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    Petrus Cariry comenta a Trilogia da Morte e os enigmas de Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois (Exclusivo)
    Por Rodrigo Torres — 07/02/2017 às 09:45
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    Cineasta fala sobre o seu cinema de autor, de horror e do Ceará, e ainda sobre as dificuldades de lançar filmes independentes no país e sobre o seu próximo filme, O Barco.

    Um dos filmes mais potentes de 2017 já foi lançado, na última semana, e é brasileiro: Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, dirigido por Petrus Cariry. Lançado em poucas salas no nordeste e no sudeste do país, o longa-metragem independente até reflete, em sua luta para ganhar o circuito comercial, a jornada de sua protagonista — vivida pela ótima Sabrina Greve. E esses temas foram debatidos em entrevista exclusiva com o AdoroCinema.

    O encerramento e o significado da Trilogia da Morte, que Clarisse... compõe com os também intrigantes O Grão e Mãe e Filha, são bem traçados por Petrus. Sem economia, o cineasta cearense fala abertamente sobre os temas que aborda (do feminismo à aristocracia nordestina) nesse último filme, de seu cinema autoral, do próximo longa-metragem — O Barco — e seu crescimento na carreira sendo filho do renomado diretor Rosemberg Cariry.

    Sabrina Greve, Clarisse.

    Confira aqui em que salas está passando Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois — que é uma experiência imperdível, e pra se ter (por sua grande qualidade de som e imagem) no cinema. Abaixo, o bate-papo bacana com o diretor Petrus Cariry:

    AdoroCinema: O que significa a Trilogia da Morte?

    Petrus Cariry: A Trilogia da Morte foi pensada desde o momento em que fiz o meu primeiro filme de longa-metragem, O Grão. A morte e a vida são dois lados inseparáveis de uma mesma moeda. Acho mesmo que a vontade do homem em superar a morte está no principio de toda a civilização e de toda a cultura. Todo mundo tem medo da morte e sonha com a imortalidade, mesmo que seja com o nome escrito numa placa, mas tudo vira pó e esquecimento. A maioria da população cristã acredita na vida pós-morte, mas quando alguém morre, estamos diante de um abismo, do desconhecido, e tememos. A nossa relação com a morte é diferente da dos orientais, que percebem esse processo como um coisa natural, nos ciclos de finitudes e renovações do mundo. Tento trabalhar a morte como o fim de um ciclo de vida, que leva a um recomeço, mesmo que seja em um plano simbólico. Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois era para ser o segundo longa-metragem da trilogia, mas, como eu tinha ganhado dinheiro para fazer um curta, eu peguei o pouco dinheiro e realizei Mãe e Filha. Montei uma equipe de amigos, viajei para o sertão e rodei. Esse filme tem aquela carga psicológica bem pesada e flerta um pouco com o cinema de horror. É um filme que gosto muito, tem um clima denso, profundo, mas guarda o fascínio da beleza.

    Everaldo Pontes e Veronica Cavalcanti dão vida (ou "vida") a Samuel e Caetana.


    'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois' compõe essa trilogia com 'Grão' e 'Mãe e Filha'. Comente os traços comuns (narrativos, visuais, reflexões) entre eles.

    Acho que as o tema morte-vida está presente em todos os três filmes, mas as abordagens são diferentes. Em O Grão, temos uma criança que alimenta a avó para que ela não morra antes de lhe contar uma história, e essa história encerra um ensinamento sobre a morte e a condição humana. Uma mensagem que ajudará aquele menino a se tornar um homem. Mãe e Filha é um conflito entre gerações em torno de um bebê natimorto. A mãe do bebê quer enterrar a criança, a avó quer prolongar esse enterro. A avó vê nesse bebê o herdeiro que trará a vida de volta a uma cidade que está em ruínas. Em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, temos a luta de uma mulher, com os seus fantasmas e medos, na fronteira do real e do sonho, para reencontrar a vida. A morte e o sangue são signos de renovação, um possível recomeço.

    'Mãe e Filha' e 'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois' têm um trabalho estético e narrativo rigoroso. Você assina a direção de fotografia de ambos. Explique por que e como isso afeta a dinâmica no set.

