Fábio Luiz Rockemback (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:
"O principal motivo para escrever foi, inicialmente,
a crítica escrita por Renato Martins. Quanta falta de cultura ou, melhor,
quanta falta de "abertura". Conheço críticos que gostam
de falar de cinema como se fossem os donos da verdade, e inacreditavelmente
criticam um filme de Spielberg esperando encontrar o conteúdo de um Godard.
Renato Martins deveria apagar a crítica feita a "O Senhor dos Anéis"
de seu currículo por um simples fato: ignora a obra de Tolkien. Se conhece
ou não não sei, mas escreve coisas inaceitáveis para quem
quer criticar um filme baseado numa obra. A maior prova disso é que sempre
que se refere ao filme fala de RPG. Esqueça RPG, sr. Renato Martins.
Fale da obra. RPG não tem nada a ver com Tolkien. Bebe da fonte e deve
sua existência à obra, é verdade, mas esqueça o RPG
na hora de analisar o filme.
Falar que os personagens estão num game porque apenas
enfrentam inimigos um após o outro é ignorância pura. É
simplesmente isso que ocorre no livro de Tolkien. A grande diferença
é que contando com 1200 páginas, um escritor tem mais condições
de esclarecer ao leitor todos os fatos por trás da vida dos personagens,
todas as nuances que envolvem a história. Fizesse isso e Peter Jackson
teria um filme de no mínimo seis horas. Aceite que o filme trata da aventura
de um grupo formado para destruir um anel, que precisa passar por terras infestadas
de inimigos, é caçado por eles e precisa lutar para sobreviver.
Esse é o enredo. Não busque encontrar mais do que existe na adaptação,
porque isso não é literatura. Não busque encontrar a profundidade
de Godard na adaptação, porque não se pretende criar um
filme inimista ou um drama. É uma AVENTURA, com todas as letras, como
tem sido desde que a obra foi lançada.
Caro Sr. Renato, fale das terras sombrias de MORDOR, não
de Gondor, reino do qual Aragorn é herdeiro. Quanto às cenas de
morte, esperava o quê, sr. Renato? Se um amigo morresse, você diria
simplesmente. "Ok, vamos lá. Valeu chapa, foi bom te conhecer. Vamos
embora"? Os personagens choram sim, e não há nada mais natural
e real do que isso. E quanto ao seu preconceito em relação à
amizade de Frodo e Sam, deve ser algum distúrbio de natureza homossexual
mal resolvido, de achar que não pode haver amizade entre dois homens,
sem falar que essa amizade é mencionada em todo o livro e é crucial
para o sucesso da missão de ambos. Isso não vale a pena nem ser
respondido. Que tipo de crítico de cinema avalia um filme falando de
como ele não gostou do tom homosexual dos personagens? Isso é
análise de cinema, sr Renato Martins?
Quanto à maneira como deve ser o filme, sua opinião
é contraditória. "O filme deve ser explicativo, representativo
e não hermético". Meu caro crítico, se eu quiser fazer
um filme, estaria pouco me lixando para o que você acha de deve ser um
filme. Para alguns, cinema é diversão. Para outros, cinema deve
ter obrigação social. Para alguns, uma adaptação
deve ser feita para todos, independente de isto ofuscar pontos da obra. Para
outros, deve ser fiel o que a originou, independente de quem não tenha
lido ou não entenda. Alguns defendem mais pontos de vista. Resumindo,
questões de gosto. Por favor, pelo bem de sua profissão, não
misture questões pessoais de apreciação na avaliação,
principalmente, não ponha em questão "o que deve ser um filme",
porque estará sozinho na sua empreitada, uma vez que num grupo de 10
pessoas, haverá pelo menos 8 opiniões diferentes sobre o papel
de um filme perante seu público. E por favor, quando analisar um filme
baseado numa obra, principalmente nesse caso, conheça a fonte antes de
falar bobagens, não busque encontrar no filme conteúdo estranho
a ele (não busque aventura num drama ou intimismo numa aventura), aceite
sua proposta e avalie-o pelo que ele pretende passar ao público (analise
uma aventura como uma aventura, resumindo) e seja crítico. Como disse
antes, que crítico de respeito colocaria em seu filme uma avaliação
a respeito da homosexualidade dos personagens?
O sr. está perdendo o crédito na profissão
que escolheu, Sr. Renato Martins. Me parece, claramente, que não sabe
mais criticar cinema sem falar bobagens ou comparar os produtos, esquecendo
que cada filme tem vida e proposta próprias. E "O Senhor dos Anéis",
nesse caso, tem uma vida própria há mais de 50 anos, separada
do RPG. A maneira como mencionou RPG em sua crítica foi particularmente
irritante para todos, tenho certeza. Sinceramente."