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Death Note: As diferenças e similaridades entre o anime e o filme da Netflix
Por João Vitor Figueira — 26/08/2017 às 10:00
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Longa-metragem com atores toma muitas liberdades em relação ao material original, para o mal e para o bem. Atenção: Esta matéria contém detalhes sobre o enredo do filme e da série animada.

A Netflix assumiu para si um risco e tanto ao adaptar Death Note em um filme com atores produzido nos Estados Unidos. Para começo de conversa, operações desse tipo costumam ser complicadas porque seu apelo reside, em boa parte, na confiança de que os fãs da obra original vão comprar a ideia do projeto e ao menos dar uma chance para a novidade. Em casos assim, o time criativo por trás da adaptação terá de se deparar com um dilema: Investir na fidelidade ao cânone ou apostar na subversão radical do material?

Death Note, filme que estreou no serviço de streaming na última sexta-feira (25), tenta conciliar a fidelidade à premissa com o desafio de trazer algo novo para a consagrada história original — entre muitos tropeços e alguns acertos. O filme é baseado no mangá escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata. Os capítulos foram públicados em 12 volumes entre 2003 e 2006. A popularidade da obra rendeu um anime de 37 episódios dirigido por Tetsurō Araki e exibido na televisão japonesa entre 2006 e 2007, que amplificaram ainda mais o fenômeno. Os mangás de Death Note venderam mais de 30 milhões de cópias no mundo inteiro, o anime foi transmitido em dezenas de países dos quatro cantos da Terra e serviu como base para video games, light novels, doramas e diversos filmes live action produzidos no Japão. Falar sobre Death Note é falar de uma propriedade que é venerada por sua base de fãs.

A Netflix investiu na adaptação do clássico mangá depois que a Warner Bros. desistiu do projeto — o estúdio chegou a chamar Gus Van Sant e Shane Black para o cargo de diretor. Possivelmente impulsionado pela audiência do anime (que faz parte do catálogo da companhia), o projeto recebeu o sinal verde de Ted Sarandos, diretor de conteúdo da empresa. O diretor Adam Wingard, com experiência no cinema de terror (Você é o Próximo, V/H/S) e suspense (O Hóspede), é o responsável pela direção.

Nat Wolff como Light Turner.

O filme é lançado em um momento em que se debate a representatividade de minorias em Hollywood e milita-se, dentro e fora do showbusiness, para discutir como estereótipos foram perpetuados e grupos foram marginalizados ou invisibilizados pela indústria do entretenimento no país. Lançado neste ano, O sci-fi A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell, também baseado em um mangá e anime, foi alvo de críticas por escalar Scarlett Johansson, uma atriz branca, para o papel principal — e a controvérsia rendeu consequências no desempenho do filme com crítica e público, segundo avaliação da Paramount. Como imaginado, a polêmica sobre embranquecimento também atingiu Death Note.

Os 10 melhores personagens de Death Note

Nat Wolff, de A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel, encarna Light Turner, nome ocidental para o personagem originalmente chamado Light Yagami (ou Yagami Raito, no Japão). Ele é um estudante do ensino médio que se depara com um caderno sobrenatural que literalmente caiu do céu. Ao folhear as páginas, o jovem se depara com uma série de instruções e descobre que basta escrever o nome de alguém ali que essa pessoa irá morrer. Para isso, é necessário apenas mentalizar o rosto da vítima para não matar um homônimo de quem se deseja ver à sete palmos da Terra. Com esse poder em mãos, o rapaz passa a matar quem ele acredita ser indigno de viver. Após assumir a alcunha de Kira, Light passa a ser investigado por um estranho e misterioso detetive de fama internacional chamado L, interpretado no filme live-action por Lakeith Stanfield, de Corra! e War Machine.

Em seu ponto de partida, o enredo do filme de Wingard é igual ao do anime no que se refere ao caderno e seus poderes, mas são muitas as diferenças entre as duas produções. Vamos compará-las abaixo.

