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    Martírio: "A Dilma foi péssima com os índios e este governo é muito pior", afirma o diretor Vincent Carelli (Entrevista exclusiva)
    Por Francisco Russo, com a colaboração de Andressa Araújo — 14/04/2017 às 10:23
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    Premiado no Festival de Brasília, documentário está em cartaz nos cinemas.

    Exibido em primeira mão no Festival de Brasília 2016 - o AdoroCinema estava lá! -, o documentário Martírio provocou uma verdadeira comoção devido ao retrato detalhado e contundente acerca da luta da tribo guarani-kaiowá contra fazendeiros e o próprio governo federal. O motivo de tamanha disputa? As terras onde habitavam, desde sempre.

    "São duas concepções de mundo que estão se enfrentando", afirma o diretor Vincent Carelli. "São duas civilizações, duas culturas que não conseguem dialogar, evidentemente, e que são baseadas em princípios quase antagônicos", resume.

    Sete meses depois, Martírio chega ao circuito comercial referendado por diversas sessões em festivais, onde foi ovacionado. Confira os principais destaques da nossa conversa com Vincent Carelli.


    DE 1981 AOS DIAS ATUAIS

    Bastante ligado à comunidade dos guarani-kaiowá, Vincent Carelli iniciou suas gravações mais de três décadas atrás. Na época, não havia ainda a certeza de que o material renderia um documentário, algo que apenas se materializou a partir do retorno às filmagens, em 2011.

    "Quando resolvi retomar este projeto, foi a oportunidade de descobrir justamente aquilo que mostro. O projeto do estado brasileiro é diminuir a população indígena na população nacional. Já quando comecei a filmar, tinha a consciência disso. Então, tinha o material - justamente de 1981 - que era precioso para quem pintou este quadro e que, na atualidade, o filme é guerra, conflito. Mas era a oportunidade de se aprofundar um pouco nos aspectos culturais, religiosos dos índios, para que o público possa entender a situação."

    "Para os índios, o criador fez a terra para todos, não se pode apropriar dela. A terra, no conceito deles, é do criador. Dor outro lado você tem a propriedade privada, o capital. Então, são duas civilizações que se chocam nesse conflito e eu precisava dar esta dimensão, essa cultura do universo indígena. Daí você entende o que os move, quais crenças, com base em quais convicções eles reclamam a reparação."

    Diante de tal proposta, a saída foi dividir a narrativa em capítulos e inserir diversas informações históricas, de forma a melhor ambientar o espectador. "Eu tive um longo processo de construção: pesquisa, vai montando, vai redigindo, rasgando e reescrevendo, conforme vai mexendo na montagem. [..] Dentro dos vários casos que a gente documentou, escolhemos aqueles que nos permitiam um gancho com um momento específico da história do Brasil. Então, para ajudar na integração dessas narrativas em vários tempos, a gente quebrou a cabeça ao longo de três anos."


    CINEMA NA MARRA

    Consciente da urgência do tema retratado, Vincent Carelli deixou de lado toda a burocracia existente para obter verbas públicas através de editais. Apenas na finalização, recorreu a este expediente.

    "Questão de financiamento, não havia nem tempo. Não ia ficar esperando dois anos para entrar no edital. Eu recorri em algum momento ao Alcatraz, um financiamento coletivo, para terminar as filmagens. Lá em Pernambuco a gente teve uma certa sorte, porque o estado está investindo em cinema, então conseguimos um financiamento para finalizar. Mas a gente faz na marra. Coisa que precisa ser feita, ninguém vai estar esperando."


    QUESTÃO APARTIDÁRIA

    Em uma época de politização e polarização tão intensas, Martírio não busca defender determinado grupo político. A bandeira do documentário é a defesa da tribo guarani-kaiowá, independente do partido que esteja no poder.

    "A questão indígena é pra lá de partidária. A Dilma foi péssima com os índios e esse governo é muito pior. Não posso contaminar a disputa que está em jogo agora nessa questão. Tanto um quanto outro foram péssimos para a questão indígena. Trata-se de um assunto do Estado brasileiro colonial em relação aos índios, seja de esquerda ou de direita", afirma o diretor.

    "O que tentei demonstrar no filme é que, no último instante, o grande responsável por essa confusão é o Estado, que delimitou a região. Então, acho que o nó só se desfaz no dia em que o Brasil reconhecer a responsabilidade do Estado, e aí as instituições judiciais tomarem um outro rumo. Alguns países já fizeram este reconhecimento, como Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Sem isso, a gente não avança!"



    EM BUSCA DE VISIBILIDADE

    Agora nos cinemas, o diretor acredita que a questão guarani-kaiowá possa ganhar mais força. Mas não se ilude: não é apenas dentro de uma sala de cinema que o filme atingirá seu objetivo. "A gente quando faz cinema, não pode ficar pensando só em sala de cinema. É claro que é importante, espero que a gente possa trazer para o cinema algum desprevenido, desavisado, que vai descobrir o mundo. Mas é um filme que está tendo uma grande demanda nos ambientes populares. Muitos professores de história estão pedindo o filme, e toda a produção do filme nas aldeias têm uma capilaridade de distribuição que não é através da sala do cinema."

    "Martírio passou muito no ano passado nas ocupações de universidades, de colégio. Então, acho que ele terá um espectro de função muito além da sala de cinema, por mais que, para este filme, ela seja muito especial. A sala escura faz do filme um evento que mexe com as pessoas, as questiona e comove. Então estou muito feliz de lançar este filme no cinema. É realmente um espaço privilegiado para dizer a experiência que é Martírio."


    COMOÇÃO NO CINEMA

    No Festival de Brasília, Martírio foi aplaudido de pé pelo público presente após a sessão. Situação bastante parecida aconteceu tanto na Semana dos Realizadores, no Rio de Janeiro, quanto na Mostra Tiradentes. Vincent Carelli falou sobre o impacto emocional que seu documentário tem provocado junto ao público: "Estou muito feliz com o resultado, pela sensibilização, pelo entendimento que o filme traz para a questão. A gente ganhou vários prêmios do público. Para o cineasta, nada melhor e mais gratificante do que o prêmio do júri popular. O esforço foi grande, mas está valendo a pena."



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