Wesley de Castro, Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:

"Reino de Fogo (‘Reign of Fire’) EUA/Irlanda/ Inglaterra, 2002. Dir.: RobBowman A abertura é realmente empolgante: por detrás de uma revoada de pombos, surge o pequeno Quinn. Os créditos iniciais acompanham seu relacionamento com os operários de uma escavação no centro urbano londrino. Os créditos acabam, Quinn fica sozinho e um dragão adulto desperta. Tais eventos são suficientes para preencher várias páginas de jornais e revistas. O tempo avança e a esperança de um mundo livre agora é escassa. De maneira solene, um Quinn amadurecido defende a “necessidade de se entender o passado para enfrentar o futuro”. Daí para a frente, um castelo em ruínas serve como cenário e fortaleza. O primeiro quarto de projeção deste filme se destaca pela maneira como evoca elementos medievalistas, economizando recursos para descrever o pânico generalizado que toma conta da população do planeta. Além do próprio castelo em ruínas, têm forte carga expressiva os inúmeros vitrais e/ou textos religiosos encontrados nos cômodos onde os personagens se reúnem e a maneira surpreendente como eles se dedicam aos prazeres miméticos: como se fossem peças clássicas de teatro, Quinn e seus companheiros encenam trechos de filmes como “Tubarão” (1975), “O Império Contra-Ataca”(1980) e “O Rei Leão”(1994). Tais elementos evidenciam a preocupação que a equipe técnica destacou à averiguação histórica, incluindo neste sentido o fato de que a existência de dragões é um mito inequivocamente medieval. É lamentável, no entanto, que, ao seguir o exemplo dos filmes contemporâneos de ação, esta obra potencialmente rica em abordagens teóricas abandone as discussões históricas e se renda de maneira brusca ao maniqueísmo do cinema de combate. A descontextualizada entrada em cena de um exército norte-americano adiciona tensão ao roteiro, mas paga um débito bastante elevado no que se refere à inserção de automatismo enredístico e de previsibilidade. Em outras palavras: excetuando-se a maneira curiosa como o personagem Van Zam refere-se à “superioridade bélica” dos Estados Unidos (“bem-aventurado seja o país que possui heróis. Tenho pena do país que precisa deles”),a participação do competente Mathew McConaughey (assim como de seus “companheiros de exército”) é dispensável neste filme. O estrondoso timbre vocal de Christian Bale já supria o interesse do espectador neste diferenciado exemplar do cinema de aventura, cujo maior pecado é a irregularidade rítmica. A seqüência final, em descompasso gritante com o restante do enredo, mostra os sobreviventes da peleja com o último exemplar masculino da espécie draconita compartilhando um clima bastante necessário de tranqüilidade. Milagrosamente, as centenas de dragões que sobrevoavam os céus britânicos parecem ter sucumbido diante da morte do macho da espécie. Conclusões chauvinistas à parte ( até porque não se deve caçoar dos estratagemas seletivos da Natureza), este filme consegue entreter com eficiência, mas deixa a desejar quando se percebe a maneira desleixada com que ele aborda os elementos simbolicamente valorosos do enredo. Em dado momento, a trilha sonora utiliza uma famosa canção de Jimi Hendrix ( convenientemente intitulada “Fire”). Tomando de exemplo a maneira como Hendrix faleceu, podemos asseverar que a “gula BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> ígneo-sensorial” corrompeu algumas nuanças da originalidade dos roteiristas enquanto concluíam sua trama. Afinal, ficou provado que é bem mais fácil estender roupa do que entender as re(vira)voltas da história!."