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    Entrevista exclusiva: Juliano Ribeiro Salgado fala sobre as dificuldades de rodar O Sal da Terra
    Por Francisco Russo — 27 de mar. de 2015 às 15:00
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    Documentário indicado ao Oscar já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

    Menção honrosa no Festival de Cannes, César de melhor documentário, indicações ao Independent Spirit Awards e ao Oscar, filme de abertura do Festival do Rio. Após colecionar premiações em festivais e eventos mundo afora, chegou a hora de enfim conferir O Sal da Terra nos cinemas brasileiros.

    O AdoroCinema conversou com um dos diretores do longa-metragem, Juliano Ribeiro Salgado, que trouxe detalhes sobre os bastidores da produção sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, incluindo as dificuldades existentes em fazer um filme ao lado de Wim Wenders. Confira!


    POR QUE FAZER O FILME?

    Inicialmente, Juliano não queria fazer um filme sobre seu pai. "Tinha um pouco de medo e nossa relação não é tão boa. Temia viver uma relação meio Herzog e Klaus Kinski", lembrando as brigas constantes ocorridas entre o diretor Werner Herzog e o ator Klaus Kinski ao longo dos cinco trabalhos que rodaram juntos (Aguirre, a Cólera dos Deuses, Nosferatu - O Vampiro da Noite, WoyzeckFitzcarraldo e Cobra Verde).

    Juliano revela que ter gravado os bastidores do projeto Gênesis no Pará e na Amazônia acabaram influenciando para que o filme enfim fosse feito. "Quando voltei aconteceu algo muito importante. Editei meu curta-metragem de 20 minutos [sobre o projeto Gênesis] e mostrei ao Sebastião. Quando ele viu ficou muito tocado. Era algo que revelava muito mais sobre você do que sobre a pessoa que estava sendo filmada. O Tião sabe analisar imagem, é claro, e quando viu como seu filho olhava para ele ficou muito emocionado. Eu também fiquei e isto foi importante para a gente. Foi quando percebi que o filme poderia ser o momento da verdade que teríamos juntos."


    UM FILME A QUATRO MÃOS

    Após a decisão de rodar O Sal da Terra, Juliano teve que definir qual seria o enfoque a ser dado pelo documentário. "O Tião tinha uma experiência muito única do mundo. Ele viu muitos momentos de crise, fatos que viriam a se tornar históricos e se confrontando à humanidade das pessoas que ele ia fotografar. Ele aprendia muito com estas pessoas. Este aprendizado ele passava aos amigos e [através do cinema] poderia passar para muito mais pessoas", disse o diretor.

    O relacionamento difícil com Sebastião fez com que Juliano buscasse outra pessoa para entrevistá-lo. "O Tião tinha acabado de conhecer o Wim Wenders e ficaram muito amigos, até assistiam futebol juntos. Conversei com ele sobre fazermos algo sobre o Tião e percebemos que tínhamos a mesma aflição, que as pessoas tinham muito o que aprender a partir das experiências dele. Foi assim que a gente começou."



    JULIANO & WIM

    Juliano disse que o trabalho com Wim Wenders não foi fácil. "O filme começou de forma muito clara. Tinha feito estas viagens, a gente sabia que podia contar a história do Sebastião seguindo a linha dele viajar e se adaptar, que a câmera dele podia ser o mediador destas relações construídas, que a fotografia dele na Etiópia tinha a função de conscientizar e por aí vai. Conhecia muito bem estas histórias todas, então foi muito fácil escolher quais seriam as reportagens. Só que o Wim, ao falar com o Tião, encontrou uma forma linda e muito poderosa de fazer as entrevistas."

    Juliano contou que, durante as entrevistas, Sebastião ficou dentro de uma câmera rodeado de cortinas pretas, de forma que não visse a equipe de filmagens. Ele apenas via as fotografias sendo exibidas na tela e relatava suas emoções ao vê-las. "O Wim se concentrou nas entrevistas e eu no contexto, que contava a história do Tião e da própria família, a relação dele com os antepassados. A gente começou a editar e chegou uma hora que vimos que não iria rolar se editássemos juntos. Então peguei as imagens e comecei a editar sozinho. Dois meses depois, apresentei o material pro Wim e ele achou muito ruim. Aí ele fez uma edição sozinho e eu achei que não estava bom."

    "Ficamos um ano trocando a bola desta forma e vimos que não estávamos conseguindo. Só tínhamos então duas soluções:ou separávamos e cada um fazia o seu filme ou tentar fazer o filme juntos. Foi o que a gente tentou fazer. Neste momento aconteceu algo muito difícil, que foi abandonar ideias que tínhamos para ouvir um ao outro. Foi assim que encontramos o filme e por acaso ele ficou muito mais forte e mais bonito que os filmes que tínhamos tentado fazer até então."


    O ATENTADO A RONALD REAGAN


    Uma ausência sentida em O Sal da Terra é em relação às fotos tiradas por Sebastião Salgado no atentado sofrido pelo presidente norte-americano Ronald Reagan, em 1981. Juliano explicou porque resolveu deixá-las fora do filme. "Era muito óbvio que queríamos contar a história de um cara que tinha testemunhado a humanidade de uma forma única e muito enriquecedora. Ao mesmo tempo, queríamos contar a história dele, que era muito dramática e poderia ser dramatúrgica. Então só entrou no filme o que nos permitia construir isto. Esta história do Reagan é muito factual, qualquer pessoa poderia tê-las tirado. Foi uma cagada, é uma história legal mas não servia ao nosso propósito de construir um personagem."


    OUTRO DOCUMENTÁRIO

    Quando O Sal da Terra ainda estava em produção, outro documentário sobre Sebastião Salgado percorreu o circuito dos festivais brasileiros: Revelando Sebastião Salgado, dirigido por Betse de Paula. Perguntamos a Juliano como foi lidar com este projeto paralelo. "A Betse é um amiga e quando soube que ela queria fazer este filme achei que era uma ótima ideia. Era um tom diferente e tem lugar para todo mundo."


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