Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:

"Chegar aqui e dizer que "As Horas" (The Hours) é um filme pré-fabricado para ganhar um punhado de Oscars, é entrar em um território mais do que questionado. Mas, ao assistir o filme, é impossível fugir desse clichê para comentar o filme. Lá estão presentes os maiores elementos para conquistar os velhotes puristas da acadêmia: trilha sonora melosa e arrebatadora cifrada por Philip Glass (o mesmo de "Kundun"), diálogos de efeito pré-fabricados para arrancar lágrimas da platéia, e claro, uma narração em Off para no final, deixar tudo com cara de grandioso, recheado de profundidade e reflexão. Tudo certinho, burocraticamente inseridos por Stephen Daldry. Não que "As Horas" seja um filme BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> ruim, até pelo contrário, é bom. Porém, não deixa de ser uma obra decepcionante. Não sei de onde tiraram que Stephen Daldry é um grande diretor. Seu "Billy Elliot" era um filme vencedor por causa de seu descompromisso, seu encanto e sua forma simplista de emocionar. Não existia nada estupendo no filme, e muito menos na direção - mas logo veio a midia e tranformou o cineasta em um gênio instantâneo. Em "As Horas", o diretor só cumpre o aluguel (definitivamente, não é uma visão particular), realizando um cinema técnico, que tem sua emoção calculada, com estratégias para mexer com os sentimentos do espectador. Está adaptação do livro homônimo de Michael Cunningham (que inclusive ganhou o prêmio Pulitzer), conta a história de três mulheres, que carregam em suas vidas, muita coisa em comum e entrelaçadas. A narradora é Virginia Woolf (Nicole Kidman), a escritora de "Mrs. Dalloway" (ou se preferir "A Senhora Dalloway"), uma mulher infeliz, amargurada, que vive sob ajuda médica por causa de suas tendências suicídas. Paralelamente, Laura Brown (Julianne Moore) é uma mulher que vive na década de 50, e é igualmente infeliz - e pensa na auto-destruição também. Em 2001 temos a terceira parte, com Clarissa Vaughn (Meryl Streep) cuidando de um poeta portador do vírus H.I.V, chamado Richard, interpretado com extrema competência por Ed Harris. É normal ao final de "As Horas", você ficar com a sensação de que não entendeu algo. O filme durante boa parte, é sútil e implícito. Até aí, tudo bem. Mas, de uma hora para outra (digo, quando ele quer fechar seu ciclo e suas pretensões), muda essa postura. O elo de ligação direta entre as histórias é fácil, busca soluções que acabam dando o filme uma cara de esquemático, parecendo uma daquelas fórmulas manjadíssimas de Hollywood. Por isso, você acaba ficando sem saber ao certo se realmente capturou a alma do filme. Se no início o filme sugeria um tipo de ligação entre as histórias, para finalizar ele resolve inserir um novo, onde repensando o começo, acabamos assistindo uma obra de ficção sem grandes atrativos. Por isso, a única coisa que transforma "As Horas" em um bom filme, é seu elenco de botar inveja em qualquer um. As três peças centrais estão exepcionais: Nicole Kidman, atuando debaixo de uma pesadíssima maquiagem reaperfeiçoada por efeitos, empresta para sra. Woolf uma força impressionante; nivelada com a parceira pela melhor atuação, temos Julianne Moore impecável na pele de uma mãe comum, que vive de dilemas e situações dificeis - transparecendo humanidade e sofrimento nos olhares e em gestos. A brilhante Meryl Streep acaba ficando meio deslocada por causa das excelentes atuações das parceiras e por causa do extraordinário elenco que cerca a sua trama (com Harris roubando a cena), mas também está em uma atuação digníssima. Mas final, o que "As Horas" tem para falar, transmitir, aprofundar-se? Enfim, qual é a idéia e as discussões do filme? Esse é um detalhe a ser respondido também pela ligação das histórias, o filme é sobre aquilo que existe fragmentado em todas as tramas. Ou seja, solidão, infelicidade, doença (Aids e Depressão), homossexualismo (nas três tramas as personagens beijam outra mulher na boca, com sentimentos incognitos), e principalmente a morte. O filme parece ter a inteção de falar sobre a morte, levantar discussões existenciais. Porém, só consegue ser feliz em sua análise em uma estratégia batida, com a personagem em diálogos explicando tudo sobre a morte, o que ela significa para a pessoa que morreu e para as pessoas que ficaram. Das 9 e exageradas indicações que o filme recebeu ao Oscar, merece levar três. Um de Melhor Atriz para Nicole Kidman, que depois que saiu da sombra de Tom Cruise, vem demonstrando um talento impressionante, e outro para Ed Harris de Melhor Coadjuvante (apesar de Cooper estar muito bem em "Adaptação", o que irá ser uma briga feia), que nas poucas vezes que aparece, acaba conseguindo um dos melhores momentos do filme; e por último, Julianne Moore, que deve levar de Coadjuvante (apesar de ser tão principal quanto a Nicole), desbancando Streep, que não foi indicada por "As Horas", mas sim por "Adaptação", mas curiosamente, ela está melhor aqui do que no esquisito filme de Kaufman/Jonze. Nas outas seis indicações (filme, diretor, figurino, edição, trilha sonora e roteiro original), o filme apesar de competente em algumas, não merece levar - principalmente filme, onde é, até onde os que vi, o pior candidato."