Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:

"O ano de 2002 foi um teste para descobrir qual Spielberg o público queria: Aquele falso Spielberg que se limitava a imitar outros cineastas, em "Minority Report" (*), ou o Spielberg autêntico, cativante e despretensioso, deste "Prenda-me se for capaz". O resultado foi: ambos a crítica especializada gostou (é do Spielberg, que crítico colocaria seu taco contra o cineasta mais popular e a figura mais poderosa do cinema?), e ambos ultrapassaram a marca de 100 milhões de bilheteria. Mas existe um detalhe nisso tudo. "Minority Report" era um filme verão que esperava conseguir vagas no Oscar, além de prometer um estouro de bilheteria - o que, por sinal, não aconteceu. Já este "Prenda-me se for Capaz", tinha uma única pretensão, a spilberiana verdadeira: divertir grandes platéias, com uma história leve, esperta, e com uma pequena enfatizaçã o com a época natalina (lá nos Eua, o filme foi lançado em tempos natalinos), realizando um conto nostalgico e inteligente, sobre família e trapaças. "Prenda-me se for capaz" não é ainda aquele grande filme que Spielberg nos guarda. Mas é aquele filme onde vemos a marca do cineasta, seu estilo, seu peculiar e bonito modo de filmar. É uma iniciação ao velho e bom Steven Spielberg diversão (aquele da saga Indiana Jones, de Jurassic Park), que consegue humanizar seus personagens com eficiência. Abandonando idéias ridiculamente risíveis como Tom Cruise correndo atrás de seus olhos, Spielberg investe seu talento em cenas divertidas e realmente ágeis, sem partir para o descerebramento, para agradar o público preguiçoso. Não espere cenas corridas, com a câmera se movimentado de uma forma que você não consegue ver nada. Esquece. Em "Prenda-me se for Capaz", Spielberg realiza um filme de ação e aventura, com uma ação sempre contida, próxima da realidade, do atingível pelo ser humano. Spielberg também não se rende a trilha sonora com batidas eletrônicas, para fazer sua platéia perder o folêgo. Com uma clássica trilha sonora (com Joh n Williams lembrando seus bons momentos), este filme é um filme ao modo antigo, com muita elegância e beleza. O filme conta a verdadeira hitória de Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio), um jovem que se tornou o maior vigarista falsificador dos Estados Unidos. Em sua infância, Frank Jr. teve tudo o que quis na vida - sua família era rica, seu pai e sua mãe felizes, morava numa grande e bonita casa, e estudava em escolas de renome. Mas quando seu pai (Christopher Walken), um vigarista - ou seja, o filho teve quem puxar - perde o emprego, e conseqüêntemente vai perdendo todos os bens da família, Frank tem de se acostumar a vida comum, estudando em uma escola estadual. E é nessa escola que ele testa pela primeira vez seu dom de enganar: após ser aloprado por um estudante que banca o bonzão, ele se passa por um professor substituto. E engana todos por meses. Sua vida vira de ponta cabeça quando seu pai separa-se de sua mãe. Isso faz com que ele pense em recuperar tudo o que a família perdeu (assim, acreditando - talvez, reunir seus pais novamente), dando golpes gigantescos com a falsifi cação de cheque, e disfarces. Sem dúvida, o charme desse filme é a história de vida e golpes, do jovem trapaceiro. Seus disfarces e falsificações são sensacionais; além de estar recheado de dinheiro por causa dos incontáveis cheques que falsificou, ele ainda consegue falsos diplomas e documentos para se tornar aviador, advogado, médico e por aí vai. E seu poder para tudo isso é um só: a manipulação, o bom papo. Você até perde a conta de quantas mulheres Frank seduz no decorrer do filme. A tática usada para não descobrirem seus cheques falsos, é na hora da troca, mexer com as emoções da pessoa, seja como for. Em um exemplo engraçado, ele vai selecionando uma caixa do banco, que cairia em seu xaveco. Assim, ele vai fazer a troca do cheque, e quando a moça vai conferir a originalidade da peça, ele convida ela para sair - estarrecida, o cheque passa com uma verificação superficial, e o rapaz enche mais os bolsos sem o mínimo esforço. São por situações assim que Frank consegue tudo o que quer, para ser médico, ele conquista uma jovem recepcionista (Amy Adams, de "Segundas Intenções 2"), pela qual ele realmente se apaixona. A diversão em "Prenda-me se for Capaz" está no jogo de gato e rato entre o jovem golpista (que é comparado a James Bond, por causa de seus disfarces), e o