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    Entrevista exclusiva: Conheça Rodrigo Teixeira, o produtor brasileiro de Mistress America, Frances Ha e o polêmico Love
    Por Francisco Russo — 29 de nov. de 2015 às 10:12
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    "Eu financio os meus filmes, assumo o risco. Eu financio filmes de arte!", diz o produtor.

    João Bertholini
    Você pode não conhecê-lo, mas tem boas chances de já ter visto algum de seus filmes: Alemão, Tim Maia, Heleno, Frances Ha, O Cheiro do Ralo, O Abismo Prateado... Estamos falando de Rodrigo Teixeira, produtor brasileiro que, além de investir pesado no cinema nacional, decidiu estender sua área de influência para produções de outros países. Sim, tem brasileiro fazendo filme em Hollywood!

    O AdoroCinema pôde conversar com o produtor durante a Mostra de Cinema de São Paulo, que exibiu seus dois longas internacionais mais recentes: o já em cartaz Mistress America e o ainda inédito A Bruxa. Neste longo bate-papo, Rodrigo falou sobre suas influências, como saltou do meio literário para o cinema, dificuldades de produção nos dois países, próximos projetos e ainda os problemas enfrentados no lançamento do polêmico Love nos cinemas brasileiros - algo que lhe rendeu uma valiosa lição!

    Confira o resultado logo abaixo e conheça melhor um dos produtores mais ativos no cinema nacional nos últimos anos - e que, não por acaso, foi eleito pelo AdoroCinema a 4ª maior personalidade do cinema brasileiro em 2014.


    ADOROCINEMA: Vamos começar com uma pergunta bem "fácil": por que cinema?

    João Bertholini
    RODRIGO TEIXEIRA:
    É muito engraçado, porque na minha família ninguém trabalha com cinema. Na minha casa sempre fui cercado por livros e vi muitos filmes, o cinema me acompanha desde pequeno. Via os filmes do Howard Hawks e do John Ford sem saber quem eram eles, mas sabia quem era John Wayne, James Stewart, Hitchcock... Minha mãe me incentivou muito a ver os filmes clássicos quando era jovem, então isso foi alimentando minha cabeça. E eu via muito filme, passei a frenquentar cinema sozinho com 10 anos. Dos anos 1980 vi praticamente tudo.

    O primeiro diretor que me influenciou foi o [Steven] Spielberg. Eu praticamente vi a obra dele inteira no cinema, pois a partir dos 10 anos tudo que ele lançava eu ia ver. Era fã mesmo! Com O Pagamento Final descobri que era fã do Al Pacino, tudo que ele fazia eu adorava. Daí conheci Jack Nicholson, Robert De Niro, Harrison Ford... O cinema estava impregnado em mim e eu queria fazer aquilo, trabalhar com aquelas pessoas, mas não sabia como. Aí fui vasculhando por conta própria para chegar perto.


    AC: Você trabalhava na área editorial quando surgiu a oportunidade de fazer O Casamento de Romeu e Julieta. Como foi esta migração para o cinema?

    RODRIGO: A forma que encontrei para entrar no cinema e ter algum tipo de credibilidade foi através do editorial. Quando falava que tinha o sonho de fazer cinema as pessoas me consideravam megalomaníaco. Era jovem, nunca tinha feito algo, então tinha esta imagem. Já tinha uma relação através da Videofilmes, com o Maurício Andrade Ramos, que foi o cara que me abriu as portas do cinema quando tinha 20 anos. Na verdade, estou no cinema há quase 20 anos. Nos primeiros 10 não consegui fazer nada, aí fiz mercado editorial. Um dos projetos que fiz despertou o interesse da família Barreto, que me procurou. Em troca, pedi que me apresentassem efetivamente a este mundo. 


    AC: Após esta relação com a família Barreto, como foi o salto para que você se tornasse efetivamente produtor de longa-metragens?

    RODRIGO:
    Meu grupo social em São Paulo não trabalha com cinema. Teoricamente, eu tinha muito acesso aos chamados donos de empresa com lei de incentivo. Comecei então a procurar os diretores de cinema, mas não sabia fazer isto e minha capacidade de captação era muito ruim. Conseguia levantar dinheiro para os meus projetos, mas eles são pequenos. As pessoas me procuravam para ajudar nos projetos delas, mas como não conseguia ficava com uma imagem ruim. Como não tinha estudado Cinema nem tinha participado das produções, as pessoas não entendiam como estava ali e tinham um preconceito muito grande. Foi quando, mais uma vez, a literatura me salvou. Quando fiz [a série de livros] Amores Expressos, ganhei um reconhecimento no meio literário muito jovem, tinha 29 anos. Foi meu ápice e quando decidi que era hora de partir para o cinema.

