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    Festival de Berlim 2017: Para Marcelo Gomes, diretor de Joaquim, mídia brasileira ataca artistas para alienar população e controlar revoltas (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Ana Beatriz Lavagnino — 18/02/2017 às 10:45
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    O diretor explicou de que modo o filme sobre Tiradentes reflete a realidade política e social do país.

    Divulgação

    Em 2017, o Brasil teve uma participação inédita no festival de Berlim, com nada menos que doze filmes exibidos em várias mostras. Joaquim, de Marcelo Gomes, foi o nosso representante na disputa pelo Urso de Ouro. O filme mostra a formação política de Tiradentes (Júlio Machado), desde o trabalho para a Coroa portuguesa até o ímpeto revolucionário.

    O AdoroCinema conversou com o diretor em exclusividade, para conhecer mais sobre o projeto e descobrir de que maneira ele reflete a sociedade brasileira atual. Leia a nossa crítica e descubra este bate-papo:


    Como acha que Joaquim pode ser percebido por quem não conhece a nossa História?

    Marcelo Gomes: Essa é a primeira exibição do filme, e acontece para o público da Berlinale, que é o maior festival aberto do mundo. Cannes é um festival fechado. Então foi muito interessante porque você sai da sessão e conversa com cinéfilos, mas também com o público que quer entender as questões sociais, políticas e geográficas de um país. Foram conversas incríveis, eu aprendi mais sobre o meu filme e sobre o meu trabalho de diretor. 

    Como Joaquim é um filme de essência política muito forte, assim que ficou pronto eu pensei: “Esse filme tem a cara de Berlim. Não vou mandar para nenhum outro festival, vou mandar para Berlim”. Os curadores viram assim que saiu do forno e aceitaram. A gente acabou o filme em outubro e mandamos direto, e em dezembro chegou o convite. A experiência foi incrível, porque falando com franceses, ingleses, espanhóis, portugueses... A percepção do filme é quase igual.

    O que eu fiz foi investigar esse homem, para entender como que ele mudou de paradigma e virou um revolucionário. Acho que ele se tornou um revolucionário porque viu o nascimento de uma nação. Ele tem vários “cliques” no filme: primeiro é a paixão por uma escrava, então ele vê como é cruel ser escravo a partir daquela cena do estupro. Depois ele sente a frustração profissional de não ter se tornado tenente, porque ele não é filho da elite. Em seguida ele convive com um negro e um índio, querendo se comunicar. Por isso que ela fica se perguntando: “Quem sou eu?”. Existe essa loucura no Brasil, né? Tem gente que se acha europeu no Brasil. A gente vive essa confusão sobre quem somos nós. Por fim veio o fracasso profissional. Depois disso, em seu caminho ele encontra uma verdadeira revolução.

    Então esse filme, na verdade, é sobre traição, ganância e sobre o amor impossível. Isso é universal. E sobre como um herói se constrói, porque não é Deus, de uma forma messiânica, que designou o herói. São as circunstâncias da vida, o que você passa na vida, as frustrações amorosas, profissionais e intelectuais que transformam você.    

    Muitos filmes históricos têm uma estética pomposa, mas você prefere uma câmera livre, as imagens em cores quentes, o linguajar despojado.

    Marcelo Gomes: A gente queria fazer uma crônica do século XVIII, não uma novela histórica. A ideia era fazer um filme que contasse a poética do cotidiano do Brasil colonial ao invés de um relato oficial para ser lido na escola. Esse filme poderia ser passado nas escolas como material paradidático, mas não como um livro de história. Eu queria que o passado estivesse vivo, porque o passado está vivo no presente. O presente, as nossas mazelas sociais e o que a gente vive hoje, está lá. O embrião foi o século XVIII.

    A única forma de deixar o passado vivo é se enganchar com ele. É deixar uma câmera viva, que transpire e sinta junto com eles. Uma câmera capaz de invadir o espaço dos personagens, porque é a única forma de o espectador mergulhar nesse mundo. A gente usou as lentes anamórficas, que fazem você entrar naquele mundo. É um cinema pulsante, com sangue nos olhos. Personagens cheios de contradições, e não com estereótipos. Porque geralmente filme histórico vai para o estereótipo ou vai para a fábula humorística. Nunca trata o passado como algo vivo.

    Os atores Isabél Zuaa, Júlio Machado e Welket Bungué

    Ao mesmo tempo em que existe uma responsabilidade com os fatos históricos, existem as necessidades da ficção cinematográfica. Como você equilibra isso?

