Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 4:

""Spider" intriga sua mente. Suga ela por aproximadamente 100 minutos. Não existe nenhuma maneira de não se sentir preso na trama, já que ela é embolada, quase sem sentido. Como dizem, é a mente de um esquizofrênico em celulóide. Querer entendê-la de relance, é uma perda de tempo. Porém, "Spider" fracassa quando o espectador percebe que sua atenção, sua concentração, sua implicação com pequenos detalhes, foram totalmente descabidos. Você acompanha uma trama interessante, enquanto é um enigma, mas quando se desvenda e se descobre sobre o que realmente era o filme; fica aquela desagradável sensação de que não entendeu o filme. Na verdade, pouco tem a se entender em "Spider". No final, é tudo muito claro, simples e convencional. Todas aquelas esquisitices, são explicadas por uma palavra, no máximo. Apesar de complexo, "Spider" não é confuso. Você consegue acompanhar a trama com facilidade, prestando atenção em detalhes, que em sua mente, podem ser fundamentais para um desfecho surpreendente; desfecho, que por acaso, derruba suas atenção e menospreza a profundidade. O "desafie sua mente" do sub-título nacional, fica apontado para cima até os 20 minutos finais - até que o filme demonstra com clareza que o "desafio da mente", foi apenas um truque para intrigá-lo falsamente. O problema de "Spider" não é no filme. É em você. Quem acaba sendo o culpado pelo descontentamento com o filme, é o próprio espectador. Conforme você acompanha a história, vai criando diversas possibilidades sinistras e bizarras, além de esperar algo que faça com que você realmente possa matutar no cinema. Isso, porém, não acontece. As estranhezas, os personagens duplos à lá David Lynch (Miranda Richardson, por exemplo, aparece na pele de três personagens diferentes), e os fatos chaves do filme - são sempre explicados na esquizofrenia do personagem. Cronenberg não sabe encontrar outra explicação para os fatos que ocorrem, e acaba simplificando tudo. Mesmo você se contentado com o "enigma da vida" (o personagem investiga sua infância com afinco para saber o que o levou até aquela situação psicologicamente desfavorável), ficando intrigado com as situações que vão sendo colocadas (assassinato, traição, anotações, e diversos detalhes minuciosos) e se interessando cada vez mais com a trama, tudo acaba não funcionando ao final de "Spider". As anotações non-sense e entendíveis somente ao personagem (que lhe instiga e lhe faz pensar), acaba de uma hora para outra, sendo amassada e jogada no lixo. E nisso entra novamente o fator chave que prejudica o filme: é tudo tão comum para uma trama tão complexa, que você acaba ficando com a ingrata sensação de que perdeu algum detalhe, e não entendeu. Seja como for, é sempre gratificante ver Ralph Fiennes em cena. O ator que sabe equilibrar muito bem trabalhos comerciais ("Dragão Vermelho", "A Lista de Schindler", "O Paciente Inglês") com fitas bem alternativas ("Paixão Proibida", "Oscar de Lucinda", "Sunshine"), vem cada vez mais conquistado público. Não é por menos, seu talento é fundamental para que "Spider" funcione enquanto tem algo interessante e revelador para apresentar. Seu personagem é um enigma; esquizofrênico, sua memória é um verdadeiro quebra-cabeça, que vai sendo montando e vai aos poucos apresentando um lado negro; e Fiennes explora bem essa mutação. "Spider" só tem outros dois atores que recebem uma atenção secundária, Miranda Richardson bem em cena, e Gabriel Byrne (que não faz um grande filme desde "Os Suspeitos"), mostrando que ainda lhe resta um tiquinho de talento, apesar de cair no clichê de seu personagem."