Ambientação

Vamos começar com a diferença mais latente. A trama do filme atravessa o Pacífico: A história original é ambientada em Tóquio com personagens japoneses enquanto o recente live action se passa na cidade de Seatle, em Washington, e traz personagens americanos. Segundo Wingard, ao mudar o endereço da trama, sua intenção foi fazer "um filme sobre os Estados Unidos" que não é "apenas uma caso de copiar e colar".

Não demorou muito até a controvérsia sobre embranquecimento atingir o longa-metragem. Bastou Wolff ser escalado para o papel que o debate começou. Entretanto, essa escolha de elenco não tem um paralelo simétrico com os casos claros de embranquecimento vistos em filmes como Doutor Estranho (com Tilda Swinton no papel de um personagem originalmente asiático), Êxodo: Deuses e Reis (com um elenco principal formado apenas por atores brancos em uma história que se passa no Egito) e Peter Pan (com Rooney Mara como Tigrinha, uma personagem de origem indígena). O novo filme transpõe a história de seu contexto original, de forma semelhante ao que Os Infiltrados fez ao refilmar o suspense Conflitos Internos, produzido em Hong Kong.

Tatsuya Fujiwara como Light Yagami em Desu nôto (2006), adaptação japonesa do mangá para os cinemas.
Entretanto, é fato que a controvérsia poderia ter sido evitada pela Netflix com a escalação de um ator asiático ou asiático-americano para o papel principal. Masi Oka, ator nipo-americano que atuou em Heroes e Hawaii Five-0, é um dos produtores do filme da Netflix e se viu em maus lençóis ao afirmar que a equipe do filme tentou escalar um asiático para viver Light, mas não encontrou ninguém que "falasse inglês corretamente". Depois da repercussão negativa da fala, Oka explicou que estava se referindo a atores estrangeiros que não residiam nos Estados Unidos e não tinham o inglês como língua materna.

Oka também disse que a versão americana de Death Note recebeu a bênção dos criadores da saga. "O melhor momento para mim foi viajar para o Japão e mostrar o filme para os senseis", comentou o produtor durante o painel do filme na San Diego Comic-Con deste ano, onde o longa foi exibido pela primeira vez e teve uma recepção morna do público. "Nós tivemos uma sessão secreta para os senseis e no final os senseis me disseram, 'Obrigado. Nós amamos o filme'. Isso trouxe uma lágrima para o meu olho."

Não é, por si só, errado levar a história de Death Note para os Estados Unidos. Entretanto, isso não é feito de uma forma suficientemente boa para justificar a alteração. Os valores da trama são transpostos para os EUA sem explorar profundamente as diferenças culturais entre os dois países. Quando Light Turner se denomina Kira, o personagem chega a dizer que a alcunha vem da palavra "luz" em russo e celta e só depois menciona que Kira também "meio que significa 'assassino' em japonês".

Lakeith Stanfield como L.

Wingard disse em entrevista que Death Note iria refletir "a América nos dias de hoje", mas poucas coisas são realizadas neste sentido. Quando a ascensão de Kira é noticiada na imprensa mundial, a montagem do filme insere os comentários de um conspiracionista claramente inspirado no articulador de extrema direita Alex Jones, que apoiou a campanha de Donald Trump à Casa Branca. Há outro momento, em que L é enquadrado de forma imponente com a bandeira dos Estados Unidos ao fundo. A cena é construída para o personagem proferir um discurso para a imprensa e mostrar que não está intimidado pelos atos de Kira, como se sua luta contra o vigilante representasse uma afronta aos valores do país. Há uma certa ironia nessa mensagem. No episódio final do anime, Light é desmascarado e derrotado. Na ocasião, Near, jovem investigador que sucede L, classifica o caderno sobrenatural como a pior arma de destruição em massa da História. É possível usar a fala de Near para traçar um paralelo entre o poder do caderno e os traumas para a comunidade japonesa com os bombardeios em Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial, ataque proferido justamente pelos Estados Unidos.

