Carlos Massari (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:

"É impossível negar que a idéia original de Jô Soares (trazer Sherlock Holmes para o Brasil) é brilhante. Porém, essa adaptação para o cinema foi um pouco precipitada. Claro que, levando em conta o momento do cinema brasileiro, até que o filme é bom, mas se for para fazer uma avaliação coerente o filme vai perder vários pontos, devido a detalhes um pouco mal-explicados e partes cansativas (a parte entre o sumiço do violino e o chamado de Sherlock é difícil de aguentar). Mesmo assim, "O Xangô de Baker Street" é um filme agradável e que arranca algumas boas gargalhadas.

Jô Soares fez o que mais sabe ao escrever o livro: fazer o suspense virar uma trama policial bem humorada sem apelar. A história nos leva ao Rio de Janeiro, século XIX. Um violino raríssimo no mundo é roubado e logo surgem dois assassinatos de moças jovens. Em ambos, a vítima aparecia com uma corda do violino no seu corpo. A polícia brasileira tem problemas para resover o caso e resolve chamar o célebre detetive Sherlock Holmes. Logo ele e seu fiel ajudante Watson chegam ao Rio. Porém, a dupla inglesa tem problemas com o clima e a comida brasileira, até se apaixonarem por esta terra, e com isso, as investigações começam a se complicar.

Há uma rede de intrigas que, no início, parece que vai deixar uma tonelada de furos no roteiro. Porém, ao desenrolar do filme tudo se encaixa e o roteiro se mostra muito bom. Porém, o filme foi precipitado pela escolha de Miguel Faria Jr. para a direção. Ele não tem talento suficiente para adaptar uma obra de Jô Soares. Seu trabalho é bastante irregular e o filme se torna desnecessariamente arrastado. Mesmo assim, temos uma boa fotografia e ótima montagem. A parte inicial me deu esperanças de ver uma obra-prima. Pena que a sequência seguinte já arruina essa esperança.

Já que o filme foi co-produzido por Portugal, era de se esperar que tivessemos atores portugueses no elenco. E realmente temos os dois melhores: Joaquim de Almeida, que está um pouco apagado mas faz o necessário, e Maria de Medeiros (que já trabalhou em "Pulp Fiction"), com poucas aparições mas demonstrando talento. Na parte brasileira, o grande destaque é Marco Nanini, muito bem em cena. Claudio Marzo também está bem, mas sem grandes destaques. Jô Soares também faz uma ponta. Temos ainda Anthony O'Donnel, o melhor do filme, conseguindo uma ótima interpretação.

Levando em conta o triste momento pelo qual passa o cinema brasileiro, no qual é dominado por filmes da Xuxa cheio de pagodeiros acéfalos, "O Xangô de Baker Street" é uma boa pedida, mas ainda não é o filme do ano. Vamos mesmo esperar por "Abril Despedaçado". Infelizmente, parece que o público não quis prestigiar o filme (na sala qual eu o assisti estavam apenas quatro pessoas). É uma baita perda para o desenvolvimento do nosso cinema. Se você tiver bom gosto vá assistir, e verá que ainda não estamos totalmente infestados pela Xuxa."