Colunas - Piratas do Caribe - O Baú da Morte
Piratas de Primeira Continuação mantém qualidade do primeiro e inova ainda mais em idéias
Esta continuação recheada de credenciais para o sucesso tem vários méritos e sinais eloqüentes, porque vai muito bem nas bilheterias e já bateu um recorde histórico no cinema: o filme que mais rapidamente chegou aos 100 milhões de dólares de faturamento. Óbvio, não é receita garantida, mas é fácil fazer uma obra fadada ao êxito quando é assinada por Jerry Bruckheimer, mago de títulos que estouraram nos anos 80, como Flashdance, Top Gun e Um Tira da Pesada, além de outros inesquecíveis como Bad Boys, A Rocha, Falcão Negro em Perigo. Jerry hoje é sinônimo de guichês funcionando e salas lotadas. Junte-se um jovem diretor talentoso, que revelou-se em suspenses interessantes como O Chamado e tendo realizado o primeiro Piratas do Caribe... além de recentemente ter enveredado para um drama mais profundo com O Sol de Cada Manhã - um filme bem diferente da média, por sinal. Este profissional é Gore Verbinsky, que assina também a terceira parte da trilogia dos piratas. Como se não bastasse, o blockbuster ainda traz como protagonista Johnny Depp, um verdadeiro ator-revolução, que não se entrega a modismos, fórmulas nem às teias de Hollywood, e prefere seguir o seu caminho inteligente de indiferença ao sucesso recheado de talento. Depp cunhou com o capitão Jack Sparrow do primeiro filme um dos melhores personagens do cinema da atualidade: um pouco inverossímil, repugnante, traiçoeiro mas incrivelmente carismático e magnético. Para unir tantas qualidades diferentes num mesmo papel, o ator de Don Juan deMarco e Edward Mãos de Tesoura misturou seu pirata com o músico Keith Richards, dos Rolling Stones , resultando num inusitado pirata efeminado, velhusco e antipático (Richards, aliás, aparece no final da trilogia). Mas ainda assim o centro das atenções. Explicado o sucesso? Se faltassem razões, era só lembrar que o galã Orlando Bloom da trilogia Senhor dos Anéis e Keira Knightley, indicada ao Oscar por Orgulho e Preconceito. Motivos de sobra para esta seqüência ser o que é.
Mas há um motivo muito mais forte - ordinariamente comum na indústria do cinema - que faz com que estas superproduções caprichem em todos os detalhes para que não naufraguem antes da hora: dinheiro. Piratas do Caribe e sua franquia no cinema não existem só por amor à arte, e pelo nobre sentimento de recuperar os filmes desse gênero: lutas de capa e espada, barris de rum e bandeiras pretas com caveira não vieram à tona por nada. O projeto deriva também de um parque temático existente na Disney, que se alimenta do filme e vice-versa. É lá que esta segunda parte foi lançada oficialmente em pré-estréia para o mundo todo, com presença de elenco e equipe, bem próximo de fãs histéricos sedentos de um novo episódio, além de tietes tentando se decidir entre o bom-mocismo de Bloom e a cafajestice de Depp. Marketing, merchandising, reforço da marca, venda de produtos paralelos e a febre de filmes de pirata do tempo de Errol Flynn foram trazidos de volta como num passe de mágica - na verdade muito bem orquestrado. A Disney não esperou demais, nem se atrasou a ponto de perder o feedback do filme original. Pontuação máxima para os magnatas que herdaram a empresa do pai de Mickey Mouse.
Mas felizmente nem tudo é vil metal nesse meio. Há um pouco de arte, uma pitada de bom-gosto e uma certa motivação para fazer um longa-metragem bacana e divertido. Por isso, vamos aos méritos de Piratas do Caribe - O Baú da Morte. Em primeiro lugar, a série pode se vangloriar em recuperar o gênero de aventura - maximizado neste segundo filme - e ainda por cima misturá-lo com o terror e o suspense. Se no primeiro filme os efeitos encarregavam-se perfeitamente de mostrar a transição entre o perigo real e a ameaça fantasmagórica, este segundo já apela diretamente para seres estrambóticos, nojentos, gosmentos e dezenas de vezes mais perigosos. Com um pouco menos de charme, mas com muito mais pique e criatividade, surgem brilhantemente novos personagens, tais como o do ator Stellan Skasgard, um pirata cansado e carcomido revelado como o pai de Will Turner e o vivido por Bill Nighy - isso mesmo, o velho roqueiro de Simplesmente Amor -, que é o vilão do filme e o melhor dos últimos tempos nas telas. Sem contar tribos de índios canibais, monstros marinhos submersos e igualmente destruidores, uma bruxa de comportamento dúbio e erotizado, piratas bêbados e indescritivelmente mal-tratados pela vida, que passeiam por várias situações, como se fossem mini-filmes dentro de um só. O roteiro de Piratas 2... tem um ritmo impecável e uma criatividade abundante. A linha mestra é simples - um pirata atrás da chave para abrir um baú misterioso -, mas os temperos são tantos em volta que a obra se torna irresistível, superior à primeira e totalmente explicável em seu sucesso.
Todo este resultado, porém, não justifica antecipadamente uma bilheteria igualmente arrebatadora para a terceira parte. Filmada praticamente simultaneamente com este filme do meio, prática que está ficando comum em Hollywood para poupar cachês, horas de maquiagem, elenco e cenários, a fórmula não garante que o filme a ser lançado em julho de 2007 emplaque tão bem. Aliás, as experiências em outras trilogias onde a segunda e a terceira parte foram filmadas juntas não são boas, como em De Volta para o Futuro, Matrix e O Senhor dos Anéis. O cineasta Francis Ford Coppola, por exemplo, fez o contrário: esperou anos de maturação da continuação de O Poderoso Chefão para lançar o final da trilogia que nem sonhou um dia que realmente existiria. Quentin Tarantino fez a mesma coisa que a Disney realizou com Piratas, mas dividiu seu Kill Bill em 1 e 2, numa proposta um pouco diferente cujo produto conseguiu atingir identidades diferentes. Enfim, um risco, embora pequeno: a grande aposta é que ''Águas Não Mapeadas'', ou algo assim (o nome do terceiro episódio) repita a dose justamente pela inventividade da história. Mais do que uma produção consistente, profissional, riquíssima em efeitos, acabamento, edição e principalmente financiamento, elenco de primeira com toques pessoais - no caso de Depp -, Piratas renasce e esconde um bom mapa de navegação para o terceiro filme rumo ao sucesso por causa de sua originalidade e criatividade, somadas ao bom gosto e o prazer de reviver este tipo de fita que nos deixa adolescentes, vibrando com os perigos em alto mar. E viva a garrafa de rum!
por Renato Martins
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