    Para mim, a fotografia é um parte essencial de um filme e gosto dos enquadramentos bem feitos, do rigor das formas, da paletas de cores precisas, notadamente do claro-escuro. Esse planejamento e rigor técnico pressupõe uma preparação e um maior tempo de preparação de uma cena antes que seja rodada. Esse tempo é importante para mim porque me permite reflexões, experimentações com os atores, detalhamento da direção de arte etc. Toda a equipe pode contribuir melhor, porque temos um tempo para refletir.

    Petrus dirige Sabrina.


    Em meu texto sobre 'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois', eu ressalto a relação da protagonista com o pai, a questão do patriarcado como subtema e a insatisfação dela com essa imposição de poder (também capitalista). Fale um pouco sobre essas reflexões sociais, políticas, do discurso do filme.

    Sim, o filme de alguma forma aborda a questão da decadência da aristocracia nordestina, pessoas que destroem tudo o que está ao seu redor e também se destroem. Clarisse carrega uma bandeira a favor do feminismo. Temos a luta da mulher contra a opressão machista e patriarcal que permeia a sociedade conservadora. O filme se constrói com uma personagem feminina, ao redor da qual estão em órbita personagens masculinos, que oprimem e tentam exercer o seu poder de machos. Clarisse precisa se impor, se libertar. Esse elemento está no filme de forma alegórica: Clarisse segue em frente e se liberta do passado, dos fantasmas que lhe perseguem.

    'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois' trabalha essas questões de forma muito orgânica, até sutil, enquanto som e imagem investem intensamente na atmosfera. Quais são as suas influências?

    Eu sempre fiz questão de manter um certo controle sobre a construção estética e narrativa dos filmes que realizo. Desde o meu primeiro longa, O Grão, tenho dado uma atenção especial ao poder do plano e suas implicações no sentido fílmico, bem como ao tempo como construção narrativa e dramática. O que aconteceu durante esses anos foi uma espécie de depuramento da sensorialidade dos filmes, tenho me dedicado bastante ao estudo e à experimentação. Em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, além de fazer um estudo sobre a fotografia do filme e qual seria o seu peso e importância na narrativa proposta, eu estudei intensamente a questão da banda sonora do filme. Considero o som um aspecto essencial na construção do filme. Fiz várias experiências sensoriais em conjunto com Érico Paiva (Sapão), na mixagem e no desenho sonoro, em busca de contar uma história através dos sons e ruídos. A questão do silêncio do filme foi uma descoberta do próprio processo de roteirização, filmagem e finalização. Um processo bem rico de descobertas.
    Samuel, decrépito.


    Quando você vai explorar esse clima austero de suspense e terror num filme de gênero? O cinema de horror brasileiro não vai muito bem, precisa disso... Você não tem o interesse de suprir essa lacuna?!

    Eu ainda tenho interesse em fazer um filme que possa ser realmente um filme de gênero, um filme de horror. Tenho já um argumento de horror escrito nesse sentido, um filme de horror cuja tensão se passa no futuro distante. Quero muito realizar esse filme, mas não sei quando ele sairá do papel, por enquanto é apenas um um sonho. Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois trabalha com um clima psicológico, com a suspensão do tempo, lacunas narrativas e. consequentemente, com o acúmulo de tensões, fazendo o público sair no final da sessão em estado de excitação, tendo o filme com experiência sensível bem marcada. Eu creio ser interessante trabalhar a questão do filme de gênero, para usar e subverter alguns códigos já estabelecidos. Tenho pensado nisso, mas não me acho a pessoa certa para preencher essa lacuna do cinema brasileiro: o filme de horror.

    Explique o título 'Clarisse e Alguma Coisa Sobre Nós Dois'.

    O filme fala sobre Clarisse e seus medos, Clarisse e seu pai, Clarisse e seu irmão morto, Clarisse e seus fantasmas interiores. O "Alguma Coisa" vem por conta de o filme deixar várias lacunas para o espectador construir a narrativa com seus próprios signos e desejos.
    Belo trabalho de fotografia e direção de arte.


    'Clarisse...' estreia em 2017, depois de alguns adiamentos. Por que motivo?

    Pela imensa dificuldade que é lançar um filme independente no Brasil, sem patrocínios para o lançamento. Fizemos esse lançamento comercial em algumas salas do Nordeste e do Sudeste, através de uma pequena distribuidora: a Sereia Filmes. O trabalho de coordenação de distribuição ficou a cargo do cineasta e programador Salomão Santana, a quem eu sou grato, porque ele incentivou, apostou e investiu na distribuição do filme.

