Anna Monteiro (e-mail), Leitora do Adoro Cinema - Nota 5:

"Um equívoco. É esse o pensamento que temos já na primeira meia hora do filme de Stephen Hopkins, lá pelo quinto ou sexto flashback. E já que é um equívoco, o jeito é escorregar na cadeira e agüentar os 80 minutos restantes. Surpreendeu-me a crítica elogiar tanto Sob Suspeita, tratá-lo como um embate magnífico entre Morgan Freeman e Gene Hackman. Os dois estão perfeitos, isso é um fato, assim como é fato a beleza de Mônica Belucci. E mais nada.

Um filme se sustenta em três bases: um bom roteiro, uma boa direção e bons atores. Sob Suspeita tem a pretensão de ser um grande filme se sustentando apenas no talento de Freeman e Hackman. Mesmo sendo os dois grandes atores, é pouco.

O roteiro, escrito por Tom Provost e W. Peter Iliff, a partir do livro Brainwash, de
John Wainwright, e da peça Garde A Vue, de Claude Miller, Jean Herman e Michel Audiard, é fraco, não estabelece começo, meio e fim, não encontra seu ponto de virada e termina sem dizer ao que veio, mesmo sem criar qualquer confusão na mente do espectador. Porque há filmes confusos, que nos deixam sem entender a história que se quis contar. Esse não. Ele tenta contar uma história interessante, a dos poderosos que guardam seus esqueletos trancados nos armários, tendo como pano de fundo a pobreza de Porto Rico e a total competência e falta de corrupção dos funcionários do Estado. Esses dois últimos elementos, talvez, nos causem muita estranheza por estarmos tão acostumados - na ficção e na vida real - à lama que toma conta da política, das vidas pública e empresarial. Entretanto, os policiais de Sob Suspeita e o próprio Secretário de Segurança soam estranhos, quase alienígenas num mundo onde se sabe, desde o jardim de infância, que o poder pende para o mais forte.


Além disso, tecnicamente, Sob Suspeita abusa de 'criatividade' ao contar como o milionário americano Henry Hearst, advogado iminente, torna-se suspeito de dois crimes bárbaros - o estupro de meninas de 12, 13 anos, praticados em San Juan de Porto Rico. O depoimento de Hearst ocorre numa noite de festa na cidade, pouco antes dele fazer um discurso, quando irá doar uma quantia razoável para as vítimas de um furacão e instigar outros milionários a terem o mesmo gesto. Embora comece o depoimento negando os fatos, aos poucos vai caindo numa teia de contradições instigado pelo detetive Victor Benezet, que fez uma ótima investigação. E enquanto as contradições são apresentadas, sua vida pessoal vai se desmantelando, tal e qual um castelo de areia. A história parece ótima, não? Mas se tornou uma punição para o espectador. O filme é longo demais, 110 minutos, abusa - como já falei - de flashbacks pretensiosos - recurso que cansou pela repetição, tendo o detetive Benezet onipresente, vigiando tudo, atento aos mínimos detalhes, quase num jogo de adivinhação -- e que só cumprem um de seus papéis: mostrar um roteirista preguiçoso para dar conta da difícil tarefa que é dar sustentação a um filme, criar perfis psicológicos interessantes e contar uma história criativamente. São situações que poderiam ser resolvidas BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> com diálogos inteligentes, mas ao optar pelas cenas explícitas, talvez para deixar o filme respirar, já que se passa numa claustrofóbica delegacia, o roteirista facilita seu trabalho e entedia o espectador, que fica num vai-e-volta sem fim.

Hopkins optou, ainda, por uma fotografia de cores fortes para denunciar a latinidade e a alegria dos trópicos e uma câmera que atravessa não só a cidade mas também os personagens, criando uma estranha proximidade com a platéia. Mas essa proximidade vai embora logo no começo e o que fica é uma sensação de estranheza, de 'o que é que eu estou fazendo aqui?', justamente porque a fraqueza do texto não se complementa da força das imagens.

Roteirista e diretor, aliás, parecem ter escolhido o ar de modernidade para esse filme para diferenciá-lo de uma peça, que é o que Sob Suspeita é, no fundo. Tira-se o vai-e-volta ao passado para explicar as curvas da história e temos uma peça teatral, passada numa sala de delegacia, onde um policial e um detetive esclarecem, através de um depoimento, crimes bárbaros. Ele tinha que se basear em texto. Mas com mão fraca para isso, não se alcançou uma excelência em diálogos e o filme fica perdido e, infelizmente, chato.

Nada contra peças teatrais filmadas. Festim Diabólico, de Hitchcock, pode ser considerada uma, pois se passa numa sala, pouco antes de um jantar, com poucos atores, e em seqüências sem cortes. Mas Hitchcock sabia filmar como ninguém e nenhum filme dele podia ser ancorado em atores. Antes de tudo, eram filmes de Hitchcock, mesmo com Gary Cooper, James Stewart, Grace Kelly, etc... Buñuel fazia a mesma coisa. Anjo Exterminador também se passa numa sala, onde ninguém consegue, pelos mais diversos motivos, ir embora. Mas o filme se sustenta em diálogos. E temos vários outros exemplos que não temos tempos para citar.

O fato é que Hopkins abusou de clichês, do começo ao fim, que tentam dar um ar moderninho e criativo ao filme, mas que jamais o alçarão à categoria de cult, como parece ser sua intenção. No fundo, Sob Suspeita é um ótimo pretexto para se alugar uma fita - qualquer uma de Hitchcock, por exemplo - e aprender como se fazia cinema antigamente, sem arrogância e pretensão."