Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Festival de Berlim 2017: As Duas Irenes aborda o amadurecimento numa cidade perdida no tempo, diz o diretor Fábio Meira
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Ana Beatriz Lavagnino — 23 de fev. de 2017 às 14:55
    facebook Tweet

    Conversamos com o cineasta sobre o belo drama brasileiro estrelado por duas atrizes iniciantes.

    Durante o festival de Berlim, o diretor Fábio Meira apresentou o seu primeiro longa-metragem: As Duas Irenes, drama sobre uma pré-adolescente (Priscila Bittencourt) que descobre a segunda família de seu pai, em outra cidade. Além de uma nova esposa, o pai (Marco Ricca) também tem uma segunda filha, da mesma idade, igualmente batizada Irene (Isabela Torres).

    O AdoroCinema já viu o filme, e gostou bastante do resultado delicado e bem construído, apesar de não se aprofundar na psicologia da trama. Aproveitamos para conversar com o cineasta sobre o projeto:

    Este é um filme de conflitos universais, mas parece que a história só poderia se passar numa cidadezinha do interior.

    Fábio Meira: Para mim o mais importante era que fosse atemporal. A gente não sabe se o filme é de época ou se aquela cidadezinha está perdida no tempo. Se eu marcasse o filme nos anos 1960 ou nos anos 1980, eu perderia o público de agora também, que poderia se identificar com meninas atuais.

    Para mim tem uma coisa importante: quem não conhece Goiás velha não entende que aquilo é Goiás, porque a gente não caracteriza nenhum dos pontos turísticos. O importante é que seja a América Latina. Quem conhece português, sabe que eles estão no Brasil. Mas, por exemplo, para um finlandês que não souber distinguir os idiomas, gostaria que ele entendesse que é América Latina, em nenhum país específico. O importante era isso, que fosse uma história latina.

    Como escolheu as duas Irenes do filme?

    Fábio Meira: Foi um processo longo. Fizemos teste com mais de 200 meninas até chegarmos na Priscila e na Isabela. Só que as personagens têm as personalidades opostas das atrizes. Então ali realmente se percebe o trabalho de atuação delas. Até porque o físico era ideal. A Priscila, por exemplo, tinha o cabelo loiro e até a cintura, então a gente cortou e pintou, porque ela era uma Irene tímida, filha do meio e não poderia ter um cabelo exuberante. A Isabela é tímida, mas não tem o físico de uma pessoa tímida. Ela uma expressão muito forte. Primeiro a gente encontrou duas meninas que fossem boas atrizes, e a partir disso moldamos cada uma para que se parecessem com os personagens.  

    Após a sessão, os jornalistas estavam discutindo o componente freudiano da descoberta do duplo e da disputa de ambas pela atenção do pai.

    Fábio Meira: O roteiro tem algo muito psicanalítico. Segundo Freud, a menina só desenvolve a sexualidade quando sente que pode ser desejada pelo pai. O pai autoriza a menina a ser uma mulher; tem uma cena no filme que trata especificamente disso.

    Sobre os espelhamentos a partir da descoberta uma da outra, o mais importante é o fato de Irene descobrir uma menina com a mesma idade dela, o mesmo nome e o mesmo pai. Ou seja, elas poderiam ser muito parecidas. Aí vem Freud mais uma vez, na questão do filho do meio. Ainda mais que a segunda filha é do mesmo sexo. Então é um lugar meio ingrato de ser a filha do meio. Ela se sente bastarda, enquanto na verdade a bastarda é a outra, que se sente legítima, muito segura de si. A mãe passa essa liberdade para ela. 

    Na história, as salas de cinema ocupam um papel social importante para os adolescentes, como espaço de paquera.

    Fábio Meira: A questão do cinema é engraçada, porque eu queria que parecesse uma cidade de deserto, seca, com um sol forte. Elas têm dois oásis ao longo do filme: a cachoeira, onde vão sozinhas, e o cinema. Por mais que não tenha água nem nada, ali é um oásis. É escuro, elas sozinhas e só tem gente jovem com quem podem viver coisas que não viveriam à luz do dia. Essa era a ideia: estou num lugar onde eu faço coisas que não faria na frente de outros adultos.

    Não era importante qual filme passaria, a gente misturou pedaços de várias obras. O filme exibido dentro daquela sala é uma imagem qualquer selecionada num banco de imagens. É claro que escolhemos um certo clima e certos sons para o filme, mas o importante era o que ia acontecer ali com elas.

    O filme não julga a atitude do pai, que mantém duas famílias.

    Fábio Meira: O maquiador do filme costumava me dizer que não tinha nada errado com o Tonico. O único problema era de geografia, porque ele tinha nascido no lugar errado. Se fosse em outro país, ele poderia ter duas famílias normalmente, entendeu? Mas se a gente julgasse diretamente o personagem, a história perderia a complexidade.

    De alguma maneira ele tem um julgamento, o próprio final conduz a uma certa decisão que as meninas tomam… É importante para Irene se sentir amada pelo pai, mesmo que a princípio esteja fazendo mal às duas famílias. O mais importante para mim era que elas sentissem esse conflito, sem que o espectador julgasse. 

    O cinema brasileiro tem produzido poucos filmes infantojuvenis, ainda mais dentro da produção autoral. Como você vê o papel de As Duas Irenes na cinematografia nacional, e na mostra Geração da Berlinale?

    Fábio Meira: Sendo bem sincero, eu jamais imaginei que o filme fosse atingir esse público, até pelo próprio estilo do filme. A narrativa deixa muitas perguntas em aberto e tem algo complexo sobre o amadurecimento das duas. Mas fiquei encantado com o fato de ser exibido para o público a partir de 12 anos [no festival de Berlim]. Depois da sessão, ficamos dando autógrafos e vimos que eles estavam muito interessados. Por mais que o público ideal seja mais adulto, acho maravilhoso poder dialogar com o público mais jovem também.

    Pela primeira vez, Berlim exibiu doze filmes nacionais, incluindo um filme em competição.

    Fábio Meira: É a comprovação de que temos andado no caminho certo. Eu demorei oito anos para fazer o filme, e nasci em Goiás, que é um lugar de cinematografia minúscula. Só consegui fazer o filme, por mais que eu tenha levado tanto tempo, porque existem leis de incentivo ao audiovisual. Então me preocupa essa questão das trocas de diretores. Espero que sigam a política que existente até então, porque esses filmes todos aqui são resultado deste processo. Essas políticas são importantes e devem ser mantidas, independente do que está acontecendo no país.

    Divulgação
    As atrizes durante o Festival de Berlim

    facebook Tweet
    Pela web
    Comentários
    Mostrar comentários
    Back to Top