    Fale um pouco sobre a questão do mercado de produção e distribuição de cinema independente no Brasil.

    Para o cinema independente, com um conteúdo mais vertical, é muito difícil entrar no circuito comercial e se manter na próxima semana em cartaz. As grandes distribuidoras não correm riscos e, mesmo quando têm dinheiro subsidiado para distribuição, apostam no que acham que vai agradar o grande público. As distribuidoras que se interessam por filmes de arte são pequenas e não têm os recursos necessários e nem conseguem chegar a um grande número de salas. É uma pena, pois estes filmes têm muito o que dizer, mesmo para um público mais amplo, que não seja apenas formado por cinéfilos. Tenho certeza que as pessoas que forem no cinema e se dispuserem a embarcar na experiência sensorial e visual de Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, vão ter uma verdadeira experiência de cinema, levando o filme consigo.
    Petrus detrás das câmeras de Clarisse

    Eu estive presente no último Cine Ceará, e pude ver de perto tanto a difusão de jovens cineastas cearenses (alguns promissores), como o estímulo do festival ao cinema do estado. Fale um pouco sobre isso.

    Sim, o Cine Ceará tem um papel importante no estímulo ao cinema cearense. É muito importante um festival como esse. No Ceará estão sendo feitos muitos filmes interessantes, geralmente com pouco dinheiro, ou quando se tem alguma sorte, com editais públicos. Esse cinema está ganhando espaço nacional e mesmo internacional, com participação em festivais e com uma boa fortuna crítica. É um cinema que já realiza as suas potencialidades, mas que precisa crescer e se fortalecer ainda mais. Um cinema que precisa de mais apoio, de mais verbas, tanto do Estado quanto da Ancine, que já estão mantendo editais — e esses editais fazem a diferença —, no entanto, precisam ser ampliados. É um cinema criativo, muitas vezes experimental, muito arriscado, que não tem medo. O caminho é este mesmo, fazer o que se está a fim de fazer, sem amarras. Acho que mais na frente, o cinema cearense vai acontecer de forma efetiva e ampla, assim como aconteceu em Pernambuco. Por outro lado, o Ceará tem também um cinema comercial que tem feito grande sucesso, a exemplo dos filmes do Halder Gomes [Cine HoliúdyO Shaolin do Sertão]. É bom ter essa diversidade de propostas dentro de uma mesma cinematografia.

    Fale também sobre o seu próximo filme, 'O Barco'.

    O Barco foi rodado no Ceará, na Praia das Fontes. O filme fala sobre uma comunidade de pescadores, sobre uma mulher que tem 26 filhos, e o nome de cada filho corresponde a uma letra do alfabeto. Ela decifra o futuro a partir dos filhos, a partir da chegada de um misterioso barco e de uma mulher que vem pelas águas. O destino dessa comunidade será alterado por esses acontecimentos. O filme será um drama com tintas fantásticas, tendo Everaldo Pontes, Rômulo Braga e Samia de Lavor no elenco.

    Véu: morbidez sutil.

    Você é filho do grande Rosemberg Cariry — o que pode ser também um obstáculo pessoal. Superou isso e se tornou um cineasta estabelecido: fez curtas, está prestes a lançar seu quarto longa, soma prêmios em festivais nacionais e internacionais. Qual é o seu próximo passo no cinema? Tem alguma ambição particular que ainda não cumpriu na sétima arte?

    Trabalhei com meu pai, Rosemberg Cariry, desde cedo; eu era ainda um adolescente. Passei por todos os caminho do cinema, de boy de set a assistente de câmera, de fotógrafo a montador, de editor de som a colorista, de assistente a diretor. Isso me deu mais segurança e domínio de todo o processo de realização de um filme. Tenho trabalhado bastante com meu pai, às vezes fazemos os roteiros juntos e com participação do parceiro Firmino Holanda. Outras vezes fotografo e monto os filmes dele. Meu próximo passo é continuar trabalhando, realizando, aprendendo. Fazer cinema é ter sempre um desafio pela frente e a cada filme feito, um sonho se realiza.

     

     

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