Henrique Miura (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:

""Tigerland - A Caminho da Guerra" é outro filme subestimado pelo público do ótimo diretor Joel Schumacher, que depois de apanhar da crítica com a obra-prima "8MM" e com o fraco "Ninguém é Perfeito", ele finalmente conseguiu o devido respeito da crítica, porém o público continua a não dar atenção a esse diretor. A Fox não lançou o filme nos cinemas nacionais e só foi distribuir o filme diretamente para vídeo/DVD. Uma pena, pois "Tigerland" traz uma bonita história de amizade, superação e uma pesada crítica ao exercito americano. Schumacher acerta mais uma vez no lado humano dos personagens, onde cada um consegue uma identificação com o público. As seqüências de treinamento são bem feitas e chocantes, e os diálogos inteligentes e criativos do roteiro conseguem manter o espectador atento durante os 100 minutos de duração, que passam como um piscar de olhos.

O filme narra a história de Jim (Matthew Davis), um jovem soldado em treinamento para a Guerra do Vietnã, que visa fazer de sua experiência na guerra futuramente um livro. Porém, em seu pelotão, ele conhece Bozz (Colin Farrell), um soldado que foge das regras do exercito, não tem respeito pelos comandantes e vira um verdadeiro anti-herói americano. Jim e Bozz começam uma amizade sincera e humana. Bozz, conhecendo as regras do exercito, começa então a ajudar aqueles que não querem fazer mais parte do conjunto a saírem. O pesado treinamento começa então a ganhar mais força e Jim e Bozz estão a caminho de Tigerland, que é o último passo para chegar até a Guerra.

"Tigerland" é um filme de valores humanos. Conforme os soldados vão sendo mal tratados por seus "superiores", o protagonista cria um tipo de desafio, sempre visando ajudar aquele que foi humilhado ou rebaixado por um comandante. Ele ajuda um jovem de 19 anos que tem 4 filhos a sair do exercito, assim como ajuda também um soldado que foi humilhado e torturado a sair do local. Contudo, seus feitos e sua rejeição às regras despertam um sentimento de raiva em um soldado, que não perderia a chance de matá-lo. O protagonista, mesmo tendo chances de fugir, procura ajudar o amigo que está mal. No final, uma bela mensagem é passada com transparência e humanização. Às vezes, ajudar aos outros satisfaz mais do que ajudar a si mesmo.

A produção é modesta e barata, mas o capricho é visível. A fotografia de Matthew Libatique tem passagens maravilhosas. Ele usa alguns tons azulados, outros amarelados, dando uma sensação de calor e cansaço. Os chuviscos comuns em filmes de guerra também não faltam, dando uma impressão de realismo. Por vezes até parecendo um documentário. O trabalho de Joel Schumacher também merece palmas nesse quesito, pois o modo com que ele utiliza uma câmera é fascinante e mesmo com poucos recursos a humildade do projeto é conquistadora. Na parte de produção ainda temos uma boa trilha sonora de Nathan Larson, dando um caráter para a época. Schumacher ainda teve a ousadia em chamar apenas atores desconhecidos e os jovens deram conta do recado. Colin Farrell e Matthew Davis protagonizam interpretações plausíveis, talvez por conseqüência do excelente trabalho de criação do roteiro, que distribui bem as forças dos personagens.

"Tigerland" não é um filme de guerra, mas sim um filme, digamos, sobre os bastidores dela. Como o próprio subtítulo em português sugere, é um filme sobre o caminho para a guerra. Joel Schumacher mais uma vez não teve a recepção merecida. Muitos ainda o julgam por causa do erro cometido no "Batman e Robin", porém seus trabalhos vão muito além de diversão, são filmes sempre profundos e que carregam uma forte carga de realismo. Ele já errou? Claro! Assim como muitos outros grandes diretores. Este "Tigerland" não chega a ser fabuloso como o "8MM", mas se tratando de Guerra do Vietnã é um trabalho dos mais originais, que merece ser descoberto nas locadoras. Uma boa mensagem anti-bélica e anti-militarismo, para ver e guardar no peito."