policial do F.B.I, Carl Hanratty (Tom Hanks), que persegue o rapaz durante anos. A trama é dividida: em uma, Frank está sendo transferido para uma prisão americana - e na outra, os fatos vão acontecendo cronologicamente, com Frank pregando suas peças em todos. Até mesmo Carl, um espertíssimo policial, cai por duas vezes de cabeça nas armações de Frank. O interesse do espectador fica nos dois personagens: em como Carl irá conseguir pegar Frank, e como Frank conseguirá ultrapassar as diversas barreiras que estão lhe ficando cada vez mais apertadas. Na melhor cena do filme, Spielberg dirige com esperteza e à moda antiga, uma maravilhosa furada na segurança do aeroporto; onde toda a polícia está de marcação, mas Frank irá tentar furar o bloqueia. Uma maravilha de engenhosidade. Um ponto a se verificar é: a vida de Frank é uma história na contra-mão do "Amerian Way life", com seus pais sendo infelizes, e se separando. Seu pai, inclusive, vive com dificuldades financeiras. Já na parte da mãe, Spielberg consegue (inclusive com espiríto natalino), deixar a suas persistente marca do BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> embelezado modo de viver americano, com uma família contente, com pai, mãe e filhinha vivendo numa casa quente, com lareira, e sendo felizes para sempre. Mas, aqui em "Prenda-me se for capaz", essa estratégia nem incomoda ou prejudica (o que acontece com "Minority Report", prejudicadíssimo pelo final), simplesmente pelo filme ser em tom leve, sem pretensão alguma de críticar ou fazer apologias. Tanto que, não há condenação e nem mesmo aceitação daquilo que Frank faz - Spielberg não está alí para julgar o personagem, mas sim para divertir o público com a história dele. E isso faz de "Prenda-me..." um filme que encanta. O elenco do filme formado por grandes nomes garante boas atuações. Leonardo DiCaprio está ótimo e sua bola lá em cima - afinal, trabalhou com Scorsese e Spielberg e os filmes quase chegaram juntos ao cinema - e sua atuação aqui é ótima. Em um misto de inconseqüência e arrependimento, ele garante carísma ao personagem, que mesmo sendo um vigarista (anarquista quase, já que seus golpes são contra o próprio governo que rouba o dinheiro do povo), é fácil que a platéia se indentifique para ele - ponto para o astro de "Titanic" (*), que está demonstrando-se bom ator de verdade (duas atuações bem boas em um ano, com a de "Gangues de Nova York" sendo um pouco superior). Os coadjuvantes são de peso. Christopher Walken, indicado ao Oscar pelo papel, está bem na pele do pai do garoto, e demosntra as mesmas características que seu filho; a parte em que ele diz para o policial que seu filho foi lutar no Vietnã, é hilária. Porém, gostei mais da atuação excelente do Tom Hanks, que passa a s er a única motivação para Frank continuar seus golpes. Hanks não está naqueles típicos papéis simpáticos, ele vive um policial mal-humorado, antipático, grosseiro - mas muito esperto e pscologicamente manipulador. Além da indicação de Melhor Ator Coadjuvante para Walken, a trilha sonora de John Williams (a miléssima indicação dele) também foi reconhecida. Mas toda a produção de "Prenda-me se for capaz" é caprichada (belíssima fotografia do freqüênte colaborar de Spielberg, Janusz Kaminski), porém difícil de ser reconhecida, por causa da simplicidade. E de simplicidade é feito esse novo filme de Spielberg, tudo bem normal, sem efeitos deslumbrantes, ou cenas de ação para saltar da poltrona. O que prejudica o filme é sua duração exagerada. Descontar meia hora não faria mal a ninguém, e o filme seria muito mais deliciosa e menos cansativo. A apresentação de um programa no começo, por exemplo, é uma coisa que fica vaga no decorrer da história - é como se, desde lá, todo o filme já estivesse sendo explicado em detalhes. Mas ainda assim, apesar de estar longe de ser um grande filme, "Prenda-me se for capaz" dá um novo folêgo a carreira de Spielberg, que voltou a fazer aquilo que sabe fazer c omo niguém: divertir um público louco para comer pipoca deliciosamente no cinema. É uma revitalização do cineasta. Seu próximo projeto? Não se sabe ao certo, mas que está sendo pré-produzido um "Indiana Jones 4", todo mundo já sabe - e esse está cheirando a firmação total de Spielberg e seu verdadeiro cinema. Chega de Minoritys Reports e Ai's! Agora aguardamos o grande filme de Spielberg, e "Prenda-me se for Capaz" atiçou essa espera. Confira, diverta-se e esqueça no mesmo momento."