Um artigo do site Book Riot ainda considerou que Light, no anime, é movido a fazer justiça com as próprias mãos por conta de seu ressentimento com o sistema penal japonês, que costuma condenar a maior parte de seus réus e dificilmente condena alguém que anos depois consegue provar sua inocência. O artigo cita estudos que levantam a tese de que promotores de justiça no japão processam com mais frequência criminosos responsáveis por crimes mais cruéis ou grosseiros, casos em que é mais fácil provar a culpa dos acusados. Diante de um cenário assim, é fácil imaginar a origem da revolta de um personagem como Light no anime.

Aparando as arestas

O anime tem 37 episódios de 22 minutos. São mais de 13 horas de conteúdo. É claro que uma adaptação para os cinemas deixaria muita coisa de fora. O filme da Netflix tem 100 minutos de duração e o roteiro de
Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater deixa de fora boa parte dos personagens secundários do anime, como os prodígios Near e Mello, e os policiais da Força Tarefa Japonesa que investigam o caso de Kira, inclusive os carismáticos Shuichi Aizawa e Touta Matsuda, que são alguns dos melhores personagens da série animada.

O filme também não mostra nada na dimensão paralela que é o mundo dos shinigamis, deuses da morte que são os detentores originais do Death Note. Também corta uma série de subtramas do anime, como o arco de conspiração empresarial envolvendo a companhia Yotsuba, que marca um dos pontos mais desinteressantes da série, e o sensacionalismo da cobertura inescrupulosa da TV Sakura. 

Desenvolvimento dos personagens

Foi na Comic-Con que a Netflix soltou a primeira cena de Death Note na internet. Já naquele vídeo era possível notar uma mudança clara na personalidade de Light em relação aos modos do protagonista no anime. O trecho em questão mostrava o primeiro encontro de Light com Ryuk, que se dá na escola do adolescente, quando ele está na detenção. Ao ver a criatura de feições demoníacas, Light Turner grita e se desespera. Neste instante, a atuação de Wolff é tão histriônica que gera um humor não intencional ali.

Comparação.

Depois do primeiro contato, Ryuk instrui Light incita o adolescente a matar sua primeira vítima, um valentão do colégio que estava praticando bullying com outra pessoa. No anime, o primeiro contato dos dois se dá no quarto de Light. Apesar de tomar um breve susto, Yagami logo diz que esperava a criatura e daí em diante mostra não ter mais medo dele. Há momentos na série em que há a impressão de que os dois tem uma relação de confiança, o que não acontece no filme.

A caracterização de Wolff como Light diz muito sobre como o personagem é apresentado em sua versão ocidental. Seu cabelo loiro tingido e sua franja tornam o personagem perfeitamente adequado à vaga de integrante de uma banda emo da metade dos anos 2000, por coincidência ou não, época em que o anime foi lançado. Ele sofre com chacotas na escola e não aparenta ter as mesmas habilidades sociais que Yagami, criado pelo ilustrador do mangá para ser um personagem de aparência atraente.

Desajustado, Turner não é dotado da mesma prepotência que Yagami mostra já no primeiro episódio de Death Note. A motivação do Light americano para usar o caderno é sua frustração com o fato de que o homem que matou sua mãe em um acidente é influente o suficiente para não responder criminalmente pelo caso. Ele parte de um caso estritamente pessoal, não de uma epifania sobre justiça para começar a matar. No anime, Light vive em casa com sua mãe, Sachiko Yagami, e sua irmã mais nova, Sayu Yagami. Turner também mostra mais suas vulnerabilidades e hesita diversas vezes, sentindo o peso de suas ações e refletindo sobre elas. O mesmo não acontece com Light Yagami, que age de forma mais resoluta e sem remorsos, além de demonstrar ser um gênio do pensamento lógico que não se influencia por emoções mundanas.

