Adoro Cinema: Olá, Jefferson. Que legal que você está aqui conosco. Você está no Festival de Berlim apresentando o teu filme, Bróder, na mostra Panorama. Como é isto pra você?
Jefferson De: Primeiro uma honra enorme estar aqui nesta cidade e estar participando do Festival, mostrando o meu filme. Este é um filme que eu ao mesmo tempo esperava e não esperava entrar num grande festival, mas não esperava que fosse logo o primeiro do ano, logo um grande festival como o de Berlim. Estou emocionado ainda. Não estou nas nuvens. Estou nas neves. (risos)
AC: Na coletiva recentemente dada, você comentou que quando recebeu a notícia você estava no ônibus e alguém ligou pra você e falou: "Olha, o teu filme está em Berlim!" Conta os detalhes deste momento pra gente.
Jefferson: São Paulo, agora no verão, está tendo muita chuva. Eu estava indo para a Universidade de São Paulo, onde estou pesquisando pro próximo projeto. Já tinham saído algumas seleções do Festival de Berlim e vi que Bróder não tinha sido selecionado. Entao há vinte e poucos dias atrás eu estava nesse ônibus, estava chovendo muito no ônibus todo de vidro fechado, o trânsito todo congestionado e todo mundo respirando o mesmo ar ali. Ainda tem esse esse problema da gripe... (risos). Era um dia que eu estava com todos os vírus possíveis da gripe, aí tocou meu telefone e era meu produtor, que disse que o filme tinha sido selecionado pelo Festival de Berlim. Fiquei muito emocionado, fico até agora quando falo disso. Lembro exatamente porque foi muito forte. Porque tem esta questão do sonho. Um sonho, aí de repente um telefonema em 30 segundos, muda tudo! Muda completamente! Eu me lembro exatamente que foi muito forte. Vinte dias depois eu estava cruzando aqui na cidade com o meu filme, que eu tive que correr pra finalizar (risos), para mostrar aqui.
AC: Como foi a recepção do público?
Jefferson: Como o filme tem todo o financiamento brasileiro e toda a história se passa no Brasil, o meu pensamento estava de certa forma todo voltado para o Brasil, que a minha receptividade estava voltada totalmente para o Brasil. A mostra competitiva é um outro tipo de relação, que eu não conheço bem pois nunca participei. Já na mostra Panorama são filmes provocadores, que trazem de alguma forma algum tipo de olhar diferente, mostra possíveis tendências. A Panorama se propõe em selecionar estes filmes. Então as pessoas estão preparadas e curiosas pra ver, porque esse filme está aqui. E foi muito curioso. Em todas as seções houve debates e eles foram muito intensos.
AC: Intensos em que sentido?
Jefferson: De saber que cidade era aquela que eu estava mostrando, porque quando você fala de Brasil fala-se muito do Rio de Janeiro, da Bahia e da Amazônia. São Paulo ainda é uma cidade muito desconhecida para as pessoas e, ao mesmo tempo, quando eu falava na questão da desigualdade. Eu vou filmando um bairro extremamente pobre que está há pouco mais de 1 km da sede da oitava economia do mundo, da maior cidade da América do Sul. São mais ou menos 15 milhões de pessoas que moram em São Paulo. Quando as pessoas falam "Ah, é um filme brasileiro, elas ligam à temática de Cidade de Deus, Tropa de Elite, que ganhou o Festival de Berlim, e eu mostro uma história de afeto, de amizade, de amor, de família. Bem disse o diretor do festival, o qual eu não consigo pronunciar o nome dele (risos), que o festival tem um foco muito grande na família. Aí eu comecei a compreender o foco deste ano: contar uma história do ponto de vista familiar. As pessoas entraram no meu filme porque eu fui pra dentro da família. E isto foi muito bonito.
AC: Por você chegar em Berlim já na mostra mais interessante do festival. O que você espera de resultado positivo no contexto da estreia em agosto no Brasil?
Jefferson: Espero que as pessoas vão assistir ao meu filme. O mercado no Brasil é muito pequeno. Nem todas as pessoas que eu filmei nesse bairro vão ter a possibilidade de ver o filme, num primeiro momento, no cinema. Estar na Panorama eu espero que tenha como consequência que o segundo filme não seja tão doloroso e frustrante quanto foi o primeiro. O diretor de cinema é antes de tudo um cara que sabe lidar com a frustração e com a dor. Eu espero que seja pelo menos um pouquinho menos doloroso.
AC: Você fala do processo doloroso que foi fazer esse filme. Você pensou alguma vez em desistir?
