Filipe Furtado, Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:
""O primeiro milhão" é um drama moral
que trafega por temas um tanto esgotados. Seth (Ribisi) é o jovem ambicioso com
dificuldades de relacionamento com o pai (Rifkin), que entra para uma corretora de ações
um bocado suspeita, que promete transformar seus empregados em milionários.
O diretor Ben Younger faz milagres com seu roteiro não mais que
razoável por aproximadamente uma hora e vinte minutos. Durante esse tempo, "O primeiro
milhão" é de longe o melhor da temporada 2000 do cinema hollywoodiano a estrear no
Brasil até agora. Infelizmente, o diretor perde a mão no terço final e o filme começa
a girar em falso até próximo a conclusão.
O roteiro de Younger consiste no maior problema do filme. Em sua
maior parte ele apenas recauchuta idéias de outros filmes e a parte da investigação
policial não funciona. Por outro lado, o texto apresenta algumas idéias interessantes. A
primeira é a comparação entre o jogo de azar (antes de entrar para a corretora Seth
tinha um cassino clandestino) e a bolsa de valores, a outra é caracterizar os corretores
da JT Marlin como imbecis (à exceção de Seth, o único outro personagem que aparenta
ter alguma noção da ilegalidade por trás da corretora é o de Diesel).
Younger compensa em sua direção. Ele cria algumas ótimas cenas,
especialmente quando mostra os corretores confraternizando (há uma cena excelente onde
eles reassistem a "Wall Street", de Oliver Stone). Mas é na direção de
atores que Younger se mostra mais eficaz. "O primeiro milhão" não conta com
nenhuma atuação que não seja boa e alguns excelentes duelos verbais (com destaque para
os entre Ribisi e Rifkin). Ribisi como protagonista está muito bem, transmitindo o
conflito entre a ambição e a influência moralizante do pai, que permeiam seu
personagem. Rifkin está excelente como o pai, um personagem que corria o risco de cair no
estereótipo. Diesel e Katt (os únicos entre os corretores a terem tempo de cena
suficiente para construírem seus personagens) estão muito bem. Por fim, Ben Affleck tem
pouco mais de 6 ou 7 minutos em cena, mas que representam provavelmente o melhor trabalho
de sua carreira até agora. Coincidentemente, existem muitas semelhanças entre o trabalho
dele aqui com o de Alec Baldwin em "O sucesso a qualquer preço", que representa
até hoje a única contribuição expressiva de Baldwin como ator.
"O primeiro milhão" arrisca, mas não consegue chegar no
mesmo nível de filmes como "Wall Street" ou "O sucesso a qualquer preço",
especialmente devido aos problemas na parte final (que só é salva pela excelente cena
climática entre Ribisi e Diesel). Mas funciona suficientemente bem como entretenimento e
ainda é capaz de fazer pensar, nem que seja um pouquinho, já é mais do que suficiente
para pô-lo acima da média."