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    "Hoje não tem desculpa para fazer filme mal feito", afirma Marcel Izidoro, produtor de O Diabo Mora Aqui
    Por Bruno Carmelo — 25/01/2016 às 18:30
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    Conversamos com o produtor durante a Mostra de Tiradentes 2016.

    A vantagem de participar de um festival como a Mostra de Tiradentes é poder encontrar, lado a lado, formas de pensamento cinematográfico completamente diferentes. Logo após o AdoroCinema conversar com Andrea Tonacci, que defende um cinema autoral, fugindo das regras de distribuição e dos moldes tradicionais de produção, conversamos como Marcel Izidoro, produtor do belo filme de terror O Diabo Mora Aqui.

    O ponto de vista é bastante distinto. Pragmático, com vasta experiência nos Estados Unidos, Izidoro expõe um olhar crítico à produção brasileira, acreditando em novos modelos industriais de distribuição, voltados para o lançamento em VoD, televisão e afins, privilegiando o financiamento privado às leis de incentivo do governo. Confira a síntese deste bate-papo:

    Origem do projeto

    "O Diabo Mora Aqui é adaptado de uma obra transmídia chamada Urbania. Esta é a primeira adaptação desta obra, mas vamos começar a mexer com lendas urbanas e a mitologia brasileira. Fiquei doze anos pesquisando o tema. Quase ninguém escreveu sobre isso: quando você fala em mitos brasileiros, pensa no Saci, em Monteiro Lobato... Ninguém queria me dar dinheiro para o projeto, ninguém queria me apoiar. Então fiquei dez anos pesquisando até começar a fazer O Diabo Mora Aqui. Criamos uma mitologia nova, baseada nessas lendas urbanas. Ainda estamos decidindo se vamos continuar com livros, séries".

    Pedro Bonacina
    A jovem equipe de O Diabo Mora Aqui. Em destaque, o produtor Marcel Izidoro

    Lendas urbanas 

    "Nós trabalhamos com duas lendas urbanas: o Negrinho do Pastoreio e o Bebê Diabo do ABC, uma lenda da região industrial de São Paulo. Alguns personagens deste filme, tanto os que morreram quanto os que sobreviveram, estarão de volta nos próximos projetos, fazendo parte de outras lendas urbanas bem conhecidas. A gente queria muito abordar questões tipicamente brasileiras, como o passado escravo e as culturas afrodescendentes. A ideia era ter um senhor de escravos, não como uma figura boazinha, mas um personagem do mal".

    Brasileiro ou internacional? 

    "A ideia era pegar algo rapidamente reconhecível, de fácil entrada, e adicionar o que é nosso. Fora do Brasil isso já funciona muito bem, mas aqui nós queremos inventar a roda. Eu dizia a toda equipe que não queria ter um filme bom por si só, e sim um filme legal. Tem cineastas autores que não desejam fazer isso. Nós pegamos uma estrutura bem clássica – jovens que só querem beber e transar, num fim de semana errado na floresta – mas colocamos um terror nosso. Não fizemos algo no estilo Zé do Caixão, com os orixás e cemitérios, nem algo tipicamente gringo. Buscamos o meio do caminho".

    Baixo orçamento 

    "Como eu tinha muito tempo de preparação, e tenho uma carreira extensa em cinema de gênero fora do Brasil, eu sabia o que era possível e o que não era possível fazer com a verba e tempo de realização que tínhamos. Sinto que muitas pessoas querem contar uma história a qualquer custo. Às vezes a história custaria R$5 milhões, mas a pessoa só tem R$500 e quer fazer assim mesmo, sem perder nada. No nosso filme, fizemos o processo contrário: primeiro, conseguimos o dinheiro e a locação, depois fiquei com o roteirista trabalhando seis meses antes de os diretores e a equipe entrarem. Quando eles entraram, nós sabíamos exatamente qual seria nosso filme, não tinha como inventar. Eu dirijo muito publicidade, então a equipe veio da publicidade, tanto o pessoal de arte quanto de fotografia".

    Kauê Zilli

    "Cara de cinema" 

    "Hoje, com tantos avanços tecnológicos, não tem desculpa para se fazer um filme mal feito. Pode parecer meio ríspido, mas se você não sabe filmar, tem tutorial no YouTube, tem todos os filmes para se estudar na palma da mão. O manual da câmera, a lente... Qualquer celular tem um aplicativo capaz de aplicar filtros. Acho que é preguiça mesmo. Nós não estouramos as diárias, filmamos oito horas por dia, trabalhamos como um filme profissional. Todo mundo foi pago. Eu queria que O Diabo Mora Aqui tivesse cara de cinema, que é algo de que sinto falta no cinema brasileiro. A estética brasileira é não ter estética. Queria fazer um filme com cara de cinema. Eu sabia que não tinha dinheiro para fazer uma cabeça decepada, monstros gigantes e efeitos absurdos, então nosso vilão é um homem que entra na sua cabeça. Fomos muito financeiramente responsáveis, porque não era dinheiro de leis, e sim de investidores".

