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    Festival do Rio 2017: Alguma Coisa Assim traz à tona debate sobre sexualidade e rótulos (Entrevista Exclusiva)
    Por Vitória Pratini — 14 de out. de 2017 às 20:40
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    Filme estrelado por Caroline Abras e André Antunes é desenvolvido a partir de curta homônimo de 2006.

    Dois personagens. Três momentos. Uma boa dose de representatividade, pluralidade e questionamentos. Este é Alguma Coisa Assim, longa-metragem de 2017, baseado no curta homônimo premiado nos Festivais de Cannes e Gramado em 2006.

    Enquanto o curta Alguma Coisa Assim acompanhava Mari e Caio, um jovem casal de amigos explorando a noite de São Paulo, descobrindo diferentes aspectos de sua sexualidade e do que cada um sentia pelo outro; o longa expande a história dos protagonistas durante três momentos de sua juventude.

    Aproveitando as filmagens da produção original de 2006, de um segundo curta feito em 2013 e de novas imagens produzidas em Berlim em 2016, o filme une esses momentos e perpetua a história desse casal, tocando em assuntos que estão em voga na atualidade e precisam ser discutidos pelo público.

    O AdoroCinema conversou com exclusividade com os atores Caroline AbrasAndré Antunes e com a dupla de diretores Esmir FilhoMariana Bastos sobre Alguma Coisa Assim, que teve sua primeira exibição mundial no Festival do Rio 2017, participa da mostra competitiva e concorre ao Prêmio Félix.

    DE CURTA PARA LONGA

    "Desafio?", assim começou a resposta de Caroline Abras à pergunta sobre os principais problemas e constatações sobre transformar o curta – seu primeiro trabalho nos cinemas – em longa-metragem.

    "Foi um processo orgânico", continuou ela, ecoando a fala dos cineastas Esmir Filho e Mariana Bastos. "Acho que a gente não conseguiu visualizar se seria ou não um desafio, se seria ou não uma dificuldade, ou qual seria a dificuldade. Foi realmente um passo a passo a partir da nossa vontade, dos nossos encontros e do nosso prazer de fazer cinema juntos."

    "A gente queria perpetuar o encontro [dos protagonistas]", completou André Antunes. Esse foi o nosso desafio: tentar manter esse encontro vivo de alguma maneira. E fazer o filme, obviamente."

    Cena gravada em 2013.

    A IDEIA INICIAL

    Caroline, Esmir, Mariana e André se tornaram grandes amigos depois de fazer Alguma Coisa Assim em 2006 e, ao longo de diversas conversas de bar, tiveram a ideia de continuar a história de Mari e Caio, gravando, inclusive, Sete Anos Depois, uma continuação em 2013, que foi exibida em alguns cinemas na época. Mas não era o suficiente, eles queriam finalizar essa história.

    "Se falarmos que, na verdade, tudo isso foi feito simplesmente porque tínhamos muita vontade de nos reencontrarmos e de contar mais coisas sobre a história desses dois personagens, em nenhum momento tínhamos na cabeça que era um desafio", afirmou a co-diretor Mariana Bastos. "Fomos entendendo que era um enorme desafio, mas tínhamos um norte, que era a vontade de ver uma história mais longa e de viver coisas de novo que já tínhamos vivido antes com esses mesmos atores, com esses mesmos personagens, com esse mesmo encontro entre nós."

    Para Caroline e André, a segunda parte da trama aguçou a vontade de finalizar a história dos personagens, mas como curtas têm formatos limitados, surgiu a ideia do longa. Porém, para os atores, o enredo desse casal ainda não chegou ao fim. "Talvez vire uma trilogia mesmo tipo O Senhor dos Anéis", brincou a protagonista, ao que seu colega de elenco completou: "A gente pode perpetualmente pensar 'e agora, aos 35?', e 'e agora, como que as coisas vão acontecer?'. As coisas vão rolando, as questões vão surgindo..."

    Cena de 2016.

    CONECTANDO O PASSADO AO PRESENTE

    A maior dificuldade, para os diretores, que também cuidaram do roteiro, era criar uma nova história a partir do que já havia sido gravado anteriormente. Seria uma espécie de Boyhood - Da Infância À Juventude brasileiro?

    "Nós já tínhamos uma história pregressa que não podíamos apagar, íamos usar trechos do curta pra construir um longa, então tudo estava ligado àquele passado. Tínhamos uma limitação em alguns aspectos, que é, inclusive, para roteirizar por onde vão passar os assuntos, o que tinha acontecido com eles. Não podíamos esquecer nada do que tinha vindo antes", disse Mariana.

    "Mas é legal isso", ponderou Esmir, lembrando que isso mostra um amadurecimento do elenco e equipe. "Ao mesmo tempo que vejo você falando isso, vejo que íamos moldando conforme a vida de personagens que vivem independentemente de nós porque eles têm um passado, uma historia, ela esta registrada e fomos, ao longo dos anos, amadurecendo essa historia também. É quase um exercicio no filme, não só de maturidade dos próprios atores que você vê ali, mas a maturidade de roteiro e direção dos conflitos que fomos criando ao longo de dez anos."

    Mariana ainda lembra que eles utilizaram trechos dos dois curtas que haviam gravado anteriormente. Para isso, olharam novamente o material bruto e montaram um novo roteiro que entrelaçasse as histórias anteriores com a nova, em um complicado processo de desconstrução.

