Márcio Aurélio Landoski, Leitor do
Adoro Cinema - Nota 10:
""Um sonho de liberdade"
retrata com bastante sensibilidade o drama de pessoas que vêem tolhido
seu direito de ir e vir, enfocando não apenas o cerne da película,
a saber, o recolhimento ao cárcere de uma pessoa inocente. Diz também
com a complexa situação do ser humano que comete uma falha, um
tropeço, e que por conta disso se vê tantas vezes vilipendiado
em sua dignidade em um grau muito maior daquele que a pena deveria se propôr
a punir. Há também a questão da dificuldade de o egresso
encontrar guarida no mercado de trabalho, posto que fica rotulado com o carimbo
da delinquência,como se seu erro passado representasse uma mácula
indelével em seu currículo. Mas, amalgamando todas essas problemáticas
e transcendendo as análises parciais e compartimentais do filme, ejacta-se
sua visão de mensagem: a própria existência humana, seus
caminhos, seu progresso, suas dúvidas, seus porquês, o seu grande
sonho de ser efetiva e exuberantemente livre, sem julgamentos, freios, punições
ou imperatividades. Tudo isso como corolário de uma vida mais decente,
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solidária e priorizadora dos valores e atitudes do dia-a-dia verdadeiramente
catalizadores da prevalecência do "ser" sobre o "ter".
Liberdade como significação maior da autodisciplina e do respeito
ao espaço do outro. Liberdade como o despertar interno da naturalidade
de vivermos junto de nossos parceiros de jornada de modo harmônico e respeitador.
Enfim, liberdade com convivência entre pessoas que compartilham a mesma
casa e que zelam por ela e pelos que nela habitam. O filme realmente capta essa
necessidade humana de sonhar com uma maneira diferente de produzir a realidade,
de sermos atores que interpretam um novo roteiro, cuja tradução
mais feliz encontra respaldo na palavra "liberdade". Bem assim, apõe
de forma soberba a capacidade do ser humano de romper os obstáculos,
superar as dificuldades, rumo ao seu destino final e representação
máximo (veja-se o esforço do personagem de Tim Robbins para escapar
da cela, cavando diuturnamente um túnel, valendo-se tão-só
de uma modesta e a princípio inidônea colher de sopa. Para esconder
o buraco na parede, afixou um pôster gigante de uma diva de Hollywood
- também significante e representador dos desejos humanos). Para que
não se alongue, cabe fazer referência, pelo menos, à cena
em que Andy Dufresne (Tim Robbins), escapando da vigilância contundente
dos guardas, insere um vinil de Mozart na radiola do presídio e exterioriza
o som para o pátio em que os presidiários restavam quando do "banho
de sol". O diretor demonstrou toda sua sensibilidade, produzindo um momento
de rara magia e encantamento, o qual consubstancia de forma irrepreensível
a essência dessa obra de arte: o desejo candente de sermos pessoas melhores
e, acima de tudo, soberanamente livres... Em tempo: Morgan Freeman, como de
hábito, acima de qualquer comentário."