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História sobre drag queens com deficiência tem valor universal, diz o diretor Tim Lienhard
Por AdoroCinema — 12/07/2013 às 08:30
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O cineasta alemão, autor de One Zero One - The Story of Cybersissy & BayBjane explica a dificuldade de fazer o filme, o interesse nos personagens e ainda dá sua opinião sobre a importância de festivais gays.

por Bruno Carmelo

Um filme muito interessante selecionado do Rio Festival Gay de Cinema 2013 é o documentário alemão One Zero One - The Story of Cybersissy & Baybjane. Por divergências artísticas entre o cineasta e a organização do festival, o filme não foi projetado nas salas como previsto, mas o diretor Tim Lienhard permitiu ao AdoroCinema assistir ao filme, e conversou sobre a curiosa experiência de trabalhar com dois artistas muito peculiares.

O documentário retrata a trajetória artística de Antoine e Mourad, mais conhecidos como Cybersissy e BayBjane, respectivamente. Antoine tem uma extenso trabalho como pintor, escultor e performer em casas noturnas, mas sofre com constantes crises psicóticas. Já Mourad sofre de nanismo, tem deformidade nos dedos, no quadril e em diversas partes do corpo, além de sofrer com problemas cardíacos e não ter um dos olhos. Os dois decidiram se apresentar juntos, com roupas extravagantes em performances que usam o grotesco como símbolo de orgulho, como escolha estética e artística.

Leia a nossa crítica sobre One Zero One - The Story of Cybersissy & BayBjane, e confira nossa conversa com Tim Lienhard:

Como você conheceu Antoine e Mourad?

Foi doze anos atrás, quando eu estava dançando em uma discoteca em Colônia, na Alemanha. Eu vi essas duas figuras extraordinárias lá dentro, e eu nem sabia se o pequeno era um garoto, ou uma garota... Eu fiquei feliz que uma apresentação dessas acontecesse na minha cidade, que não é uma cidade muito louca. Depois eu os vi novamente, em outras apresentações, sem falar com eles.

Eu só conversei com eles dois anos atrás. Primeiro falei com Antoine, na Holanda. Eu disse que era um jornalista, e que queria fazer uma reportagem sobre ele. Levei minha câmera e filmei uma pequena apresentação, e esse foi o começo. Eu pensava em fazer um vídeo para a televisão, concentrado apenas nele, Antoine (Cybersissy). Mas ninguém na televisão estava interessado nesse tema. Eu cheguei a esquecer dessa ideia, mas depois pensei em fazer algo com Mourad também, um filme de verdade. No início, eles não acreditaram muito na ideia, e Mourad tinha receios, porque ele sempre tinha sido convidado para aparecer na televisão, como um animal de circo. Felizmente, ele viu alguns dos meus documentários e confiou em mim.

Justamente, teria sido fácil mostrá-los como atrações de circo, ressaltando os aspectos diferentes, mas você evita essa abordagem. Mesmo quando Mourad retira seu globo ocular diante das câmeras, para substituí-lo por outro, você filma a cena de longe, sem zooms, sem transformar o momento em um espetáculo.

Quando ele retira os olhos, e segura nas mãos, tinha uma espécie de secreção saindo dos olhos. Seria fácil mostrar a imagem e despertar nojo. Mas decidi cortar isso na edição, tornar a cena mais limpa. Tenho grande preocupação com a estética, mas não gosto de retratar as pessoas como freaks. Mesmo quando entrevistei Marilyn Manson, eu conversei com ele naturalmente, sem mostrá-lo como alguém estranho. Eu só me interesso pelas pessoas diferentes se elas têm algo a dizer, ou se me comovem.

Eu nunca quis chocar, na verdade. Em um momento, quando eu filmava, Antoine tirou toda a sua arcada dentária, de maneira bastante tranquila, nos bastidores. Eu filmei esse momento, mas durante a edição eu decidi retirar. Por que precisaria mostrar isso? O que essa cena traria ao filme? Se tivesse sido durante uma performance, com o público surpreso, eu mostraria com prazer, mas eu não tinha interesse em retratar os efeitos nocivos de sua doença. O mais interessante era ver como eles transformavam isso em algo criativo, artístico.

No filme, você alterna depoimentos dos personagens com cenas das apresentações dos dois, dentro de um castelo e nos jardins. Como surgiu essa ideia?

Quando chegamos ao castelo, é claro que tínhamos algo preparado, mas também brincamos e improvisamos muito. Mas eu nunca sabia como essas cenas entrariam no filme. Isso vem da minha experiência na televisão, foram 30 anos, e 70 documentários, então tudo ocorre de maneira natural, intuitiva.

Sobre as performances, o trabalho foi variado. “Firepussy” (momento em que Antoine coloca um lança-chamas no meio das pernas) é algo que eles fazem nas casas noturnas. Mas as cenas da floresta, com cavalos, foram criadas por mim. Eles nunca tinham trabalhado com um cavalo, e eles brincaram com isso, disseram “Só falta ter um cavalo!” Justamente por isso, eu aceitei e pensei que tinha que ser um cavalo branco, como nas histórias com príncipes encantados.

Quando o filme estava pronto, como Antoine e Mourad reagiram ao resultado final?

