Felipe Guerra da Cunha (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Impressionante e chocante retrato
do mundo do tráfico de drogas. As 5 indicações foram poucas
para um filme que merece todos os elogios e que deve ser visto por todos. O
excelente diretor Steven Soderbergh contou com um elenco versátil e talentoso
para mostrar com extrema crueza e realidade como é o tráfico de
drogas nos EUA, mas não ficando nada diferente do que acontece no mundo
inteiro.
É simplesmente impactante e ao mesmo tempo comovente
e sincero. A história gira em torno de vários personagens e ao
longo do filme eles vão se encaixando, mostrando que no universo do tráfico
de drogas ninguém está longe e ninguém sai limpo dessa
verdadeira guerra.
Lógico que será difícil a Academia
premiar esse filme com o Oscar de melhor filme, é mais certo ele não
ganhar nenhum prêmio, e as indicações para os membros da
Academia já devem ser um "reconhecimento" à obra-prima
que é este filme. É impossível não sair pensando
sobre o filme, sobre o tema e o que fazer para resolver um dos mais importantes
problemas que vem atormentando a muito tempo a humanidade.
O que mais fica marcado no filme é que não
existem muita cenas escatológicas de violência sem sentindo, têm
algumas, mas estão muito bem encaixadas. Mas o filme impressiona e choca
pelo tema em si e como ele é mostrado na tela, de forma coerente e seca.
Os filtros usados nas câmeras são muito bem executados e deixam
o ambiente mais impactante. Os atores estão perfeitos em seus papéis,
com destaque para a soberba interpretação de Benicio del Toro.
Ele faz um policial "honesto" no meio de tanta corrupção,
leva uma humanidade ao personagem, bem diferente dos clichês de filmes
policiais que Hollywood produz. A direção de Soderbergh é
precisa e leve, com uma sinceridade e respeito ao tema, foge dos clichês
e não está interessado em mostrar culpados ou inocentes, nem muito
menos em mostrar que o "bem" sempre vence o "mal" e que
os EUA ganham tudo com um exército de "um homem só",
onde é só fornecer uma penca de armas para este "herói",
que o resto ele sabe fazer.
O filme merecia mais pelo menos umas 3 indicações
mas, como o tráfico de drogas, o Oscar já tem o seu "mercado"
garantido e não precisa premiar o que realmente é o melhor. Num
ano em que fomos brindados com a obra-prima "O Tigre e o Dragão",
"Traffic" veio para mostrar que o cinema pode ser uma diversão,
mas que serve também como um retrato da sociedade mundial em que vivemos,
que devemos cada um entrar na guerra contra o comércio de drogas, pois
não existem inocentes e sim somos todos culpados, cada um tem a sua parcela
de culpa. Infelizmente o filme teve a censura de 18 anos, quando pelo menos
deveria ser 12 anos, pois "Traffic" é um filme educativo, que
para a geração que está entrando na adolescência
e que vai ser o futuro do nosso país entender que a realidade é
cruel e que ninguém está livre do problema, e que músicas
com incentivo à violência e ao sexo, mesmo sendo metafóricas,
como o funk e o rap, são mais um atratativo que o "tráfico"
usa para ir aumentando os seus tentáculos e conseguindo mais e mais consumidores
em todo mundo.
Fica um apelo a todos os pais e educadores desse país,
que quando o filme sair em vídeo que estes os mostrem para todos os adoslecentes.
Torço para que pelo menos alguns se sintam sensibilizados ao final do
filme, em que a cena final é digna de ficar marcada na nossa cabeça
por muito tempo, e que assim como as crianças do México precisam
ter a liberdade e o espaço para jogar baseball, as do Brasil querem jogar
futebol e as dos EUA basquete e as do restante do mundo também querem
jogar e brincar e crescer livremente. Pois ao sair da sala de projeção,
já muito emocionado, e ver crianças brincando num parque de diversão
"indoor", em alguns brinquedos eletrônicos, foi difícil
ficar indiferente e segurar a emoção. Tive vontade de ao sair
do shopping explodir a primeira boca de fumo de um morro, mas me restou chorar
calado e agradecer por este cruel, seco, mas belo filme que é "Traffic"."