A melhor mudança de perfil de personagem foi a que os roteiristas do filme fizeram com Misa Amane, transformada em Mia Sutton no live action. Interpretada por Margaret Qualley, de Dois Caras Legais, a principal figura feminina de Death Note ganhou uma versão que escapa do prisma totalmente sexista sob o qual ela é vista no anime. Dessa vez ela é uma pessoa com vontades próprias, que toma iniciativas, e que, principalmente, não é hipersexualizada como na animação. Um exemplo dessa nova personalidade em Mia é um diálogo entre ela e Light no qual ele diz "Você não precisa ajudar" e ela responde, determinada, "Claro que eu preciso!". Na série, o relacionamento dos dois é mais uma escada que Yagami usa para alcançar seus objetivos, manipulando Misa como uma marionete. Já a ligação de Turner e Mia é sentimental, por mais que também tenha contornos doentios.

Margaret Qualley (centro) como Mia Sutton.

O L interpretado por Stanfield incorpora os tradicionais trejeitos do sorumbático personagem do anime, incluindo a forma peculiar de se portar, a postura incomum durante interações sociais e o olhar vago e expressivo. Apesar de ser bastante frio e calculista, como no anime, o L do filme é bem menos cerebral e mais emotivo.

"Provavelmente o único personagem que está no filme da mesma forma que está no anime é o Ryuk", comentou Wingard em entrevista antes da estreia do longa, mas as coisas não são bem assim. Com a voz de Willem Dafoe, de longe a escolha de casting mais acertada do filme da Netflix, Ryuk é mais ameaçador no longa-metragem do que no anime, incentiva Light a matar (na série ele age de forma neutra) e chega até a ameaçar Light em determinado momento. Não fica explícito no filme que ele veio para a Terra depois de uma crise no mundo dos shinigamis.

O personagem mais parecido na série animada e no longa-metragem é mesmo James Turner, versão americana de Souichiro Yagami, pai de Light, interpretado por Shea Whigham

Regras, regras e mais regras...

O caderno sobrenatural que instiga toda a trama do filme existe com um propósito. Um shinigami usa o artefato para escrever o nome de um humano ali e acabar com uma vida, incorporando em sua própria existência os anos que foram abreviados de suas vítimas. No mundo dos humanos, o caderno chega com uma série de regras. No anime, dezenas dessas regras foram apresentadas durante os episódios e até em cartelas durante os intervalos comerciais. Para os menos fanáticos, é complicado entender todas elas. As cinco mais importantes são: 

  1. O humano que tiver seu nome escrito no Death Note morrerá;
  2. A escrita do nome não terá efeito se o escritor não tiver em mente o rosto da vítima. Assim, pessoas que compartilham o mesmo nome não serão afetadas;
  3. Se a causa da morte for escrita dentro dos próximos 40 segundos após o nome ser escrito, assim acontecerá, desde que a causa não seja impossível;
  4. Se a causa da morte não for especificada, a vítima morrerá de ataque cardíaco;
  5. Após especificar a causa da morte, detalhes dessa podem ser escritos nos 6 minutos e 40 segundos seguintes.

No filme, o roteiro insere um breve momento de autoconsciência no qual Turner se mostra um pouco perdido diante de tantas regras e revela que é complicado acompanhar todas elas. Um alívio para que viu o anime e também se sentiu assim. Além disso, para  clímax do filme, os roteiristas criaram uma regra nova que envolve a anulação de uma ação escrita no caderno caso a folha seja arrancada e queimada. Há uma regra do mangá que não se repete no longa-metragem. "Mesmo não sendo o proprietário do Death Note, qualquer humano que o toque poderá ver e ouvir o shinigami que é seu dono original", diz a regra nº12. Entretanto, Mia e outros personagens chegam a tocar no caderno, mas nunca conseguem ver Ryuk.

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