    Foi quando o Heitor Dhalia me procurou para fazer O Cheiro do Ralo. Ficamos um ano tentando levantar fundos, não conseguimos. Aí ele propôs que financiássemos nós mesmos e topei. Fui o maior financiador do projeto, mas como era só o financiador fui pouco lembrado pelo filme. Isto fez com que quisesse fazer os meus filmes! Depois de O Cheiro do Ralo ficou claro que precisava financiar a minha carreira, passei a bancar as minhas ideias ao invés das ideias dos outros. Foi um filme que tenho muito orgulho de ter feito, mas o fato de não ter créditos me alimentou a ir para uma próxima etapa.


    AC: O Cheiro do Ralo é um dos raros casos no cinema brasileiro que teve um financiamento privado. Você acha que, hoje, um projeto do tipo é viável?

    RODRIGO: Acho. Eu financio os meus filmes, assumo o risco. Eu financio filme de arte! Isso é um risco muito grande, mas obviamente eu calculo o preço da arte. Os filmes que financio não custam R$ 5 milhões, mas R$ 1,5 milhão, tem um pensamento de produção por trás. Não tenho problema algum de financiar o primeiro longa de uma diretora, como é o caso da Gabriela Amaral Almeida, ou de trabalhar com o [José Eduardo] Belmonte de olho fechado ou com o Marco Dutra. Mal ou bem, estou fazendo aquilo que ninguém fez comigo, que é apoiar o jovem. E tenho benefício, porque as pessoas são talentosas! É uma troca que me fortalece muito.


    AC: No ano passado você teve um salto com Alemão e Tim Maia. Como foi a complexidade de trabalhar com um orçamento maior, mas também com filmes de apelo popular?

    RODRIGO:
    Alemão não teve um orçamento grande. Ele custou R$ 1,28 milhão, mais uns R$ 500 mil de pós-produção. Só que fez quase um milhão de espectadores. Se tivesse sido lançado uma semana antes, teria chegado à esta marca. Já Tim Maia é diferente. Ele foi uma megaprodução, mas saiu mais barato que Heleno e O Casamento de Romeu e Julieta. Eu não acredito que a minha empresa precisa fazer megaproduções, mas bons filmes que encontrem seu público. Alemão achou, Tim Maia achou. Mas, comparando ambos, Alemão é um sucesso em todas as esferas, enquanto que Tim Maia é um sucesso relativo.


    AC: O cinema brasileiro hoje investe muito em comédia. Você tem interesse em também investir neste gênero?

    RODRIGO: Acho um gênero interessantíssimo. Fiz Frances Ha, que também é uma comédia, o próprio O Casamento de Romeu e Julieta também é. Tenho interesse, mas não quero fazer uma comédia só para ganhar bilheteria. Quero contar uma boa história, mesmo na comédia. Fiz uma agora com o Matheus Souza, Tamo Junto!, e tenho um projeto que estou fechando com a Ingrid Guimarães e a Bianca Comparato. Sou muito a favor da comédia popular porque ela ajuda a sustentar o cinema brasileiro, mas, para o meu gosto, muitas delas eu não pagaria para ver. Mas respeito. Só que, se não investirmos em outros gêneros, seremos uma filmografia pobre de um único gênero.


    AC: Você trabalha muito com a compra de livros para serem adaptados. Como costuma escolher quais projetos devem ser trabalhados?

    "Quando Eu Era Vivo"
    RODRIGO:
    Hoje em dia dou muita abertura ao pessoal do meu escritório de me oferecerem projetos. Incentivo muito a leitura, até para gerar ideias. Um livro pode não ser interessante para ser comprado, mas pode trazer alguma ideia. Meu interesse é fazer aquilo que tiver vontade de ver. É um feeling que tenho, que às vezes se prova certo e em outras não. É claro que tive momentos em que fiz filmes que o público não quis ver, mas me orgulho deles. Quando Eu Era Vivo é um filme que me orgulho muito, mas só fez 11 mil espectadores.


    AC: Você costuma participar na escolha de diretor ou elenco, bem como opinar nos roteiros dos filmes que trabalha?

    RODRIGO: Este é um dos maiores prazeres que tenho como produtor: escalar. Eu erro também, às vezes prematuramente convido alguém para um projeto e isso acaba me atrapalhando, mas às vezes não, tudo funciona adequadamente. Por isso que tenho uma relação tão boa com atores e diretores, porque tenho este diálogo com eles e sempre converso sobre o que quero fazer.


    AC: Você tem uma meta, máxima ou mínima, de filmes a serem produzidos por ano?

