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Festival do Rio: Ilda Santiago conta a história do evento que dirige e comenta as curiosas exigências das personalidades
09/10/2013 às 09:00
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A executiva abriu o jogo nessa conversa exclusiva, onde fala da história do evento, dos bastidores e da rixa existente entre festivais no Brasil. Veja como foi!

por Roberto Cunha

Depois de nossa conversa com o cineasta Paul Schrader, durante o Festival do Rio 2013, batemos um papo com Ilda Santiago, que dirige essa verdadeira "festa" do cinema. Ela falou da história do festival, as influências, a preocupação com o público, a "guerra dos festivais" e as curiosas exigências das personalidades. Veja como foi! ;)

O Schrader disse pra gente que esteve no Festival do Rio em 1991, mas isso tem mais de 20 anos...
O FestRio começou em 1983 e funcionava em São Conrado, no antigo Hotel Nacional. Eu era estudante de jornalismo de cinema na época, tentando penetrar na feijoada, ver os filmes, conhecer as pessoas... Tinha 19 anos e queria entrar naquele mundo, como fazem muitos jovens hoje também. Naquele ano, eu ia para São Conrado, para Ipanema, lá no cinema da Praça Nossa Senhora da Paz. Hoje, existe comércio no lugar, mas foi lá que eu vi a nova geração do cinema britânico, meu primeiro Almodóvar, primeiro Spike Lee...

E quando você conseguiu fazer parte dessa história?
Em 1985, o Estação Botafogo entrou em funcionamento e eu estava lá, nessa nova geração. Em 1986, passamos a fazer parte do circuito do FestRio e tinha filme do Jim Jarmusch passando. Eu lembro de ir lá em São Conrado e trazer ele para ver o filme em Botafogo. O evento desapareceu em 1987 e em 88 não aconteceu nada. Em 1989, acontece a 1ª Mostra Banco Nacional de Cinema. É assim que começa.

Como foi esse "embrião" do Festival do Rio? Você lembra dos detalhes?
Eram 30 filmes. Só pré-estreias. Eu lembro da gente brigar pelo Faça a Coisa Certa (Spike Lee), que não ia ser lançado pela UIP. A mostra durou uns 10 anos. Em 97, virou a Mostra Rio, que durou dois anos e aí a gente começou o Festival do Rio numa junção com o pessoal do Rio Cine, um festival mais voltado para o cinema brasileiro e latino-americano. Isso foi em 1999 e agora estamos aqui comemorando os 15 anos.

É um festival adolescente?
Que bom, né? É bom, tem energia, tem ideias... acredita que vai mudar o mundo. Eu acredito que o cinema muda o mundo e que o festival tem essa capacidade de mudar a cara do Rio de Janeiro e do Brasil na relações de troca nas produções.

Você fez parte do júri oficial da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes 2013, e esse parece ser um festival que te inspira. Estou errado? Quais são as principais influências do Festival do Rio?
Não está não. É óbvio que eu procuro modelos para aperfeiçoar, mas hoje eu faço bem menos isso do que lá atrás, porque eu estava tentando entender como construir, como seria o funcionamento. Minha primeira referência, na verdade, era o Festival de Rotterdã. Eu queria que o Festival do Rio fosse Rotterdã, um festival caloroso, que arriscava e que todo mundo se encontrava. Lá, todas as noites você tinha um ponto de encontro. Para mim você fazer um curta-metragista sentar do lado de um Polanski pra conversar é genial e é algo que você não faz em Cannes.

Isso é bem legal mesmo...
Eu penso nisso. Depois, com o tempo, Rotterdã perdeu um pouco esse sentido do que eu queria para o Festival do Rio. Eu acho que ele virou uma outra coisa e eu começei a mirar em outros festivais. Hoje, por exemplo, eu penso muito em Cannes. Mas penso mais pelo lado da vontade que todo mundo tem de ir, porque vai se divertir, mesmo indo para trabalhar. A ideia é que o Festival do Rio possa ser um lugar de trabalho, mas que tenha esse elemento de prazer muito próximo.

Mas Cannes é mega, né?
Eu não gostaria de ser tão grande quanto Cannes. Cannes é especial, é único nesse sentido. Eu gostaria que o Festival Rio continuasse a ter esses locais em que todo mundo se encontra. Essa ideia para mim é muito importante.

E o que você considera assim um grande diferencial?
Tem uma coisa muito específica, que eu não vejo em nenhum outro, que é dar esse destaque para o cinema brasileiro. Nenhum outro festival se preocupa com o seu próprio cinema, talvez, porque não precise.