Jefferson: Eu adoraria saber fazer pizza bem, adoraria lavar louça bem, adoraria saber construir bem uma ponte, mas a única coisa que eu aprendi foi contar histórias. Talvez eu venha de uma tradição de Griots africanos, deve ter uma ligação. As dores me alimentam de certa forma. Acho que de certa forma isto tem uma alimentação criativa. Assim como todos os artistas em outras áreas, o momento de dificuldade é um momento bonito de criação. Grandes obras artísticas foram feitas em grandes momentos de dor, pessoal ou da coletividade. Vamos pegar o exemplo da obra da Frida Kahlo. A trajetória dela resume tudo isso.
AC: Na coletiva cedida para os cineastas brasileiros presentes em Berlim, você comentou uma situação que vivenciou quando estava em São Paulo. Conta os detalhes pra gente.
Jefferson: Logo no início da produção do filme eu tinha uma reunião com o presidente da Sony Columbia, na sede da empresa. É um prédio muito bonito, numa avenida onde grandes multinacionais estão presentes. Nessa reunião eu ia lá pra bater a carteira do cara e tentar levantar o dinheiro para o filme. Eu subi até o 12º andar. Uma porta de vidro me separava da recepção e, na hora que eu parei na porta de vidro, a senhora sentada na recepção, sem titubear, muito rapidamente olhou pra mim e disse: "Entregas é ali do outro lado". Isso foi muito chocante pra mim, mas ao mesmo tempo esta é a reação que as pessoas têm. Está num lugar onde você, na concepção delas, não deveria estar. Isto causa um determinado estranhamento.
AC: Ainda!
Jefferson: Ainda causa. Não causa aqui em Berlim, não causa nos EUA, mas no Brasil isso causa um olhar diferenciado.
AC: Não há aí uma contradição, ainda mais agora que o Brasil tem cotas nas universidades, com todo o apoio do governo federal?
Jefferson: No Brasil acontece um grande número de medidas para colocar a sociedade no aspecto da cidadania. A questão das cotas é um caminho interessante. É um paliativo neste momento. Não pode servir como uma ação definitiva. Na verdade a sociedade brasileira é do sexo feminino, imperativamente do sexo feminino. Quando você fala em negro é só quem tem o meu tom de pele. O número de pessoas descendentes de africanos no Brasil é muito grande. Temos esta contradição ainda. Quanto mais você se aproxima do poder, das instâncias de decisão econômica, política, mais branco de olho azul vai ficando o aspecto das pessoas. Se a maioria é do sexo feminino e a maioria é marrom, alguma coisa tem que ser corrigida.
AC: No contexto do processo doloroso do filme, você sofreu algum outro tipo de dificuldade por ser negro?
Jefferson: Acho que há em qualquer momento. No meu caso, e no caso óbvio dos negros brasileiros, tudo se dá através do silêncio. O brasileiro é uma pessoa que tem vergonha de ser racista, mas ele é racista. Ele é preconceituoso com os negros, com os gays, com os nordestinos. É uma coisa muito silenciosa. Toda hora que sou discriminado, sou discriminado no silêncio. Alguém entra numa sala, cumprimenta todos os meus amigos, todos os produtores e pergunta: "Cadê o diretor?" Eu não posso acusá-lo: "Você foi racista ao não me cumprimentar". O máximo que eu posso dizer é "Você não foi educado em nao me cumprimentar". Quando isso se repete muito, isso é racismo. A nossa grande característica é a bunda da mulata. Se exportava banana, afro e mulata". Esta é a grande característica brasileira. Um grande perigo da nossa colonização toda foi que o colonizador disse aos negros que eles eram feios, que não podiam aprender e que não tinham alma. O grande problema é que vários negros acreditaram nisso. Esse é o grande problema: o da auto-estima. Muitas crianças e jovens negros ainda compram esta ideia, ainda assimiliam ser feios. Por isso sempre que eu dou uma entrevista, faço questão que mostrem a minha foto porque, caso contrário, as crianças vão achar que o cara é branco, como um juiz, como um dentista, como um piloto de avião. A figura simbólica do Obama, por exemplo, para as crianças é importantíssima.
AC: Falando em crianca, qual foi a primeira vez que você notou que queria ser cineasta? Existe um momento chave?
Jefferson: O meu pai era metalúrgico e cuidava do clube dos funcionários, organizava futebol, etc. Ele decidiu que deveria ter projeções na quadra. Ele ia na cidade vizinha e chamava uma pessoa, que tinha um projetor. Eu ia no fusca no banco de trás com essa máquina, essa caixa. De repente se esticava o lençol e de repente aparecia tudo aquilo. Eu pensei nesta história há pouco tempo e pensei que estava criando alguma ilusão, um Cinema Paradiso (risos). Como meu pai já faleceu eu fui perguntar para a minha mãe sobre esse tempo e ela confirmou toda a história, deu nome às pessoas. Foi tudo verdade. Esse foi o grande momento na minha vida.
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