    RODRIGO: Em desenvolvimento, não. Posso tocar até 15. Já para produção tenho limitação. Meu objetivo é ter um mínimo de três ou quatro por ano, chegando nele é gol! Se fizer oito, aí é gol de placa! Meu ritmo é meio industrial mesmo, uma equipe deixa um projeto e parte para outro.


    AC: Você ganhou muita visibilidade ao entrar no mercado internacional, também por ser raro ver um brasileiro produzindo filmes estrangeiros. Como foi esta decisão e como é seu processo de seleção sobre onde investir fora do país?

    RODRIGO:
    Minha entrada aconteceu simplesmente porque, na época, o câmbio com o dólar era fraco em relação ao real. Decidi apostar meu feeling lá fora e acabou dando certo. Hoje sou mais criterioso, tenho um currículo mais extenso. A captação dificultou um pouco neste momento específico, por causa da alta do dólar. Conheço muito o cinema americano, fui muito influenciado por ele, e mais uma vez vou atrás dos diretores que gosto. Aos poucos estendi para Europa, América Latina... Quando você fica mais velho sua referência fica mais ampla, tanto que fiz o novo filme do Gaspar Noé, Love. Devo fazer também o próximo filme do Hou Hsiao-Hsien. Tentei fazer o The Assassin, mas o filme já estava todo captado.


    AC: Em relação ao Love, o filme causou uma imensa polêmica na França e também no Brasil, com várias salas se recusando a exibi-lo. O Jean-Thomas Bernardini, fundador da Imovision, reclamou bastante das dificuldades enfrentadas por aqui. Como você participou deste lançamento?

    RODRIGO: A gente vendeu o filme para o Brasil e a distribuidora não quis nossa ajuda para nada. Isso é algo que aprendi, os filmes internacionais que faço agora têm como condição que eu possa participar do lançamento. Fica uma competição, achando que eu quero aparecer. Eu não quero aparecer, eu financiei o filme! Ganho muito mais dinheiro com o filme do que a distribuidora! Meu nome está na tela, quero participar! Isto para mim foi muito triste. Então defini que, para o mercado brasileiro, eu quero definir para quem quero distribuir.


    AC: Com este trabalho todo de produção e a questão que você teve com Love, passa pela sua cabeça no futuro ter também uma distribuidora?

    RODRIGO: Flertei muito com isto. Acho que no futuro você vai se autodistribuir tranquilamente. Esta é a tendência, os produtores distribuírem. A O2, a Downtown e a Paris fazem isto, eles produzem filmes. Isto se chama competição. Acho que os distribuidores têm muito mais medo que os produtores comecem a distribuir do que eles começarem a produzir. Mas não é qualquer um que pode distribuir, porque a relação com os exibidores é algo muito protegido. Mas vai mudar, não tem como. Tudo caminha para esta mudança.


    AC: Já há alguns anos você comprou os direitos sobre o disco "Blood on the Tracks", do Bob Dylan, para adaptá-lo no cinema e desde então pouco foi dito sobre o projeto. Em que pé ele está?

    "Blood on the Tracks", álbum de Bob Dylan
    RODRIGO:
    Está andando. É um projeto grande, que deve começar a acontecer no ano que vem. É um projeto como o do Chico Buarque, de transformar cada música em um filme e com diretores diferentes, não necessariamente brasileiros. É uma ideia ambiciosa, com filmes de nacionalidades distintas, cuja grande maioria seja em língua inglesa.

    NOTA: Rodrigo produziu a adaptação da música "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque, no filme O Abismo Prateado. As canções "Folhetim", "Vitrines", "Mil Perdões", "Construção" e "Ela Faz Cinema", todas compostam por Chico Buarque, inspiraram a minissérie Amor em Quatro Atos, exibida pela Rede Globo em 2011.


    AC: E em relação à adaptação de "O Mistério do Cinco Estrelas", clássico da literatura juvenil nos anos 1980?

    RODRIGO: A gente encontrou um caminho para o filme. Precisamos atualizar a história, é claro, e já encontrei um diretor, que ainda nem sabe que irei convidá-lo. A ideia é fazer um filme com uma pegada mais thriller, como é Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Não tão pesado, a intenção não é esta. A gente quer trazer o jovem para dentro do filme, mas de maneira crível.


    AC: O que é mais difícil, produzir um filme no Brasil ou nos Estados Unidos?

    RODRIGO: Não tem como dizer. Todo filme pode ser muito difícil. Às vezes você consegue captar 70% do orçamento de um filme em um dia e os 30% que falta levam sete meses para levantar. Difícil é você produzir um filme onde haja um diálogo ruim com o diretor. Este é o filme que vai te dar problema. Já passei por isto e aprendi que o filme onde não há diálogo entre o diretor e o produtor não deve ser feito.


     



     

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