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    Festival de Berlim 2017: O brasileiro Pendular é um filme sobre "duas pessoas que se amam, mas não se conhecem", diz a diretora Júlia Murat
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Andressa Araújo — 21/02/2017 às 17:05
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    Conversamos com a cineasta, o roteirista Matias Mariani e os atores principais, Raquel Karro e Rodrigo Bolzan.

    Depois do premiado Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011), a diretora Júlia Murat apresentou no festival de Berlim o seu novo trabalho como diretora: Pendular, drama sobre um casal de artistas que mora no ateliê onde trabalha, um galpão gigantesco em que os conflitos entre os dois vêm à tona.

    O filme é muito bom - leia a nossa crítica - e venceu o prêmio da crítica na Mostra Panorama em Berlim. Nós aproveitamos para conversar com a diretora, o roteirista Matias Mariani e os atores principais, Raquel Karro e Rodrigo Bolzan: 


    Pendular mostra o artista como profissional, longe da versão romantizada do marginal ou sofredor.

    JULIA MURAT: A gente trabalha demais. A gente está ali ralando loucamente para produzir no final alguma coisa e justamente essa visão romântica é algo que sempre nos incomodou, de achar que o trabalho do artista é algo, primeiro, a ser necessariamente louvado e, segundo, algo que viria de uma inspiração, facilmente, porque somos deuses. A gente está ali trabalhando assim como um economista, um advogado, como um médico... Mas o resultado é diferente.

    MATIAS MARIANI: A gente fez uma pesquisa sobre filmes que representavam trabalho do artista, e ficamos muito decepcionados por isso: não tinha nenhum que representasse o dia a dia e não a inspiração divina. A culpa dessa representação é nossa mesmo, não do público. Quando o artista é representado nos filmes, os diretores, os roteiristas e atores decidem interpretar desse jeito. É uma representação errada que justamente leva à percepção de que arte não é um trabalho de verdade.

    A diretora Júlia Murat

    O filme faz uma construção complexa dos personagens, mas não explica tudo ao público. Várias interpretações são possíveis sobre o passado deles.

    RODRIGO BOLZAN: Parte dessas coisas estavam no filme e no roteiro, e caíram depois, por exemplo. Então, de alguma maneira, isso está na nossa construção, porque tivemos que passar por isso para dar voz a esses diálogos em algum momento. A construção passa por relacionar todas essas possibilidades de passado com algo possível para gente, e se colocar em situação. Não gosto muito da ideia de "construção de personagem", a não ser me relacionar com essas possibilidades, de que agora eu faço obras gigantescas, pesadas, sem nunca ter pensado em fazer. É um faz de conta, um jogo infantil.

    JULIA MURAT: A gente mostrou o filme aos amigos diversas vezes ao longo do processo. A primeira montagem do filme tinha três horas e meia, o primeiro corte estruturado tinha duas horas e quarenta. Em algum momento desses a gente mostrou para o Eduardo Valente, uma pessoa muito importante politicamente e também na minha vida pessoal. Ele falou: “Quando fiz No Meu Lugar, criamos o background dos atores, e aquilo tudo me parecia lindo, porque ia dar uma densidade ao filme, mas objetivamente não precisava estar lá". Era como se ele me dissesse: "Tira isso aí. Foi importante para vocês no processo, mas não precisar estar na versão final”. Foi um processo de entendimento sobre o que precisava se completar no sentido dramatúrgico, que tivesse início, meio e final claros, com uma lógica interna, mas sem explicar demais.

    O espectador consegue ver que os protagonistas nunca estão vazios em cena.

    RAQUEL KARRO: De alguma maneira, isso também permite um frescor, uma tensão, que são importantes para a Julia, para o casal, o fato de a gente não ter construído todo o passado. Isso gera uma fricção no ar, como se a gente se perguntasse “Para onde se vai?” ou “Até onde isso vai chegar?”, mesmo conhecendo o início e o fim de cada cena.

    JULIA MURAT: O filme era sobre isso, duas pessoas que se amam, mas não se conhecem. Eles não sabem exatamente tudo sobre o outro. Esse não-conhecimento era necessário.

    Quais foram as vantagens e os desafios de trabalhar em um espaço único?

    JULIA MURAT: O lugar era totalmente detonado, estava há trinta anos caindo poeira nele. Era muito sujo, quente e barulhento por estar do lado da Cadeg. Era um tanto insalubre. Então a dificuldade foi construir uma “casa” dentro de um espaço de insalubridade. Mas esse caráter insalubre, em algum lugar, faz parte do filme.

    RAQUEL KARRO: Chegar lá ajudava bastante para aquecer. Você entra naquele lugar e vê todas as dificuldades, o espaço trazia todas as sensações para a gente acessar.

