Henrique Miura (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"A
obra literária de Nikos Kazantzakis foi rotulada pelos fiéis religiosos
como indecorosa e execrável. Essa reação era mais do que
esperada, pois criar novas versões, dar um novo olhar e criar alguns
questionamentos sobre a real história de Jesus Cristo não é
mera brincadeira. Porém, o melhor a fazer é aceitar todos os tipos
de idéias e criações, e Nikos fez isso, aparentemente,
com muita sabedoria. Fez de Jesus um homem comum e ainda deu um olhar de Jesus
sobre sua vida e seus possíveis futuros.
Agora, quem seria o maluco para adaptar
essa obra para a sétima arte? Um diretor comum e rotineiro jamais cometeria
tal ousadia, pois poderia mexer com sua imagem. Entretanto, um grande diretor
de grande respeito teve essa coragem. Martin Scorsese, mesmo com uma produção
modesta e um orçamento baixo, de 7 milhões, foi à luta.
Elenco de amigos trabalhando por cachê mínimo foi seu mérito,
enfrentar a intolerância de igrejas foi seu pesadelo. Scorsese sofreu,
mas conseguiu realizar uma obra que ao mesmo tempo em que comete ousadias pesadíssimas
jamais comete a blasfêmia. A figura de Jesus é sempre respeitada.
E mais, Scorsese é católico de carteirinha.
Jesus Cristo (Willem Dafoe) era um
camponês como tantos outros, porém sendo um judeu ele não
é respeitado por fazer as cruzes para pessoas de sua própria religião
serem crucificadas. Vivendo sobre uma enorme pressão dentro de si, ele
parte com Judas (Harvey Keitel) - que era encarregado de matar Jesus -, para
o deserto. Ele parte convencido de que é filho de Deus. Com essa atitude,
ele consegue formar um grupo de discípulos, que passam a pregar a paz.
errado
Em meio a esse breve resumo sobre
a história do filme todos sabemos qual é o final, ou pelo menos
"quase" todos. Para manter o interesse do público até
o final, Scorsese conta a história (longa, por sinal) com sua tradicional
lentidão. É aí que pesa o nome de um grande diretor. Mesmo
tendo um final óbvio em mãos, Scorsese simplesmente impressiona
por apresentar fatos jamais vistos, ou até mesmo imaginados. Merece créditos
também o ótimo roteiro de Paul Schrader, que conseguiu criar belos
e poéticos diálogos, misturados com excelentes situações.
É uma verdadeira jornada à trajetória de Jesus.
Foi uma pena o que aconteceu com
este filme. Scorsese teve dificuldades de terminá-lo por pressões
de igrejas. O filme acabou sendo proibido em muitos países e até
parecia que Scorsese havia cometido um crime. A indicação solitária
que o filme conseguiu ao Oscar - merecida de melhor diretor -, foi claramente
dada por dó dele. Porque dó? Porque ele fez um grande filme, porém
a fita por onde passava era incompreendida pelo público. Uma indicação
de melhor filme seria pedir demais, já que o filme foge do padrão
da Academia.
Vale ressaltar a boa e humilde vontade
do elenco. Willem Dafoe criou um Jesus que não é exatamente aquele
que se vê em bíblias. O texto era muito difícil, porém
Dafoe é demais expressivo. Harvey Keitel aparece um pouco fora de forma
e a exaustão das filmagens é visível no enfraquecimento
de sua atuação. Parece cansado de atuar. Barbara Hershey também
está muito bem. Porém o que vale aqui nem é em si à
qualidade do elenco, mas sim pelo trabalho feito. As atuações
são feitas de coração, o que já vale muito.
"A Última Tentação
de Cristo" é uma fita bem pessoal do mestre Martin Scorsese. O filme
é um pouco extenso demais, são aproximadamente umas 2 horas de
40 minutos. O filme é bem longo, mas não cansa. A bela fotografia
de Michael Ballhaus é de alta qualidade, tons púrpuros e calorosos
dão belas imagens e excelentes sensações. Ótima
trilha sonora, detalhista direção de arte e competente escolha
de figurinos. Um painel perfeito da caracterização da época.
"A Última Tentação de Cristo" é, em minha
opinião, o filme que gerou mais polêmica se tratando de cinema.
A igreja perseguiu e não gostou, porém nós cinéfilos
agradecemos por mais uma bela obra cinematográfica. Viva Scorsese!"