Anna Monteiro (e-mail), Leitora do Adoro Cinema - Nota 9:

"Aqui no Brasil, a disputa pelo Oscar deste ano andava morna, com a estréia de filmes óbvios ou chatíssimos que nos deixavam com saudades de outros tempos. Acabou. Finalmente estréia nesta sexta-feira, 16, Traffic e poderemos torcer por um filme realmente bom. Nada de Náufrago, O Tigre e o Dragão ou Gladiador. A torcida tem que ser por Traffic, não apenas como melhor filme, mas pelo menos melhor roteiro, melhor direção e melhor ator.

A história que Traffic conta, do tráfico de drogas nos Estados Unidos a partir do México e a luta para controlá-lo, é manjadíssima e poderia ter sido apelativa, exagerar na violência ou descambar para o maniqueísmo fácil dos poderosos de Washington vencendo os corruptos mexicanos. Mas não. O roteiro de Stephen Gaghan é enxuto, tem ótimos diálogos, trata os personagens como pessoas reais, com problemas concretos e não heróis acima de qualquer suspeita. Ele cumpre a tarefa de revelar uma trama que se passa simultaneamente em Washington, Califórnia e na fronteira do México com os Estados Unidos de forma clara, sem confundir o público nem usar de flashbacks explicativos. Logo na abertura, o filme diz ao que veio e prende a atenção até os créditos finais. O único ponto negativo que eu identificaria é o tratamento dado por policiais a uma importante testemunha contra o cartel de drogas, com descaso e sem a vigilância extremada que a situação pedia. Mas vamos entender como uma licença poética e deixar de lado, afinal é um filme de ficção que precisa de tiros e explosões.

Soderbergh fez uma direção simples, sem os efeitos mirabolantes que Matrix inaugurou e que parece padrão atualmente, e elaborada, onde cada lugar é apresentado através de um filtro diferente, azul para a Washington dos poderosos, cores reais para a Califórnia das drogas e amarelo para o México, dando a sensação do calor desértico. Uma surpresa boa e fato raro em Hollywood é que os personagens mexicanos do filme falam em espanhol, mergulhando o espectador numa realidade quase de documentário, ao contrário do água com açúcar Chocolate, passado numa pequena cidade francesa onde todos falam um inglês impecável, e tantos outros.

O elenco está ajustado, sem exageros, mas Benício Del Toro é a revelação mais que agradável no papel de Javier Rodriguez Rodriguez, policial que, com jogo de cintura, executa seu trabalho ganhando 316 dólares ao mês - quase o equivalente a um policial brasileiro - e não cai no jogo fácil da corrupção. Ele é imbatível, ora bem humorado, ora sofrido, deixa sua marca com talento, mesmo quando não precisa dizer nada. Só com o olhar ou expressão corporal passa seu recado.

Outra surpresa boa é Catherine Zeta Jones interpretando a frágil mulher de um importante chefe de distribuição de drogas. Ela só descobre qual era o verdadeiro trabalho do marido quando ele é preso. Não querendo voltar à vida simplória do começo do casamento e cheia de dívidas, ela assume os negócios da família depois da prisão do marido e negocia diretamente com o chefão do México para ser distribuidora na Califórnia, mesmo grávida de seis meses. Grávida na vida real, inchada de verdade, Catherine não precisa mostrar que é a gostosa da vez e a câmera não precisa explorar suas curvas, dando espaço para uma boa interpretação.

Como história paralela, mas que logo se assume como ponto principal do filme, está o drama do juiz vivido por Michael Douglas, escalado para chefiar a operação de desbaratamento dos cartéis mexicanos que levam a droga para os Estados Unidos. Seria mais um papel de herói como os que ele se acostumou a interpretar, se o juiz não tivesse ele mesmo telhado de vidro em casa. Sua filha de 16 anos está viciada em heroína, apesar de tirar notas excelentes no colégio e ninguém desconfiar até que um amigo sofre de overdose e Michael e sua mulher, interpretada por Amy Irving, caem na real. O vício está sem controle, ela chega a transar com traficante para conseguir um pouco de pó e nada a detém. Se não consegue controlar seu quintal, como vai combater em quintal alheio, ele sabe disso e se vê impotente diante da guerra.

Alternando lugares e apresentando os personagens com agilidade, Traffic vai mostrando a dureza do mundo das drogas, com a corrupção correndo em todos os setores e nos faz ficar com uma dúvida: quem é que vai querer acabar com esse negócio tão lucrativo para todos, americanos e latinos? É uma guerra que BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> parece que nunca vai ter fim."