    Marcelo Gomes: O prólogo machadiano me deu muita liberdade para isso. Alí eu coloco o Joaquim falando: “Olha, gente, eu sou herói nacional, tem um dia no Brasil para mim, cortaram a minha cabeça porque eu era o mais pobre e mais exaltado, participei de uma revolta e that’s it”. Então vamos ver a vida do Joaquim antes disso…

    Na verdade o filme vira um grande flashback. No prólogo eu já contei a história ali e me dei a liberdade de inventar como foi a mudança de paradigma, como esse cara passou de um soldado da corte portuguesa para um rebelde. Então mostro esse Brasil que estava nascendo. Tinham apenas algumas cidades no interior de Pernambuco por causa da cana-de-açúcar, algumas no interior de São Paulo também, mas o resto vivia na costa como caranguejo, mas com a descoberta do ouro foi aquela multidão. E juntou uma Babel de línguas, cores, sotaques…

    Por isso que eu trouxe atores de todos os lugares. Brasil, África, Portugal… Porque esse era o Brasil que estava surgindo e o que eu queria no filme. É muito lindo porque a gente conseguiu um tom de interpretação que também não é pomposo. A direção de arte e o figurino também. No cinema histórico você tem aquela câmera clássica e os personagens dizendo “vosmecê”, aí não dá para se relacionar com o passado. Você acha que o passado é um livro velho.

    Pensando em termos de produção, é caro fazer cinema histórico no Brasil, mas Berlim selecionou Joaquim, Vazante, No Intenso Agora... O que está levando tantos cineastas a investirem no gênero histórico?

    Marcelo Gomes: Eu acho que tem duas coisas. A gente vive uma crise política, mas apesar de ninguém acreditar, por incrível que pareça, esse meu filme surgiu antes da crise. Aposto que vão surgir mais filmes históricos, porque vivemos numa crise política e ela promove uma tentativa de compreender o nosso país. Se a gente quiser fazer um paralelo com a psicanálise, a infância do nosso país é o Brasil colonial. Alí estava o nascimento da nação.

    Com a crise política vem uma questão de crise existencial. Elas vêm juntas, porque a gente vive se perguntando: “Quem sou eu?” e “Que país é esse?”. Então acho que vão surgir mais filmes para nos ajudar a entender melhor esse mundo tão complexo em que a gente vive. O cinema é uma mentira, mas uma mentira que nos ajuda a compreender certas verdades. O meu filme é uma mentira que vai nos ajudar a entendermos melhor nós mesmos. Como me ajudou nesse processo de leitura que eu tive.

    Parece evidente a necessidade de leis de incentivo para o cinema, mas elas têm sido muito atacadas pela mídia e pela opinião pública.

    Marcelo Gomes: Pois é, neste país a mídia é dominada por quatro famílias, é uma completa aberração genética. São quatro famílias que decidem quem é o presidente, quem vai ser o próximo e se querem ou não derrubar um presidente. O nosso país tem um problema de educação profunda, até hoje existem pessoas analfabetas no Brasil. No século XVIII, enquanto Peru e México já tinham universidades e bibliotecas, no Brasil era proibido imprimir livros. Quem quisesse ler, tinha que comprar livros na Europa… Ou seja, só a elite. O primeiro livro publicado no Brasil foi em 1822, duzentos anos depois.

    Isso é um horror, porque num país com tamanha deficiência educacional, a mídia domina muito mais fácil, até porque as pessoas têm medo de ser autocríticas. Agora, porquê a mídia está fazendo isso é uma grande questão. Para mim, ela tem criticado o cinema porque quanto menos filmes você faz, menos você promove e instiga a imaginação, a reflexão e a memória de um povo. Um país sem cinema é uma casa sem espelho. Você não vê sua cara. Maior alienação significa maior controle. Essa é a única explicação que eu posso ter.        

    O diretor Marcelo Gomes no festival de Berlim

    Enquanto isso, a reforma do ensino médio quer retirar a obrigatoriedade de disciplinas como sociologia e filosofia.

    Marcelo Gomes: É por isso que a gente fez aquela manifestação [manifesto assinado por mais de 300 personalidades da comunidade cinematográfica brasileira, e apresentado durante o festival de Berlim]. Esse governo ilegítimo já cortou subsídios na área social, educacional, em nome de estabelecer a economia, ou seja, para garantir o lucro das grandes corporações, da grande elite econômica. Quem sofre são milhões de brasileiros que vão ter uma saúde pior, educação pior... Agora querem cortar cultura. Para fazerem isso, eles precisam de uma população muito alienada para não ir a rua e quebrar tudo. Então, essa mídia está aí para controlar as mudanças, porque também fazem parte do conglomerado econômico.

    Joaquim - Teaser (2)
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