Carlos Massari (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Em
1954 o inglês J.R.R Tolkien publicou um livro que fazia parte de algo
que iria mudar o modo de pensar e ver o mundo de pessoas em diversos locais.
Esse livro era "A Sociedade do Anel", primeira parte da fantástica
trilogia "O Senhor dos Anéis". A obra foi cultuada e eleita
a melhor escrita em toda a duração do século XX, inspirando
diversos outros autores a criarem ficções, se tornando o pai de
toda a fantasia, desde "Guerra nas Estrelas" até "Harry
Potter". Pouco tempo atrás, foi anunciado que seria feito um filme
baseado na trilogia. O projeto de Peter Jackson foi levado adiante pela New
Line, que ofereceu ao cineasta nada menos que US$ 300 milhões para transformar
a adaptação em uma obra-prima ao estilo do livro.
Sucesso absoluto de público
em sua primeira semana pelo mundo, chegou à América Latina (conseqüentemente
ao Brasil) com uma semana de atraso, na absurda data de 1 de janeiro. E isso
não prejudicou em nada o desempenho do filme por aqui. Eu mesmo enfrentei
uma fila quilométrica para vê-lo, ficando até debaixo de
chuva.
Mas todos os esforços que
uma pessoa pode fazer para assistir "O Senhor dos Anéis - A Sociedade
do Anel" são válidos. Peter Jackson transferiu absolutamente
toda a atmosfera criada por Tolkien para as telas. O filme é elegante
ao mesmo tempo que é sombrio, sendo que essas mesmas características
foram atribuídas à obra. Tudo funciona com o real valor de uma
adaptação, sem medo de cortar ou incluir coisas que podem prejudicar
o resultado da projeção.
A história é conhecida
pela maioria, mas vale uma revisada: ela gira em torno de Frodo Baggins, um
hobbit (um dos seres habitantes da Terra Média, com estatura inferior
aos anões, pés grandes e peludos), que recebe um anel mágico
de seu tio Bilbo, que, por sua vez, o ganhou em um jogo de charadas com a criatura
Gollum. Com a ajuda do mago Gandalf, Frodo descobre que este anel é nada
menos que o Um Anel, forjado nas profundezas de Mordor, a terra do mal, que
dá aquele que o controla o poder de governar o mundo apenas para o mal.
Então eles chegam a conclusão de que o anel deve ser destruído
e o único modo disso ser feito é jogar o anel nas chamas da Montanha
da Perdição, que fica na terra de Mordor. Então se forma
a Sociedade do Anel, que intitula este primeiro capítulo. Frodo, acompanhado
de Sam, Meriadoc e Peregrin, três de seus amigos hobbits, Gandalf, Legolas
representando os elfos, Gimli representando os anões, Aragorn e Boromir
representando os humanos.
Isso é apenas uma pequena
parte da história, que foi brilhantemente adaptada para as telas. Sendo
fã dos livros, garanto que nenhuma das mudanças é radical.
Personagens secundários como Tom Bombadil e Glorfindel são excluídos
para a ampliação da participação de Arwen. Algumas
partes foram cortadas, mas nada que prejudique a integridade da obra. Tudo mantendo
a seqüência de fatos de um modo que facilita o entendimento de quem
não leu o livro, fazendo com que o filme se torne agradável a
todos.
Para os estudiosos mais assíduos,
as modificações podem parecer de mal gosto, mas era impossível
retratar o conteúdo da mesma maneira. Então, como já disse
no parágrafo anterior, tudo é narrado de um modo que o novo espectador
entende. Apenas alguns detalhes, como o Olho Sem Pálpebra, podem passar
desapercebidos. Mesmo com os cortes a projeção chega aos 178 minutos,
lembrando que se trata de uma adaptação e não o livro em
si, como os fãs assíduos parecem querer.
Na direção, Peter Jackson
faz um trabalho primoroso. Sempre com movimentos ousados de câmera, novas
tomadas e jogadas de câmera lenta. Na batalha de Khazad-dûm isso
é mostrado com força. A câmera passa lentamente pelas expressões
faciais dos personagens envolvidos, criando um realismo incrível. Não
podemos esquecer a parte técnica, como a montagem brilhante, direção
de arte que deixa qualquer um de queixo caído. A fotografia é
linda, explorando cenários como o Monte Caradhras com perfeição.
Voltando à direção de arte, o Condado ficou exatamente
da maneira imaginada, Valfenda idem, mas o melhor de tudo é Isengard,
com um dinamismo impressionante. Aliás, impressionante mesmo é
a trilha sonora, com destaque para o tema dos hobbits, dos nazgûl, e da
própria Isengard.
No elenco, quase todos funcionam.
Realmente, a única atuação que não me agradou foi
Cate Blanchett como Galadriel. Ela deixou sua personagem cruel demais para uma
rainha élfica. Encabeçado por Sir Ian McKellen e Elijah Wood,
ambos com magia e emoção em todas as cenas em que aparecem. Ian
Holm como Bilbo também está bem, mas exagera um pouco na parte
de Valfenda. Liv Tyler é uma surpresa, cada vez mais se revela uma grande
atriz. Viggo Mortensen deve crescer muito nos outros episódios, embora
aqui já tenha um estilo clássico que volta a surpreender. Sean
Bean comove com o drama vivido por Boromir, causando um bom apelo emocional,
que por poucas vezes é visto no filme. Sean Astin é outro que
deve crescer nos outros episódios, enquanto Dominic Monaghan e Billy
Boyd ficam encarrregados do lado comédia, contrariando um pouco o livro,
mas tudo bem. Orlando Bloom e John Rhys-Davies também levam seus personagens
com carisma, embora o segundo esteja encoberto por uma maquiagem genial. Tão
genial quanto a dos orcs.
Voltando para aquela parte do apelo
emocional, vale lembrar que o filme é carregado para o lado aventura,
e não para o drama. Mesmo assim, na despedida de Bilbo ou nas quedas
de Gandalf e Boromir, esta emoção funciona, levando à tona
aquilo que o livro deixa. Nas batalhas, todos ficamos apreensivos. Isto é
outra coisa que deve crescer nos outros episódios da série.
Conclusão: "A Sociedade
do Anel" consegue chegar muito perto do nível do livro. Nada o prejudica
com força e ele segue intacto por toda a projeção. Tudo
o que o transforma em um dos melhores filmes de 2001, talvez o melhor, junto
com o musical "Moulin Rouge". Para quem não leu o livro, a
espectativa de ver como a históia continua e a sensação
de conhecer a ficção mais brilhante e que originou todas as outras.
Para quem já leu o livro, a sensação de ver sua imaginação
se tornar realidade com brilho e a espera para ver personagens como Barbárvore
e Laracna nas telas. Para ambos, o gosto de ver o épico imortal das páginas
se transformar no épico imortal das telas."