, os personagens parecem desconfortáveis com a presença da câmera. Mesmo assim, o saldo é positivo.


    Confira as críticas do AdoroCinema sobre os longas-metragens do X Janela:
    120 Batimentos Por Minuto
    A Moça do Calendário
    A Trama
    Açúcar
    Arábia
    As Boas Maneiras
    Baronesa
    Bush Mama
    Contatos Imediatos do Terceiro Grau
    Era Uma Vez Brasília
    Filhas do Pó
    Gabriel e a Montanha
    Garota Negra
    Invisível
    Me Chame Pelo Seu Nome
    O Animal Cordial
    O Nó do Diabo
    Pela Janela
    Verão 1993
    Zama

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