    JULIA MURAT: Ao mesmo tempo, existe uma vantagem de produção enorme, por estar em um único espaço e não ter não que lidar com mudanças, idas e vindas. A gente pôde se concentrar ao longo do processo porque estava em um único ambiente, não tinha que trocar luz o tempo todo, era apenas um trabalho já montado que a gente ia modificando. O ateliê ficava grande, as esculturas iam chegando – eram 10 toneladas de esculturas -, tinha uma complexidade concentrada.

    RODRIGO BOLZAN: A relação da equipe e dos personagens no tempo da ficção aconteceu na vida real. O tempo da filmagem era o tempo do filme.

    MATIAS MARIANI: É uma raridade conseguir filmar na ordem em que eles filmaram, isso permite construir personagens de modo muito mais orgânico.

    É curioso falar em desgaste, porque o filme aborda o relacionamento de maneira pesada, mas o final permite um respiro. Talvez seja uma conclusão otimista.

    JULIA MURAT: Eu não sei se é otimista, mas é um respiro. Realmente não sei o que acontece a partir da cena final e não sei se é otimista, mas é no mínimo um fôlego.

    MATIAS MARIANI: Para a Ju sempre foi muito importante quando eu estava escrevendo essa ideia de que haveria uma dúvida depois. A gente não queria concluir a história dos dois, precisava ter um momento de pausa, de reflexão, de considerações sobre o futuro, e não de definições.

    JULIA MURAT: De certo modo, a origem do filme é a ideia da relação cíclica do relacionamento amoroso. Como você fica tem a impressão de estar no mesmo lugar, mas este lugar muda. Não tem necessariamente um fim e início. Você vai andando e tentando lidar com aquilo.

    O corpo é filmado de modo bruto em Pendular, assim como as esculturas.

    MATIAS MARIANI: Sem dúvida, tinha o desejo de botar as duas obras, com as suas respectivas materialidades, na mesma importância. Uma tem um peso, um esforço de levantar; o corpo tem necessariamente uma leveza, por mais que vá se chocar contra a parede, mas tem uma questão de movimento que está em outro grau. Existia o desejo de entender as duas coisas como matérias corpóreas, abertas para a gente trabalhar.

    MATIAS MARIANI: O sexo do filme segue essa lógica, é muito bonito. A montagem desenha três cenas de sexo. Tem a primeira cena, que não é de sexo, mas é a imagem das pintas na pele. Ela começa com uma coisa muito delicada e de repente se torna brutal.

    JULIA MURAT: A gente tinha o desejo de trabalhar o sexo como algo que responde à narrativa. Sexo não é uma cena independente de qualquer outra. O sexo se modifica em função de como estamos nos sentindo, de como os personagens estão se sentindo, se modificam as posições, se modifica a tensão, o tônus.

    Pela primeira vez, temos doze filmes brasileiros em Berlim. O que teria permitido essa safra inédita no festival?

    JULIA MURAT: É o resultado da política pública que aconteceu no Brasil nos últimos quatro anos. O Fundo Setorial iniciou há oito anos, mas nos últimos quatro, ele se abriu para a construção de filmes autorais, fazendo um processo de manutenção e valorização de produções internacionais, da TV pública, do desenvolvimento de roteiro... A mudança nesses últimos quatro ou cinco anos resulta nisso aqui. Os doze filmes estão em Berlim porque tivemos uma política pública voltada para se fazer cinema, cinema com suas respectivas identidades, e é isso que está sendo mostrado.

    Vocês percebem ameaças e esse financiamento devido à política do atual governo?

    MATIAS MARIANI: Sim, claramente. Estamos trabalhando para que as mudanças não venham, ou venham de uma maneira menos grave. Ironicamente, este é o momento no qual as políticas dos últimos quatro anos estão demonstrando sua eficiência. Teve muito suor, muita dedicação, de muitos funcionários públicos, muitos cineastas, muitas pessoas ligadas ao mercado como um todo, para ter esses doze filmes, além dos quinze em Roterdã e mais um brasileiro em Sundance. Agora que as coisas realmente tiveram efeito prático, isso está sendo colocado em questão.

    JULIA MURAT: Um dos acertos no processo da Ancine foi entender que a indicação do presidente da Ancine deveria ser descompassada da indicação do presidente da república. O Manoel Rangel está saindo e, de certo modo, nos preservou até agora dos efeitos reais que esse governo vai ter. Agora, é um governo que fala sobre meritocracia acima de qualquer coisa, que tem um pensamento de resultado público, econômico, acima de qualquer coisa, que não fala de representatividade de gênero, racial, que corta investimentos de setores importantes como educação e saúde. Todas as indicações até agora condizem com a ideia de desmantelar essa política. Mas eu espero que não.


    Relembre o nosso balanço final do 67º Festival de Berlim:

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