Rodrigo Souza Grota, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:

"Melodia convencional em O Pianista O mineiro Humberto Mauro tinha uma definição bem simples para o cinema: “é como uma cachoeira”, dizia, com sua prosa simples de Cataguases, cidade em que nasceu. Mauro explicava que cinema era o que uma pessoa veria se entrasse em uma sala e encontrasse ali uma cachoeira. Outras versões sobre essa definição de Mauro referem-se à fluidez, ao frescor e a ritmos naturais que a cachoeira representa – uma bela síntese da nossa realidade. Essa definição do diretor de “Ganga Bruta”, singela e exata, pode muito bem ser aplicada ao novo filme do polonês Roman Polanski, “O Pianista” (Le Pianiste, 2002, 148 minutos, www.thepianist-themovie.com), vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2002, e candidato a sete estatuetas da cerimônia que se realiza neste domingo, dia 23 de março: o Oscar 2003. Polanski conta uma história que o mundo jamais esquecerá – os horrores provocados pela Segunda Grande Guerra (1939-1945). Sob uma ótica mais específica, o martírio imposto aos judeus que moravam em Varsóvia. Adaptando o livro autobiográfico de Wladyslaw Szpilman (que está sendo lançado no Brasil), Polanski se permitiu um reencontro com a sua infância. Apesar de ter nascido em Paris, em 1933, aos quatro anos, Roman e sua família mudaram para Varsóvia. Seus pais foram enviados para um campo de concentração nazista, onde sua mãe morreria. Seu pai sofreu as humilhações e demais obscenidades que caracterizaram aquela época. E isto alguém jamais esquece. Com estes referenciais, pode-se esperar que esta seja a obra-prima de Polanski: um grande tema, um diretor maduro, uma história autobiográfica – o que poderia dar ? Infelizmente, e isto se observa fatalmente por uma escolha do diretor, temos na tela that old same story: os nazistas, protagonistas do holocausto, são retratados como em qualquer outro filme americano. Os judeus, mesmo em suas contradições internas (desunião que fica mais clara com a personagem do irmão de Wladyslaw, Henryk - interpretado por Ed Stoppard), são os injustiçados que nada tinham a ver com aquela tragédia. Os lugares-comuns adotados pelo roteirista Ronald Harwood se evidenciam a cada olhar frio de um soldado alemão, a cada tiro desnecessário contra os semitas, a cada abuso a que um judeu é submetido. Não se trata de defender os alemães, certamente, os maiores culpados pela Segunda Grande Guerra. E não se trata também de canonizar os judeus, costume mais próximo dos velhacos que ainda dominam Hollywood. O que se pediria a um filme de Polanski, um cineasta que já consolidou seu estilo, é o mergulho profundo no abismo de uma alma: o ponto em que bem e mal se misturam, se fundem e criam a personalidade humana. Pede-se que Polanski vá alem do sofrimento brilhantemente executado pelo ator americano Adrien Brody e encontre a ambigüidade moral presente em cada ser humano. Há alguns instantes de grandeza em “O Pianista”; precisamente dois. Em uma cena exemplarmente construída, Vladyslaw, ao finalmente encontrar um apartamento seguro, em que passará alguns dias escondido dos nazistas, depara com um piano. Após tantos meses distante de seu instrumento predileto, ele passa a dedilhar melodias imaginárias retornando ao mundo mágico em que vivia antes da guerra. Polanski nos dá alguns segundos de sublimação, e isto não é pouco. Ainda no prólogo, na cena em que a família do pianista é enviada aos campos de concentração, um antigo conhecido consegue livrar Wladyslaw desse destino trágico, separando-o de sua família. Entre a sobrevivência solitária, e a morte ao lado da família, o pianista dolorosamente escolhe a vida, por mais desumano que isto possa parecer no momento. Brody, com domínio completo de sua personagem, anda poucos metros como o homem mais triste do mundo. E percebe-se a angústia do personagem em cada fotograma produzido por Polanski. Não há como negar. Exceções descritas, voltemos ao filme em seu aspecto geral. Temos duas horas e meia de história sobre um pianista que sobreviveu à perda de tudo o um “bom homem” pode desejar: o bem-estar com a família, uma inocente paixão por uma garota, um encanto incondicional pela música. Nessa trajetória, percebemos judeus que traíram a si mesmos e judeus que resistiram; alemães sanguinários e alemães tolerantes. Há até o alemão que, fascinado por música, ajuda e admira Wladyslaw. Neste trecho, outra incógnita: poder-se-ia esperar que esse personagem tivesse uma atitude egoisticamente interessada, já que a guerra estava sendo perdida, e em poucos dias... que seria dos alemães? Polanski recusa esta abordagem e opta pelo mais fácil: nos dá a impressão de que o soldado alemão era um bom moço, uma exceção à tirania germânica. Essa opção pelo maniqueísmo, diluída em algumas cenas, mas presente em todo o resto do filme, torna “O Pianista” apenas mais retrato sobre a Segunda Grande Guerra. O que pensavam aqueles alemães, o que sentiu o pianista ao abandonar a sua família, como os judeus se comportavam entre eles mesmos – essa outra história da Segunda Grande Guerra, aquela relegada pela crônica da época, e que historiadores poderiam apresentar, não foi até hoje exibida nos cinemas. Em Bagdá, a menos de um dia do ataque americano, jovens jogam futebol e namorados vão ao cinema. Saddam Hussein motiva o seu exército utilizando a trilha sonora do filme “Gladiador”. Soldados iraquianos fumam e batem papo em frente à embaixada da ONU. Isto é realidade – paradoxos que nunca entenderemos. Polanski, apesar de nos apresentar dois momentos sublimes em “O Pianista” (cenas em que se observa uma comovente complexidade humana), ao longo do filme, prefere se apoiar no retrato da crueldade que já conhecemos e estamos cansados de ver. Quando se está triste, é fácil desenhar um homem triste. A arte, mais que qualquer outro meio, permite lampejos de felicidade no semblante deste homem triste. E é isto que Polanski recusa. O grande público aplaude; o bom cinema, certamente não.."