Renato Rosatti (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:
"A Ficção Científica
é um gênero fascinante, seja na literatura, quadrinhos ou cinema.
E é através dos filmes que a FC torna-se ainda mais impressionante,
devido em parte aos fantásticos recursos tecnológicos que o cinema
dispõe atualmente.
Desde as primeiras décadas deste século,
com o mudo Metropolis (26), de Fritz Lang, passando pelos nostálgicos
clássicos dos anos 50 e 60 como O Dia em que a Terra Parou (51), O Planeta
Proibido (56), 2001: Uma Odisséia no Espaço (68) e O Planeta dos
Macacos (68), e pelas divertidas produções "B" com os
inesquecíveis "monstros de olhos esbugalhados" e a paranóia
de invasão alienígena, chegando às décadas de 70
e 80 e o início dos grandes efeitos especiais com Guerra nas Estrelas
(77) e Blade Runner (82), e culminando agora nos anos 90, caracterizado por
filmes fracos em roteiros muito previsíveis, mas com muita diversão
e entretenimento.
O Soldado do Futuro (Soldier, 1998), dirigido por Paul Anderson,
responsável também pelo ótimo O Enigma do Horizonte (97),
estreou nos cinemas brasileiros em 5 de fevereiro último e é um
típico exemplo da onda de filmes comerciais, com histórias já
vistas antes, dessa vez explorando o militarismo num futuro próximo com
guerras absurdas, muita violência, mas também com belas imagens
e principalmente muita diversão.
Assim como no também bélico e divertido Tropas Estelares (97),
de Paul Verhoeven, O Soldado do Futuro mostra basicamente jovens soldados que
se preparam para guerras (é curioso como o ser humano não consegue
entender que elas são o maior exemplo de sua irracionalidade e quase
sempre se mostra o futuro onde persistem as batalhas sangrentas). A diferença
é que desta vez o inimigo não é alienígena, como
os insetos gigantes da obra de Verhoeven, e sim os seus próprios semelhantes
em diferentes guerras ao longo dos anos, dentro do planeta e se estendendo ao
espaço sideral.
O filme mostra um projeto secreto militar onde em 1996,
alguns bebês do sexo masculino são escolhidos numa maternidade
para participarem de um rígido treinamento de infantaria até completarem
os 17 anos de idade, já no ano 2013. Eles tornam-se soldados condicionados
exclusivamente para guerrear e enfrentar as mais diversas situações
em campos de batalha.
Utilizando lavagem cerebral durante todo o treinamento,
obrigando os escolhidos, enquanto crianças ainda, a presenciarem cenas
de pura violência, como a luta mortal entre cachorros e um javali selvagem,
e através da eliminação simples dos mais fracos fisicamente,
o projeto do Exército tinha por objetivo formar soldados obedientes e
isentos de emoções para se obter o máximo de sucesso nos
futuros e inúmeros confrontos bélicos na Terra e em outros planetas.
E para conseguir isto, utilizava-se de mensagens subliminares, incutindo nas
mentes dos soldados a total obediência e disciplina ao Exército.
Após várias guerras conquistadas, um soldado
se sobressai pela sua performance no campo de batalha. Ele é o sargento
Todd, interpretado por Kurt Russell, de outros filmes de ficção
científica como Fuga de Nova York (81), O Enigma de Outro Mundo (82)
e Fuga de Los Angeles (97). Russell lembra muito a truculência de atores
como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Dolph Lundgren, num papel onde
quase não fala e age como um robô programado para matar. E é
interessante o fato como vários atores acabaram se sobressaindo no cinema
atual e obtendo sucesso em suas carreiras interpretando personagens quase mudos
e "brucutus" como psicopatas, serial killers ou super soldados.
O projeto militar de treinamento dos soldados teve muito
êxito até aparecerem, mais de quarenta anos de guerras depois,
uma nova legião de super combatentes, agora criados por manipulação
genética do DNA, eliminando os eventuais defeitos e sendo soldados ainda
mais fortes e assassinos. O sargento Todd e seus companheiros acabam sendo considerados
obsoletos e são substituídos, com o sargento, após uma
derrota num confronto com um dos novos soldados (Jason Scott Lee), sendo considerado
supostamente morto e jogado num inexpressivo planeta de depósito de lixo
(naves, equipamento bélico ultrapassado e sucatas em geral).
Lá, ele reanima-se e entra em contato com uma comunidade de seres humanos
refugiados, que viviam clandestinamente no planeta, após uma queda da
nave que os transportava para outro planeta mais saudável que a maltratada
Terra.
Como a nova equipe de soldados do futuro necessitava de
exercícios militares, foi escolhido obviamente, o pobre planeta depósito
de lixo para eles descarregarem sua artilharia, desprezando o fato da existência
de civis inocentes no local. E esta é a oportunidade para o sargento
Todd sedento de vingança, combater sozinho uma equipe de soldados fortemente
armados, tornando-se um herói e provando ainda sua superioridade perante
os seus supostos substitutos artificiais.
O ator Kurt Russell faz muito bem a sua parte, sempre com
um semblante sério e de soldado programado para destruir o inimigo, não
pensando ou sentindo nada, ou quase nada, pois acaba confessando suas fraquezas
para uma das refugiadas (Connie Nielsen), com um sentimento de medo ao longo
da trajetória de sua violenta vida, aliado, é claro, à
forte e tão respeitada disciplina e hierarquia militar.
O Soldado do Futuro é o típico exemplo do
cinema de ficção científica atual, onde são privilegiados
os efeitos especiais, mesclados com muita ação e violência,
em detrimento de melhores roteiros e situações. É um gênero
carente de bons filmes ao longo dessa década de 90, constatado pelas
inúmeras refilmagens de antigos clássicos e previsibilidade das
produções, excetuando-se poucas obras como Os Doze Macacos (95),
Contato (97), Gattaca (97) e O Show de Truman (98).
Mas, esse filme cumpre a sua função de entreter
o público e é diversão garantida com belas imagens futuristas
em uma boa sessão de cinema."