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    Uma Noite Não é Nada: Visitamos as filmagens do drama de Alain Fresnot em um hospital abandonado
    Por Bruno Carmelo — 30 de abr. de 2016 às 08:00
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    Paulo Betti interpreta um professor de meia-idade que se entrega a uma paixão proibida.

    Conhecido por alternar comédias e dramas, o cineasta Alain Fresnot apresenta em breve seu novo filme, Uma Noite Não é Nada. Desta vez, o humor não tem espaço na densa trama de Agostinho (Paulo Betti), um professor que se apaixona pela aluna nos anos 1980 e contrai o vírus HIV. 

    O AdoroCinema foi convidado a visitar as filmagens, no dia em que a equipe ocupou o espaço de um hospital abandonado no bairro da Lapa, em São Paulo. Uma imensa estrutura de câmeras, refletores e objetos de cena serviu a recriar o hospital de décadas atrás. É impressionante ver a locação vazia ganhar vida com dezenas de figurantes no papel dos feridos, leitos ensanguentados e letreiros informativos colados nas paredes.

    Nas cenas filmadas neste dia, a personagem Januária (Cláudia Mello) encontra-se em choque após visitar o marido doente no hospital. Saindo do quarto onde ele se encontra, recebe o apoio emocional de um homem interpretado pelo uruguaio Daniel Hendler. Fresnot dirigia a equipe de modo descontraído, fazendo modificações nas cenas e tendo ideias novas no instante exato da filmagem. A equipe, muito profissional e bem coordenada, se adequava às criações do cineasta.

    Aline Arruda
    O diretor Alain Fresnot (à esquerda) com Paulo Betti e Cláudia Mello

    Produção

    Questionado sobre o desafio de financiar um drama sobre uma vítima do HIV, Fresnot explica que a dificuldade de produção afeta os dramas nacionais de modo geral: "Hoje em dia, nada é fácil de vender, a não ser as comédias de costume com o casting da moda. Para todas as produções, leva-se anos para levantar os recursos". Mas essa não é a única dificuldade para produzir o projeto. A decisão de fazer o filme em preto e branco também impõe restrições: "A minha ideia inicial é ter o filme em preto e branco. Mas fiz um acordo com o nosso distribuidor, a Imovision, para lançar em preto e branco nos cinemas e depois ter uma versão colorida para a televisão e vendas internacionais, porque é mais fácil de colocar no mercado", justifica. 

    Escolha do elenco

    O diretor também revela que Paulo Betti não foi a primeira escolha para o papel do protagonista: "Inicialmente, eu estava comprometido com o Lima Duarte, com quem já fiz dois filmes. Mas demorei tanto para captar o dinheiro que ele teve um problema de saúde. Nada grave, mas ele não podia participar. Surgiu então o Paulo Betti, que tem uma idade muito mais adequada para a história. Já a presença do Daniel Hendler foi fortuita. A intenção era fazer uma coprodução entre Brasil e Argentina, mas não ganhei o edital. Eu já tinha conversado com o Hendler, e mesmo sem a coprodução, ele foi companheiro e aceitou participar do projeto".

    O diretor Alain Fresnot (de costas) observa Daniel Hendler através do monitor

    Um método próprio

    No set, Fresnot surpreendia pela direção de atores direta e em poucas palavras: "Tristeza, desolação!", pedia a Cláudia Mello após uma tomada. "Ele tem que ter a segurança de um vendedor de carros!", indicava a Daniel Hendler. Essas palavras bastavam para a reprodução de uma nova tomada, às vezes com ajustes muito precisos sobre o tom de voz, o movimento dos lábios ou dos braços. Nós conversamos com Paulo Betti e Daniel Hendler sobre o trabalho do diretor:

    "Eu já tinha feito Ed Mort com o Alain vinte anos atrás", lembrou Betti. "Foi interessante me encontrar com ele de novo, e também com o Pedro Farkas, diretor de fotografia. Ele tem uma forma única de filmar, não em ordem cronológica, e sim numa ordem de montador. Isso exige do ator muita concentração, porque toda a evolução do personagem está na cabeça do Alain, e ele cobra isso a cada plano. Ele sabe o que quer de cada um, e faz o ator chegar exatamente onde quer. Isso já existia em Ed Mort, e continua agora".

    Hendler explica em detalhes o estilo particular de Fresnot: "A filmagem é totalmente compartimentada. O ator é obrigado a se entregar ao diretor, porque ele cria uma continuidade interna do personagem, ele é um montador de si mesmo. Ele pensa onde o personagem vai e de onde vem, tanto em termos de história quanto em termos de plano. Eu acredito na magia da interposição dos planos, então para o ator é melhor trabalhar dessa maneira. Isso também retira a ideia do ator como narrador da história: quem narra é a câmera. Gosto dessa dinâmica. Fresnot está dirigindo e montando ao mesmo tempo, é um exercício ao qual ele se propõe".

    Aline Arruda
    Cláudia Mello, Fernanda Vianna e Daniel Hendler

    Distribuição

    O diretor se mostra confiante quanto ao futuro de Uma Noite Não é Nada nas salas de cinema: "Eu sou cineasta. Meu ponto de partida é fazer o que acho pertinente. Confio na minha intuição, acho que o que é importante para mim será importante para outras pessoas. Todos os meus filmes tiveram mais de 100 mil espectadores, então espero que Uma Noite Não é Nada siga essa tradição. O projeto parece fechado, por ser pequeno e tratar de uma pessoa de idade, mas a pessoa pode ter um interesse pelo suspense, pela tensão. Nosso problema em relação ao mercado é entrar em cartaz com pouca mídia. Culpamos frequentemente os filmes pelo público baixo, mas na maior parte das vezes a culpa é de uma distribuição e comercialização mal feita. Cada filme tem seu público".

    O filme ainda não tem previsão de estreia nas salas brasileiras.

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