Você está falando da Première Brasil?
Exatamente. Ela é uma fonte de alegria enorme para os cineastas e produtores brasileiros. As pessoas ficam felizes e isso realimenta o mercado, a indústria, que é feita de paixão, de loucura... O cinema, que bom, não é uma ciência exata. Ele está o tempo testando e ao mesmo tempo provando para si próprio, que aquilo que acreditava estava errado e que outras coisas estão na frente. A Première traz um brilho e traz essa alegria para os produtores e diretores, que querem estar presentes na competição. Isso alimenta o mercado internacional e traz curadores de festivais de todo mundo.

Quem costuma vir de outros festivais?
A gente tem programadores que querem vir sempre. Todos os anos eles mandam mensagens pedindo para conseguir novamente a credencial. E, claro, eles sempre querem o bloquinho com todos os convites da Première Brasil, uma coisa muito valiosa dentro do festival. O Odeon a noite é um grande barato, a ideia do tapete vermelho, é muito gostoso. Vem gente de Cannes, Berlim, Toronto, o pessoal do Sundance vem com muita frequência, Rotterdã, Locarno, Miami e muitos outros festivais.

E como você vê essa "guerra dos festivais", brigando por exclusividade dos títulos? No fim das contas não é o espectador que acaba perdendo?
Isso é uma loucura. O Brasil produz mais de 100 filmes por ano. É filme para todo mundo e são filmes que, às vezes, necessitam de um festival diferente, dependendo da estratégia de lançamento dele. A gente nunca colocou como condição para filme brasileiro nada que não fosse estar inédito no Rio de Janeiro. A gente passa filme de Gramado, passava de Paulínia. Eu lembro, por exemplo, quando Mãe e Filha, de Petrus Cariry, tinha ganhado o Festival do Ceará e entrou na competição. Essa montagem que a gente faz aqui é do Festival do Rio. Os filmes podem se beneficiar de momentos diferentes. A gente guarda a prerrogativa de escolher os filmes que a gente gosta, que acreditamos compor melhor a Première. Alguns entram e outros não. É obvio porque a gente não passa tudo.

E isso então vale para todos os festivais...
A única exceção é o Festival de Brasilia, uma questão velha e chata, porque ele é perto. Não vai beneficiar nem o filme e nem o Festival do Rio. Para nós, o importante é que a gente possa oferecer para os filmes um lugar de visibilidade. Se ele passou há uma semana em outro festival com a presença da imprensa (como ocorre em Brasília), não tem vantagem para o filme e não tem vantagem para o Festival. Aí, eu acho que passa a ser uma opção de escolha de cada filme, em relação a sua estratégia de lançamento.

Mas e o público?
No caso da Première Brasil a gente tem uma cobrança muito grande. Eu prefiro dar o privilégio para quem olhou pra gente também. Filmes que gostamos também ficam de fora. Não tem espaço para todo mundo. Se eu tenho que fazer uma escolha, vamos beneficiar quem estiver em primeira mão no Festival do Rio.

E os títulos gringos?
No internacional, tem essa história de São Paulo que hoje não aceita filmes que passaram no Rio. Uma história nova. O Festival do Rio convive com a Mostra de São Paulo há vinte e poucos anos. Sempre partilhamos, existiram filmes em comum, mas nunca foi a mesma programação. Mas isso é novidade nos últimos dois anos a partir da morte do Leon (Cakoff). E nós, quando tem um filme que passou na Mostra no ano passado, por qualquer motivo, a gente passa. O filme do Takeshi Kitano, Outrage: Beyond, é um exemplo. Eu não tenho esse problema. O público do Rio não viu. É uma bobagem porque além de tudo, todos os festivais trabalham com dinheiro público. A gente tem que entregar para o público o que eles merecem e desejam. São cidades diferentes, públicos diferentes. As duas cidades perdem. A gente perde quando faz crescer essa ideia de uma rixa que não deveria acontecer. As duas cidades têm características próprias. Eu acho isso um desserviço com o dinheiro público.

Mas lá fora existe isso?
Não. Só existem dois festivais, que eu lembre, que só aceitam filmes "zero km": Cannes e Veneza. Os outros dois grandes, Berlim e Toronto, aceitam títulos de Veneza e até que passaram no Festival do Rio. E se você levar em consideração a enorme produção mundial e a dificuldade cada vez maior de lançamento dos filmes, fazer o circuito dos festivais é essencial uma produção. Então roubar deles essa possibilidade é roubar algo muito precioso, né? Vai contra exatamente que aquilo que a gente trabalha para fazer que é a divulgação do cinema. É como se você trabalhasse com um premissa contra a sua natureza, que é a promoção, divulgação, que é levantar o filme, criar negócios, fazer barulho... Eu, sinceramente, não entendo.

