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    Festival do Rio 2016: Martha Nowill, Maria Manoella e Charly Braun falam sobre o surpreendente Vermelho Russo
    Por Rodrigo Torres — 9 de out. de 2016 às 13:13
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    O pseudoreality sobre duas atrizes e suas experiências na Rússia e com Stanislavski é muito bem-sucedido, e tem boas chances de ganhar um Trófeu Redentor.

    A Première Brasil do Festival do Rio 2016 começou com o pé direito. Num ano em que a competição é tida por muitos como de descoberta, conhecemos uma boa surpresa logo na abertura: Vermelho Russo, de Charly Braun. E Martha Nowill.

    Isso porque, diferentemente da motivação de seu longa-metragem anterior — Além da Estrada, projeto pessoal ambientado no país em que passava as férias na infância: o Uruguai de sua família paterna —, o diretor foi à Rússia rodar um filme baseado no diário da atriz (e sua corroteirista).

    Manu e Martha foram mesmo à Rússia estudar o Sistema Stanislavski, em 2009.

    "Charly leu e disse: 'Eu quero fazer um filme sobre o seu diário'. Eu achei maravilhoso!", disse Martha, logo após o debate do longa-metragem, exibido no Odeon, na Cinelândia. Segundo ela, foi "engraçado" acumular o trabalho de atriz e roteirista. Em outras palavras, foi difícil mesmo.

    "Às vezes eu me pegava defendendo a minha personagem no roteiro. Eu dizia: 'Não, não podemos cortar essa cena', mas muito porque eu queria fazer a cena como atriz. Aí o Charly vinha e dizia que aquela cena era dispensável. Então, eu me peguei tendo que me distanciar da atriz pra enxergar o roteiro com clareza", disse Martha.

    Charly Braun com o Redentor de melhor diretor em 2010, por Além da Estrada.
    Durante o bate-papo exclusivo com o AdoroCinema, Charly Braun admitiu que ter de exercer sua hierarquia como diretor foi o lado ruim de trabalhar em colaboração com a sua protagonista. Mas também houve a contrapartida: "O lado bom é você ter sempre alguém te ajudando em questões de roteiro, o tempo todo."

    Artisticamente, essa dinâmica também rendeu um filme leve, divertido e muito bem resolvido em sua interessante proposta. Vermelho Russo adapta a viagem que Martha Nowill e sua coprotagonista, Maria Manoella, fizeram para a Rússia em 2009, para estudar a famosa (e extenuante) técnica Stanislavski de interpretação. Dado o conteúdo semibiográfico, Charly Braun investe numa forma que percorre a tênue linha entre a ficção e o registro documental.

    "Eu vi uma série do Beto Brant pra TV Cultura, que depois virou filme [O Amor Segundo B. Schianberg’’], que tinha essa coisa do pseudoreality. Ali me veio uma fagulha, e eu tive a ideia de fazer algo semelhante", disse ele, que obtém ótimos resultados com a concepção híbrida.

    Nowill e Manoella têm uma química incrível em Vermelho Russo. E versatilidade.
    Na maior parte do tempo, Martha e Manu (cujas personagens têm seus nomes verdadeiros; como todo o elenco) brincam, implicam uma com a outra, e a câmera na mão adota um estilo semidocumental. Nesses momentos, Vermelho Russo cativa pela fluidez dos diálogos e espontaneidade das situações — que, por vezes, são muito engraçadas.

    "Como vocês puderam ver no filme, a gente tem muita intimidade, a gente é muito amiga", conta Maria Manoella, explicando que o segredo da comicidade de Vermelho Russo é a naturalidade das cenas. Também por isso elas têm se surpreendido com a reação do público. A sensação de Manu é que o longa se torna engraçado por causa das situações patéticas e constrangedoras que elas de fato vivem, sem intenção de fazer graça. "Elas têm a grande capacidade de rir de si próprias", desvenda Charly.

    Tudo muda, porém, quando o rigor das aulas, o frio da Rússia, a distância de casa e uma paixão repentina (Michel Melamed, muito — e propositalmente — canastrão) compromete a relação das amigas. Nesses momentos de maior tensão, o registro se torna convencional, a câmera fica estática e a atuação naturalista, improvisada das atrizes muda para a dramaticidade treinada pelas personagens em seus ensaios, baseados na obra de Tchekhov. E, aí, Martha e Manu brilham.

    O frio, a solidão e o estresse provocam atritos entre Martha e Manu.

    "Teve um momento durante as filmagens que a gente se perguntou se iríamos atuar, quando iríamos atuar, mas aí a gente iria entrar em parafuso", conta Martha, para então explicar que o trabalho da dupla foi todo de atuação; mesmo nos momentos mais descontraídos.

    Como o mediador Daniel Schenker bem destacou durante o debate, é impossível não atuar sabendo que há uma câmera próxima. Porém, não pela ciência disso, mas pelo resultado alcançado, os amigos Charly, Martha e Manu realizam um trabalho de direção, roteiro e atuação muito louváveis.

    Que eles tenham um merecido sucesso durante a carreira de Vermelho Russo — seja por reconhecimento do público, seja com Trófeus Redentor no Festival do Rio 2016.

     

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