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    Exclusivo: Pablo Trapero explica como transformou a sombria história real de O Clã em ficção
    Por Entrevista de Francisco Russo, com edição de Bruno Carmelo — 11 de dez. de 2015 às 10:45
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    O diretor argentino também comentou a atual situação do cinema latino-americano.

    Aos 44 anos de idade, o diretor argentino Pablo Trapero já tem uma filmografia invejável, que inclui produções premiadas como Do Outro Lado da Lei, LeoneraAbutres e Elefante Branco. Agora, ele apresenta seu novo filme, O Clã, baseado na história real da família Puccio, que sequestrou e assassinou diversas pessoas nos anos 1980.

    O suspense obteve grande sucesso de público na Argentina, tornando-se a segunda maior bilheteria da história do cinema no país. Os críticos também aprovaram a produção, vencedora do Leão de Prata de melhor diretor no festival de Veneza - leia a nossa crítica.

    O AdoroCinema conversou em exclusividade com Trapero, que comentou a responsabilidade de criar uma história baseada em fatos, e explicou a situação atual do cinema latino-americano.

     

    Ao longo de sua carreira, você fez vários filmes de forte cunho social. O Clã é uma história verídica, mas de que forma você conseguiu abordar igualmente a questão da ditadura na Argentina?

    Pablo Trapero: Esse filme era um desafio para mim, porque é o primeiro caso real em que trabalho. Eu queria que fosse muito próximo dos fatos: todos os nomes dos personagens, por exemplo, são verdadeiros, assim como as datas. Os lugares onde filmamos eram os mesmos onde a história se passou. Logicamente, O Clã é uma ficção, mas com elementos muito próximos da realidade.

    Ao mesmo tempo, queria que o filme fosse a oportunidade de falar de uma época da Argentina um pouco esquecida pelo cinema, que é a transição entre a ditadura e a democracia. Foi uma época muito dolorosa e muito difícil. Pensei que, com a história familiar, poderia falar desta etapa que diz muito sobre a nossa História, sobre como renascer rumo à democracia. É como no cinema noir: o filme fala primeiro dos personagens e de suas tramas pessoais, e através deste retrato, fala do mundo externo e do contexto em que estes personagens estão inseridos.

    Em relação à trilha sonora, O Clã traz várias canções pop, alternando entre o tom mais alegre e a tensão. Como escolheu esse tipo de música?

    Pablo Trapero: Na pesquisa, descobri que a música tinha um espaço muito importante naquela casa. Ela era usada para tapar os sons dos gritos, e também para intimidar as vítimas. Através da música, eu poderia atingir vários objetivos: por um lado, reconstruir a época, porque são canções de 1982 até 1985, e também para colocar o espectador do ponto de vista da vítima. Em alguns momentos, a trilha pop ou rock está bem alta, funcionando como contraponto à cena, para mostrar como se passava dentro da casa.

    O filme traduz a sensação claustrofóbica do sofrimento dentro da casa. Por exemplo, nas conversas telefônicas, queria que as vozes dos familiares das vítimas estivessem em volume alto, além da distância do som, para o espectador poder compartilhar o sentimento da família. Isso também ocorre com os planos-sequência do sequestro: eles passam a mostrar o ponto de vista da vítima, que é o olhar ignorado pela família Puccio.

    Trapero dirige seus atores durante as filmagens de O Clã

    O Clã foi premiado no festival de Veneza, com o troféu de melhor diretor, enquanto o prêmio de melhor filme ficou com uma produção venezuelana, Desde Allá. Qual é a importância desses prêmios para o cinema latino-americano?

    Pablo Trapero: Sabemos que os prêmios são muito importantes, mas antes de tudo, existem os filmes. Acredito que estes prêmios confirmam que o cinema latino-americano dos últimos anos tem muito valor, muita diversidade e profundidade, e isso se traduz em filmes muito distintos. O mesmo ocorreu em Berlim e Cannes. O cinema latino-americano tem conseguido retratar realidades distintas, que é o que se espera deste cinema.

    Em comum, essas produções têm o fato de serem feitas na América Latina, mas não são iguais, não falam dos mesmos temas nem são contadas da mesma maneira. Existem diretores com estilos distintos e objetivos diferentes. Os cineastas daqui têm muita curiosidade pelo cinema, o que se traduz no grande número de filmes.

    No Brasil, apesar da rivalidade no futebol, existe uma devoção à qualidade do cinema argentino e dos roteiros argentinos. Qual é o segredo da qualidade deste cinema nos últimos 10, 15 anos?

    Pablo Trapero: É a conclusão de uma relação histórica do cinema argentino com o público. O cinema do nosso país teve muitas etapas: os anos de ouro, os anos 1950, a “nouvelle vague” local dos anos 1960 com Leonardo Favio, Fernando Pino Solanas... Foram eles que construíram esse momento. Eu me sinto como um continuador da tradição histórica que passa não somente pelos realizadores, mas também pelo público, que busca os filmes no cinema. O que se vê nos últimos anos é a conclusão, ou a representação, do vínculo entre o amor do cinema pelos diretores e o amor do cinema pelo público.

    Um filme como O Clã, por exemplo, não é uma comédia de entretenimento, e sim um filme que exige comprometimento do público. Aqui, o público se animou, e O Clã se tornou a segunda produção mais vista da história da Argentina. Meses atrás, nós nos perguntávamos se as pessoas ficariam interessadas, e ficaram. É muito animador saber que o público não está interessado em ver apenas filmes iguais, porque isso permite aos diretores buscar caminhos novos, já que o público nos acompanha. Tudo se reduz ao amor pelo cinema do público e a todos que fazem cinema, e da curiosidade que isso provoca.

     

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