Vocês gostam de fazer experiências. Em 2012, por exemplo, teve a Midnight Surf, Terror, Música... O saldo foi positivo?
Na verdade o que a gente faz é criar uma maneira de ajudar o público a se guiar nessa enorme janela que se abre diante dele. Foi muito positivo e algumas experiências continuam. O Filme Doc, só de documentários sobre cinema, já está há vários anos do festival. O Midnight Música está segurando porque faz sentido, uma vez que tem muitos docs sobre música. A Midnight Terror, eu adoro, teve dois anos seguidos e com duas retrospectivas também, a do Dario Argento e do John Carpenter.

E como estão os números do festival?
Eu vi as salas cheias e vejo isso também quando vou apresentar os filmes. E em títulos, eu diria, improváveis, que é o mais difícil. Digo isso porque filmes de Gus Van Sant, Woody Allen é claro que estarão cheias, mas a gente fica querendo que o público assista "as descobertas, as pérolas", porque é fácil saber que Blue Jasmine ou Diana vão lotar.

Uma coisa que eu reparo bastante durante o evento e vivencio, inclusive, são as conversas do lado de fora, na fila ou enquanto aguarda o início de outra sessão. Vocês já pararam para pensar nisso?
Essa prática é importante porque você cria as salas do circuito do festival com uma linha de filme, porque a experiência do festival, ainda bem, não é só assistir filme, mas também de encontrar pessoas da sua turma, que gostam do mesmo gênero que você, para ter aquela troca do tipo "você viu o tal filme?" ali na saída... Se você misturar tudo em todas as salas, ele não sabe onde vai se encontrar. Ele sabe que naquele cinema passa aquele tipo de filme, que ele vai encontrar os amigos, gente nova, que vai recomendar filmes para ele...

Isso extrapola o ato de estar numa sessão...
É mais do que ir ao cinema. É discutir cinema, que é outra coisa que a gente tá fazendo neste ano, marcando na revista de programação as sessões onde o diretor vai estar presente. Isso é importante para criar o hábito do público de conversar com o diretor. E ele quer falar com eles. Então são construções que você vai fazendo e com isso habituando o espectador, que começa a saber onde ele vai encontrar o filme que ele quer. A programação foi feita pensando nisso. Por exemplo, o Botafogo 1, que é o tradicional tem sessões de clássicos, como Hitchcock, e elas encheram, mesmo numa sessão de 10 da noite, numa segunda-feira.


Aproveitando que você falou de um grande nome do suspense, o público, de uma maneira geral, sempre ouviu falar sobre as exigências que as celebridades costumam fazer. Como é que vocês encaram essa questão?
Tem muita exigência, muita chateação, mas a gente sabe que no final eles querem promover o filme dele e isso é o essencial. A partir daí, começa a conversa e tudo é negociável. Mas nós temos regras claras do que pode ser oferecido porque é dinheiro público e tem que ser respeitado.

E tem alguma passagem curiosa?
Ah tem! Quando você tem exigência de homens querendo maquiador o tempo todo... E tem uma maravilhosa. Quando veio o Samuel L. Jackson, ele queria um cabelereiro. Mas pra que? Ele anda com boné, não tem cabelo, ele vive careca... Mas ele queria um. Tem essas coisas, mas isso é hiper-negociável.

Realmente curioso esse pedido. E tem mais alguma outra situação?
Se você olhar a lista para trazer Angelina Jolie e Brad Pitt, com filhos incluídos... A lista é sensacional, mas tá guardada a sete chaves. É incrível.

Mas o que aconteceu?
Rolou uma possibilidade real, mas acabou não dando certo porque para trazer uma estrela assim tem que ter um patrocínio a parte. Dentro do festival não é viável. Tem que ter uma correção. A gente não tem passagem primeira classe para ninguém. Dakota Fanning, Kylie Minogue... Novamente, a gente tem regras muito claras.

Tem alguma que era inacreditável e vocês acabaram fazendo? Uma que vocês consideraram absurda...
Já teve caso de eu desconvidar a celebridade. Mas tem também aqueles casos do tipo "eu não quero ter nenhum gasto" e aí, dependendo de quem for, a gente acaba aceitando. Por um lado, eu entendo que para algumas pessoas existem cuidados que precisam ser tomados. Por exemplo, para trazer uma Dakota Fanning tem que ter segurança porque pode ter uma situação de perigo. E a aí você aprende que certos pedidos neste sentido precisam ser atendidos porque são fundamentados.
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