Esse era o meu maior medo. Eu já tinha mostrado para amigos, que me trouxeram opiniões diferentes. Antoine não conseguia ver sozinho, ele precisou esperar pelo terapeuta dele para ver junto, para dar um apoio emocional. Ele gostou do resultado, e depois me enviou um e-mail de aprovação. Já Mourad veio à minha casa, pediu caneta e papel, e disse “Eu vou fazer uma lista com todas as coisas de que não gosto”. Era isso que eu temia: ter que fazer mais alterações, agora que eu acreditava que o filme já estava pronto. Ele ficou fechado no meu escritório, assistindo, e eu não ouvi nada, nem um riso, nem um barulho sequer. Quando saiu da sala, Mourad me mostrou sua lista de objeções, e ela estava em branco! Ele não estava emotivo, nem fez elogios, mas aprovou. Somente mais tarde, quando viram a sessão nos festivais e escutaram os aplausos, os dois passaram a gostar bastante do resultado.

É interessante que eles tenham tantas reservas, porque são duas pessoas que parecem muito tranquilas com a imagem de si mesmas.

Pois é, mas eles não são tranquilos com as emoções. O problema do Antoine é que, se ele ficasse emocionado, ele precisaria de ajuda psicológica. Ele já chegou a cancelar dois convites para festivais, na última hora, pouco antes de pegar um avião. Ele tem crises paranoicas, psicóticas, e não consegue de jeito nenhum. Durante o primeiro mês de filmagem, eu tinha medo que eles desistissem e pedissem para parar o documentário. Já Mourad, quando eu estava em Ibiza, criou várias dificuldades para filmar. Ele sabia de tudo, e queria controlar as imagens, as cenas, mesmo a maneira de dirigir o carro, embora ele não dirija...

Você também evita momentos de intimidade. Existem poucos detalhes sobre a família de cada um, e nada é dito sobre a vida amorosa ou sexual de cada um deles.

Eu não teria problemas em mostrar sexo. Meu próximo filme vai mostrar ereções, isso não é um problema, se for mostrado de maneira alternativa, queer. Não há tabu. Mas para Mourad, ele jamais discutiria a sexualidade, ele é muito reservado. Ele vive com essa persona, esse alter-ego, e assim ele cria um distanciamento. Se Antoine pedisse para ele fazer uma cena de sexo como BayBjane, ele teria feito, mas nunca como Mourad. É bom lembrar que ele é muçulmano, e não bebe, nem fuma. Eu pedi para mostrar a família dele, e as visitas constantes ao hospital, mas ele não permitiu. Eu aceitei essas restrições, sem hesitar.

Acho que a ideia tinha vindo da minha experiência com televisão: se tivesse sido um programa de televisão, eu precisaria mostrar a vida pessoal, da maneira mais próxima possível, porque é assim que funciona a tele-realidade. Eu acabei indo além, construindo algo mais artístico. Antoine também tem diversos problemas em família, mas ele queria preservá-los. Ele cita rapidamente: “Minha família é um horror total, todos os clichês tornam-se realidade”. Ele poderia ter sido mais preciso, citando abuso infantil e outras coisas, mas preferiu esconder seu sofrimento.

Na abertura do Rio Festival Gay de Cinema, os organizadores disseram que os filmes mostravam um lado feliz e otimista da homossexualidade, porque já estavam cansados de obras pessimistas, retratando bullying e suicídio. O que você pensa disso?

Isso é bom para pensar sobre One Zero One. O filme tem uma energia positiva, e desperta uma reação positiva, de que você pode fazer o que quiser, da maneira que você for. Sempre dá para ser criativo. Eu não gosto de mostrar apenas a felicidade dos gays alegres e contentes, isso não me interessa.

Gays sempre têm problemas. Eu tenho 53 anos de idade, e viajo pelo mundo inteiro há 30 anos, e eu nunca encontrei um homem gay sem problemas. Já encontrei pessoas heterossexuais sem problemas, mas nenhum gay. Gays e problemas infelizmente combinam, então eu não gostaria de mostrar apenas cenas felizes. Heterossexuais são bem orientados pela sociedade, a vida toda é feita para eles, adaptada para eles. Para os gays, é difícil perceber que você é diferente, que tem que enfrentar todas as convenções. Quanto mais você discute os problemas e as diferenças, mais fácil é lidar com eles.

O filme já foi mostrado nos cinco continentes, e foi sempre bem aceito, porque todos conseguem se identificar com a diferença. Essa é a força de One Zero One, em minha opinião: a história não é o retrato de duas pessoas específicas, mas sobre ser diferente. Isso é algo que vale para todos. Ninguém precisa tentar ser normal, é possível aceitar as pessoas exatamente como são, e se sentir bem assim. Quando eu vejo Antoine e Mourad, eu sei exatamente como eles se sentem, embora não enfrente os mesmos problemas. Agora estou ansioso para ver o que o público heterossexual vai pensar, porque o filme foi visto principalmente em festivais gays...

Esta é outra questão curiosa sobre festivais gays : espera-se que as imagens tornem as pessoas mais tolerantes, mas o público que vai a um festival gay já tem uma predisposição ao tema, já está aberto a essas questões. O festival acaba pregando para convertidos...

Este é um paradoxo que nunca será resolvido. Eu acabei de voltar do Frameline em São Francisco, o maior e mais antigo festival gay do mundo. Tinham mais de quatro mil pessoas na plateia de um enorme cinema, e quase todos me pareciam gays. Mas eu valorizo isso: Por que um festival precisa atingir o público heterossexual? Em São Paulo, por exemplo, se existem 20 milhões de habitantes, 2 milhos devem ser gays. Isso é muita gente! O mundo gay é imenso, e já é o suficiente mostrar filmes para eles. Festivais gays não têm a responsabilidade de acabar com a homofobia, de ser militante. Se eles acabaram fazendo isso, melhor ainda, mas o papel do evento é dar um espaço para produções sobre esse tema, dar espaço para gays mostrarem filmes, e assistirem a filmes.

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