    Produzindo sem dinheiro público 

    "Nem tentamos leis de incentivo, fui direto para o privado. Morei muito tempo fora do país, e fui a vários escritórios de produtores na Europa, nos Estados Unidos. Comecei a entender como as coisas funcionavam lá fora. Para mim, esta foi uma opção que nunca tinha me sido dada em quinze anos de carreira. Todo mundo tenta um edital de desenvolvimento, depois um edital de produção, depois um edital de lançamento... Você demora sete anos só esperando, e no caso de filmes de gênero, é preciso ser ágil. Às vezes é preciso comentar algo do nosso tempo, ou se o filme faz sucesso, você precisa preparar a sequência logo em seguida. Da maneira como se produz no Brasil, fica muito difícil. Se eu fizer um filme sobre a loira do banheiro, inteiramente passado no banheiro, e tentar conseguir dinheiro com empresas de produtos de banheiro, eles não vão me dar o dinheiro nunca. Isso não está nos valores da empresa. Eu não queria passar por isso: ao invés de passar por um edital, montei um plano de negócios".

    Kauê Zilli

    Lançamento nos cinemas? 

    "A gente se focou muito no mercado externo. A vantagem é que filmes de terror viajam bem. Tivemos mais resposta, até agora, fora do Brasil, tanto em festivais quanto na parte de business do cinema. O Diabo já está sendo negociado em vários territórios, inclusive na televisão. Só agora o Brasil está descobrindo a gente. Mas estamos fechando acordo de distribuição. Acho que temos filmes demais no cinema brasileiro. É difícil falar isso, mas num ano em que se lança mais de 120 filmes, como em 2015, a chance de ser mais um é grande demais. Duvido que você consiga nomear 20 desses filmes".

    "Filmes brasileiros demais?" E a concentração de poucos filmes em muitas salas? 

    "O problema é um pouco dos dois. Tem filmes demais, e também somos muito focados na produção, e não na cadeia inteira. Um filme é uma fábrica, um processo. A produção é uma parte muito pequena: às vezes você fica três meses na produção, e dois anos cuidando do lançamento. E não pensamos muito nisso. Falta um pensamento de cadeia mesmo. Sim, temos blockbusters que ocupam muitas salas, mas também não valeria a pena a gente planejar um lançamento pensamos que somos um blockbuster. Não é o caso. Talvez a gente já tenha achado uma empresa que pensa como a gente. Ao invés de colocar o filme em cartaz com cinco sessões por dia, colocamos duas sessões, em horário específico. Afinal, temos o nosso público: não adianta colocar às 3 horas da tarde, não vai funcionar. Como o filme inteiro foi pensado meio “errado” nos moldes brasileiros de produção, a distribuição também precisava ser assim".

    Passando uma história pessoal a outros diretores 

    "Levei dez anos para realizar este filme não só por causa dos recursos, mas também porque estava esperando eles chegarem. Os dois diretores são duas bibliotecas de gênero, dois cinéfilos impressionantes. Todos compraram a paixão de nós três. Eu assumi o papel do que seria o showrunner numa série. Eu me metia quando tinha que me meter, porque eu pensava o todo: se a gente escolhesse o ator X, eu trabalharia com ele em mais dois filmes, então precisava negociar para três filmes, e conseguir imaginá-lo em três filmes. Mas eles tiveram a liberdade para fazer o que queriam. Como também sou diretor, e odeio quanto ficam se intrometendo no que estou fazendo, eu fiquei lá como suporte. Estava lá para garantir que o filme saísse".

    Kauê Zilli
    Ivo Müller

    Escolha do elenco 

    "Para alguns personagens, escolhemos os atores diretamente. Foi o caso do Ivo Müller, que eu já conhecia. Quando a gente criou o personagem do Barão do Mel, era necessário encontrar um tipo quase alemão, que fosse uma verdadeira cobra, capaz de chegar a níveis histriônicos. Então tinha que ser ele, não podia ser outra pessoa. Nos outros casos, abrimos um casting à procura de atores muito jovens, especialmente de teatro musical. O musical e o terror têm algo muito parecido: o timing. Não se pode telegrafar o susto. Um problema dos filmes que vejo aqui é o ator começar a demonstrar susto muito antes de o susto acontecer. Mas é preciso ter um build-up, assim como na música. Se errar o compasso, ou a nota, não dá certo. Então fizemos um grande casting, num processo de mix and match. Eles precisariam parecer naturalmente amigos".

    Fora do padrão 

    "Filmes de terror são machistas naturalmente, mas a gente queria fazer algo fora do padrão. O Diabo Mora Aqui é feminista, as mulheres têm grande poder no filme. Existe uma questão materna importante. Os homens se acham espertos, mas são eles que se ferram na mão das mulheres. A gente também queria criar papéis fortes para os negros. Até flertamos, num momento, com a homossexualidade. Brincamos muito com todas essas questões".

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