    "O filme é uma coisa que vai pra frente e vai pra trás. Então, fomos criando laços, filmamos e na hora que fomos montar percebemos que não é bem assim. Porque também tem a questão das sensações que cada cena trazia e que às vezes não simplesmente os assuntos precisavam estar interconectados mas a energia das cenas precisavam estar interconectadas."

    Sem contar que, tecnicamente, cada filmagem utilizou uma câmera diferente. As imagens de 2006 foram feitas película, enquanto as de 2013 e 2016 em digital. Para fazer as transições de tempo, eles queriam algo que chamasse a atenção, por isso, inseriram efeitos sonoros de obras e demolições.

    COPRODUÇÃO INTERNACIONAL

    Parcialmente filmado em Berlim, Alguma Coisa Assim teve coprodução alemã. A segunda produção internacional de Esmir Filho, que anteriomente comandou Os Famosos e os Duendes da Morte, uma parceria Brasil-França.

    Esmir e Mariana revelaram que, em breve, vão lançar o filme também na Alemanha. O longa conta com a participação de Clemens Schick, conhecido por atuar em Praia do Futuro007 - Cassino Royale e Circulo de Fogo. Os cineastas exaltaram o profissionalismo e talento do ator, cujas cenas foram gravadas em um só dia.

    Clemens Schick e André Antunes em cena.

    REPRESENTATIVIDADE

    Alguma Coisa Assim retrata importantes e delicadas questões que são comumente debatidas em nossa sociedade, como a sexualidade fluida, um relacionamento sem rótulos, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, e o aborto. O filme não se propõe a levantar bandeiras ou oferecer respostas, mas a suscitar debates – saudáveis – sobre esses assuntos.

    O curta já retratava o personagem de André Antunes, Caio, explorando sua sexualidade. O longa expande essa e outras questões. Mas, para os atores e cineastas, qual é a diferença de falar sobre representatividade em 2006 e em 2017, especialmente em um Brasil ainda conservador?

    "Falo a partir da minha percepção relacionada à identidade que o filme gera com as pessoas", comparou Caroline. "O curta, inicialmente, talvez tenha incomodado e hoje ele é aceito. Ele gera identidade e isso para mim é o melhor termômetro de que a gente caminhou, evoluiu, percorreu na direção da evolução, sabe?"

    Já André comenta sobre a situação no Brasil. "Por conta de idade dos personagens da história, falando sobre aceitação, tenho essa sensação de progresso, mas é progresso e retrocesso ao mesmo tempo. Parece que estamos vivendo tempos mais sombrios do que há dez anos talvez. Até em relação à sexualidade, embora muitas coisas sejam aceitas, vivemos outro tipo de crise", afirmou ele, comentando também que passou a perceber melhor Alguma Coisa Assim depois de conversar com os espectadores

    "Não sabemos o que é o filme antes de falar e conversar com o público. Uma pessoa falou uma coisa muito bacana [em um dos debates], que agora a problemática não é só da aceitação, que a gente está desconstruindo o modelo de relacionamento, o hetero normativo, o casamento, acho que esses ideais foram meio que caindo por terra e, ao mesmo tempo agora, a gente não sabe muito bem o que fazer com esses pedaços que sobraram dessa destruição, digamos assim, do relacionamento modelo. É um outro tipo de impasse. Então acho que são questões que vão se complexificando de uma certa maneira."

    REFLEXO DO BRASIL

    Esmir lembra que a produção também retratou os acontecimentos do momento, mostrando uma São Paulo que já não existe mais. Como em 2006 a Rua Augusta tomada por bares, pessoas e outdoors. Já, em 2013, com a presença mais forte da polícia na cidade, via-se as ruas mais vazias e prédios tomando o local da vida boêmia, e a aprovação do casamento gay.

    O longa-metragem ainda aborda o aborto por outra ótica. Como parte do filme se passa em Berlim, os diretores resolveram mostrar ao público brasileiro como um país dito "mais conservador" trata essa questão.

    "Nunca pensamos em fazer um filme sobre [aborto]", revelou Esmir. "Estamos falando sobre o tempo e relação desses dois personagens e fomos descobrindo essas coisas [na nossa pesquisa]." O diretor comentou que, inclusive, ele e Mariana fingiram ir a uma consulta médica para saber como o aborto, que é legalizado na Alemanha, é retratado. E, surpresos com a explicação da médica, pediram que ela participasse do filme.

    "[Nossa pesquisa] foi adicionando elementos que poderiam ser muito ricos para discussões atuais, mas o norte sempre foi o conflito dos personagens", completou Mariana. "Quando percebemos que podíamos nos apropriar dessas questões para justamente enriquecer o filme nesse sentido, fez com que ele se tornasse também relevante por outros aspectos, que não fosse só pela historia daqueles dois. Mas também que falasse sobre coisas que sçao importantes de serem discutidas principalmente hoje, que estamos num momento extremamente conservador no Brasil."

    Caroline voltou a explicar que o filme não levanta bandeiras, mas incita reflexões. "Acho que se a sexualidade e o aborto fossem pauta na educação do Brasil, elas deixariam de ser tabu. Para nós é muito claro, mas acho que nossa função como artistas é realmente propor reflexões, nunca fechar ideias e nem colocar verdades, porque as verdades são impostas o tempo todo socialmente. E a nossa brincadeira é outra. É realmente provocar a reflexão. Nesse filme, fomos descobrindo aos poucos temas que estavam em pauta no momento, e foi isso, foi um desencadear de ideias."

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